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Domingo, 02 de Janeiro de 2022 - 11:00

'A morte não lhe roubou a alma nem a importância', diz Nélida Piñon sobre Lya Luft

por Mariana Consiglio e João Gabriel Telles | Folhapress

'A morte não lhe roubou a alma nem a importância', diz Nélida Piñon sobre Lya Luft
Foto: Reprodução / Agência Brasil

A escritora carioca Nélida Piñon, 84, lamentou a morte de Lya Luft, de quem foi amiga. Luft morreu na madrugada desta quinta (30), aos 83 anos, em decorrência de um câncer de pele.
 

Em conversa com a Folha, Piñon disse que "as amizades são sempre misteriosas". "Não têm começo, mas têm fim. No caso da nossa amizade, teve um desfecho trágico com a morte dolorida e sofrida de Lya Luft".
 

Piñon, que é imortal da Academia Brasileira de Letras, conta que elas se encontravam sempre em Porto Alegre, mas também no Rio de Janeiro e, às vezes, em São Paulo. "Muito mesmo. Escrevíamos, falávamos ao telefone e nesses encontros descontávamos o tempo que não tivemos uma ao lado da outra. Mútua confiança, mútuo respeito e, diria, mútua admiração."
 

Ela lembra que era chamada de madrinha por Luft e Hélio Pellegrino, que foram casados, por tê-los apresentado. "Quando estávamos em São Paulo no famoso congresso que foi marcado pela tristeza da possibilidade da morte do presidente Tancredo Neves, que estava hospitalizado em São Paulo, ela quis conhecer Hélio Pellegrino, por quem tinha muita admiração intelectual. Eu apresentei os dois e fui surpreendida depois com o enamoramento deles. Sempre que eles se encontravam no Rio de Janeiro, eu era convidada, porque era a única que acompanhava de perto aquele romance fulgurante de dois seres brilhantes e inteligentes que se descobriram", diz.
 

Piñon esteve ao lado de Luft também na morte de Pellegrino, em 1992. "Eu fui correndo para a casa dela e ficamos juntas o tempo todo para organizar os papéis."
 

"E assim os tempos foram passando. Ela foi tendo suas vidas alteradas e se tornou uma escritora famosa, uma cronista reputada, tornou-se uma escritora 'best-sellerista', cujos livros vendiam muitíssimo. Enfim, uma mulher de sucesso e de grande respeitabilidade. Pensou-se até que um dia pleitearia à Academia Brasileira de Letras, mas ela dizia que não tinha temperamento gregário para viver em comunidade e ter que vir ao Rio de Janeiro sempre."
 

Para Piñon, Luft manifestava felicidade com o casamento com o também escritor Vicente de Britto Pereira, com quem estava há 18 anos. Segundo a escritora, Luft amava suas duas cachorrinhas, que a ajudaram a enfrentar a grande tragédia de sua vida, a morte do filho André, que em 2017 sofreu uma parada cardíaca enquanto surfava.
 

Sobre os livros de Luft, Piñon reforça que "é uma obra importante desde a sua estreia". "Tinha um toque taciturno, pessimista, triste, sem traço de alegria. Eu digo que o mundo romanesco dela era um mundo quase de uns anjos petrificados, de anjos que perderam as asas, seres sofridos, que talvez tivessem perdido o paraíso para sempre. Esse era o texto de Lya, um texto que padecia das agonias da escritora, mas ela escrevia com grande elegância, com um poder de síntese muito grande."
 

"Quero destacar a importância que ela teve como cronista de grandes revistas nacionais, da revista Veja, e depois de outros jornais. Ela nunca deixou de participar do horizonte brasileiro. Fez parte da reflexão brasileira num determinado período e saiu-se muito bem. Além do mais, também é preciso realçar que ela também é autora de brilhantes textos poéticos e, portanto, deixa uma marca sólida nessa literatura brasileira, que vai dar-lhe um lugar especial quando for julgada a partir da sua finitude", diz.
 

A amizade das duas durou até os últimos momentos da vida de Luft, afirma Piñon. "Posso dizer que fomos amigas até o final. Só deixei de receber mensagens suas nos últimos dias, o que me fez crer que ela estava já próxima do desfecho final. Eu não podia acreditar quando soube que essa morte veio se apossar dela, roubar-lhe a vida --mas não lhe roubou a alma, o talento e importância de sua obra."

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