Infiltração do PCC em empresas de ônibus de SP tem 30 anos e se tornou canal para lavagem de dinheiro
Por Leandro Machado | Folhapress
A infiltração de membros do PCC (Primeiro Comando da Capital) no sistema de transporte de ônibus de São Paulo é uma história de três décadas que remonta à consolidação do grupo criminoso no estado.
Esse processo também passou pela regularização do transporte coletivo em bairros periféricos da cidade e pela ascensão política de figuras ligadas ao setor.
Uma delas é o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), alvo de uma operação do Ministério Público e da Polícia Civil nesta quinta-feira (17). Ele se entregou à polícia na tarde desta sexta-feira (18), em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo.
Ao todo, a Justiça autorizou a prisão temporária de 16 pessoas e buscas em 18 endereços no estado.
A Operação Vectura Corrupta afirmou que a facção controla 12 empresas de ônibus da Grande São Paulo em um esquema de lavagem de dinheiro. Uma das companhias investigadas é a Transwolff, que atua na zona sul da cidade. A empresa nega irregularidades.
A investigação classificou o ex-presidente da Câmara Municipal como "dono de fato" da Transwolff. O ex-vereador, segundo as investigações, seria responsável direto por sua operação.
Em conversa por telefone com a Folha na manhã de quinta (17), Milton negou qualquer relação com a Transwolff e com a facção criminosa.
"Nego veementemente, não conheço ninguém do PCC nessa vida. A minha relação com o setor foi institucional, a pedido do então prefeito Bruno Covas, inclusive na negociação de uma greve em 2019. Não há nenhuma hipótese de eu ser dono [da Transwolff]. Nunca tive um carro", disse.
A trajetória da Transwolff é parecida com a de outras empresas de ônibus apontadas como parte do esquema.
Nos anos 1990, com a privatização da antiga CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos), vans clandestinas se proliferaram por bairros da periferia para suprir a demanda por transporte.
"Houve uma grande crise de transporte naquela década. O setor clandestino ganhou muita força, gerando interesse dos membros da facção que estava crescendo", explica o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo) do Ministério Público de São Paulo.
Nesse período, também ocorria a consolidação do PCC como grupo criminoso hegemônico no Estado --a facção foi criada em 1993.
Em 2003, a gestão da então prefeita Marta Suplicy (PT) regularizou e reorganizou o serviço. Cooperativas dos chamados "perueiros" se formaram para dividir as linhas nas periferias.
"Membros da facção passaram a comprar vans. Depois, quando surgiram as cooperativas, eles compraram muitas cotas e acabaram tomando o controle de algumas dessas entidades", diz Gakiya.
Uma das cooperativas investigadas no período foi a Cooperpam (Cooperativa dos Trabalhadores Autônomos em Transporte de São Paulo), com atuação na zona sul da capital. Anos depois, ela se transformou em uma empresa e mudou de nome para Transwolff.
Em 2006, um dos investigados por supostas ligações com o PCC era Luiz Carlos Pacheco, conhecido como Pandora, presidente da Cooperpam e atualmente proprietário oficial da Transwolff.
Na época, ele foi preso sob suspeita de utilizar dinheiro da cooperativa em um plano de resgate de presos. A Justiça concluiu não haver provas. O inquérito foi arquivado.
Em 2024, Pandora foi investigado na operação Fim da Linha. Ele e outros diretores da Transwolff foram acusados de fraudar a contabilidade da empresa para incluir recursos provenientes do tráfico de drogas. O órgão também apontou que a facção teria feito um aporte de capital de R$ 50 milhões na empresa.
Segundo o MP-SP, os diretores acumulavam um patrimônio de luxo incompatível com seus ganhos oficiais, como carros e imóveis de luxo, além de armas de grosso calibre. A Justiça ainda não julgou o caso. Na época, a prefeitura realizou uma intervenção na empresa.
Em nota à Folha, a defesa da Transwolff e de Luiz Carlos Pacheco negou irregularidades e qualquer ligação com o ex-vereador Milton Leite.
"Ele [Milton] nunca teve qualquer participação societária na Transwolff, nunca participou da gestão ou deu ordens na empresa. Tal afirmação está completamente equivocada e dissociada da realidade", disse a empresa.
"O empresário Luiz Carlos Pacheco nunca havia sido denunciado em nenhuma outra situação em sua vida até as indevidas imputações da operação Fim de Linha, que estão sendo combatidas na Justiça, com a defesa alegando sua total inocência", completou.
Outro alvo da operação desta semana é o empresário Paulo Korek Farias. Nos anos 2000, ele atuava numa garagem associada à Cooperpam.
Hoje, ele é dono da A2 Transportes. Segundo as investigações, a empresa também faz parte do esquema de lavagem de dinheiro para o PCC. A polícia cita também áudios nos quais representantes da companhia combinam pagamentos ilícitos.
Tanto a A2 como seu proprietário negam irregularidades. "A A2 Transportes nunca teve envolvimento com o PCC e jamais fez lavagem de dinheiro. Nossos recursos são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela prefeitura pelos serviços que prestamos", afirmou Farias.
Outro nome da política paulistana ligado ao setor de transportes também foi preso sob suspeita de ligações com o PCC este ano. Em junho e agosto, o vereador Senival Moura (PT) ficou 43 dias preso na Operação Última Parada, que também investigou o setor.
Mensagens obtidas pela polícia em celulares mostraram o suposto papel de Senival na distribuição de recursos da Transunião --empresa suspeita de operar um esquema de lavagem de dinheiro.
Segundo as investigações, o parlamentar era "o verdadeiro detentor do poder de condução da estrutura paralela de gestão financeira" da empresa de transporte e funcionava como uma espécie de "instância superior de deliberação acerca da movimentação informal de recursos".
Desde os anos 1990, Senival é ligado ao setor de transportes. Na época, era um dos operadores de kombis clandestinas que circulavam na zona leste.
Quando foi solto pela Justiça, em 6 de agosto, a defesa de Senival negou irregularidades.
Para Gakiya, o setor de ônibus se tornou um canal rentável e acessível para sustentar operações ilícitas, como o tráfico de drogas.
"Esse é um serviço altamente lucrativo para o crime organizado, porque é uma possibilidade única de lavar dinheiro. A facção consegue misturar o que é pago pela prefeitura, a renda gerada pelos passageiros e o dinheiro oriundo do tráfico de drogas", diz.
No ano passado, a prefeitura repassou R$ 7,1 bilhões subsídios às empresas de ônibus.
A cientista política Jacqueline Muniz, professora do departamento de Segurança Pública da UFF (Universidade Federal Fluminense), diz que a penetração do PCC em serviços públicos está construindo uma "estrutura de poder em parceria com o Estado."
"Quando a facção controla a circulação de pessoas, ela pode ampliar mercados, regular territórios, interferir na vida cotidiana e acumular uma capacidade de negociação econômica e política", diz.
Em nota, a gestão Ricardo Nunes afirmou que "não compactua com qualquer irregularidade ou práticas ilegais no sistema de transporte público."
Também afirmou que o prefeito determinou "a criação de um grupo de trabalho para analisar rigorosamente todos os elementos do caso."
LINHA DO TEMPO DO SISTEMA DE ÔNIBUS DE SP
Anos 1990 - Perueiros atuam no transporte público clandestinamente
2003 - Criação de cooperativas de motoristas com regulamentação das vans clandestinas
Jun.2006 - Luiz Carlos Pacheco, então presidente da Cooperpam, é preso sob suspeita de financiar fuga de presos
2014 - Prefeitura passa a exigir que cooperativas de motoristas se transformem em empresas
4.mar.2020 - Adauto Soares Jorge, presidente da empresa Transunião, é morto na zona leste de São Paulo. Ele era próximo do vereador Senival Moura (PT). Crime teria sido encomendado pela facção
Abr.2024 - Operação Fim da Linha investiga participação das empresas Transwolff e UPBus em um esquema de lavagem de dinheiro do PCC
25.jun.2026 - Vereador Senival Moura é preso sob suspeita de comandar empresa com ligação com o PCC
16.set.2026 - Operação Vectura Corrupta prende ex-vereador Milton Leite sob suspeita de comandar a empresa Transwolff.
