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Sábado, 26 de Dezembro de 2020 - 16:40

Com a pandemia do novo coronavírus, quase metade dos trabalhadores pararam

por Diego Garcia e Beatriz Montesanti | Folhapress

Com a pandemia do novo coronavírus, quase metade dos trabalhadores pararam
Pandemia fechou portas e parou o comércio | Foto: Marcelo dos Santos

O mercado de trabalho do Brasil chegou ao fundo do poço em 2020. Com a pandemia, que interrompeu o comércio, paralisou a produção industrial e brecou o setor de serviços, o país viu um fenômeno inédito: quase metade da população em idade de trabalhar literalmente parou.

Pela primeira vez, o número de brasileiros inativos, ou seja, sem emprego e sem buscar algum, ultrapassou a marca de 40%. O maior índice foi nos trimestres encerrados em julho e agosto, quando o indicador chegou a 45,3% --a média histórica é de 38,9%.

Os dados são de um estudo feito pelo professor sênior da FEA/USP e coordenador do Projeto Salariômetro, da Fipe, Hélio Zylberstajn. Ele utilizou dados de todas as pesquisas Pnad Contínua, do IBGE, para chegar aos parâmetros.

Somando-se a esse contingente os brasileiros desempregados (aqueles em busca de trabalho, segundo o critério do IBGE), a quantidade de pessoas sem ocupação chegou a 53,2%, um recorde.

Entre eles está Claudenice Sousa, 48. Desempregada desde o início da pandemia, quando a escola em que fazia faxina fechou as portas, ela não conseguiu se cadastrar para receber a caixa de alimentos distribuída a 1.000 famílias pela associação de moradores da Brasilândia, zona norte de São Paulo.

"Estou só fazendo bicos, mas é pouco. Recebo R$ 50 por cada dia de limpeza", diz. Seu filho, que trabalhava em um lava-jato, também foi demitido. Nos últimos meses, sobrevivem graças a auxílios como esse.

Apesar da perspectiva de retorno às aulas no ano que vem, a empresa de limpeza terceirizada para a qual Claudenice trabalhava não deu sinais de voltar a contratar, e com o aumento do número de casos de Covid-19 na cidade, ela prevê um 2021 incerto.

A história se repete entre as pessoas que se aglomeraram na manhã de segunda (21) em frente a um galpão da Brasilândia, esperando receber arroz, feijão, óleo, macarrão e um frango --adicional de Natal à entrega das cestas.

"A pandemia acabou com geral", diz o pedreiro Ivan Lopes, 53, que também viu os serviços pararem nos últimos meses e tem vivido de pequenos bicos. Com cinco filhos pequenos em casa, os alimentos da cesta duram uma semana. "Estou esperando essa vacina para ver se clareia, porque estamos meio no escuro."

Também desempregada, Valdirene Souza dos Santos, 47, segurou as pontas nos últimos meses com o auxílio emergencial, e agora se preocupa em conseguir um emprego. "Já estou correndo atrás, não dá para ficar esperando." Segundo ela, a cesta básica dura um mês em sua casa, onde vive com três netas e quatro filhas. Apenas uma está trabalhando.

Segundo Zylberstajn, da USP, quando a pandemia chegou ao Brasil, entre março e abril, o mercado de trabalho sofreu um enorme baque, sobretudo os trabalhadores informais que, dadas as medidas restritivas de circulação, ficaram impedidos de desempenhar suas atividades.

"Imagina um vendedor nos cruzamentos em semáforo, ou quem vende bolo, sanduíche, na porta do metrô? As ruas ficaram desertas. O transporte público ficou às moscas. O pessoal não tinha o que fazer, ficou sem ocupação."

Com o passar do tempo, os formais foram também atingidos, mas com intensidade menor. Isso porque uma medida provisória permitiu que empresas suspendessem contratos ou reduzissem a jornada e o salário de funcionários, que receberam um complemento de renda do governo.

"Isso manteve essas pessoas fora dessa categoria não ocupadas. E não foi pouca gente. Essa quantidade de pessoas cujo emprego foi preservado deve beirar os 12 milhões", disse o professor.

A taxa de não ocupação, que considera os brasileiros fora da força de trabalho mais os desocupados, demonstra como o mercado do trabalho chegou ao fundo do poço.

Em dezembro de 2019, o indicador estava em 44,9%. Na época, os brasileiros desocupados eram 6,8% do total de pessoas em idade para trabalhar, enquanto os inativos --que estavam desempregados e não buscavam emprego-- somavam 38,1%. Os dois indicadores subiram a 8% e 44,9%, respectivamente, no trimestre encerrado em setembro.

De acordo com Rodolpho Tobler, economista do FGV-Ibre, os números do mercado de trabalho em 2020 mostram que a pandemia afetou diretamente os trabalhadores, que ficaram sem emprego e sem possibilidade de procurar uma nova vaga.

Porém, com a flexibilização das medidas restritivas nos últimos meses, uma melhora já pode ser observada. "Vemos as pessoas voltando a procurar emprego. A expectativa é que nos próximos meses tenha alguma melhora, com as pessoas conseguindo ocupação, voltando a trabalhar e buscar emprego", diz.

A edição mais recente da Pnad Covid (pesquisa criada pelo IBGE para calcular os efeitos da pandemia no mercado de trabalho), referente a novembro, mostrou de fato uma queda no número de pessoas em isolamento social rigoroso. Em novembro, o número alcançou o menor patamar da série histórica (23,5 milhões). Em outubro, eram 26,2 milhões nessa situação. Em julho, eram 49,2 milhões.

Por outro lado, aumentou a quantidade de brasileiros que dizem não adotar restrições para conter o avanço da Covid-19. Pela primeira vez, esse contingente ultrapassou a marca de 10 milhões de pessoas. Em julho, esse grupo era de 4,1 milhões de pessoas.

Tobler destaca que ainda existiam, em novembro, 13,6 milhões de brasileiros desempregados que não procuraram trabalho por conta da pandemia, mas que gostariam de estar trabalhando. Para o pesquisador, isso significa que, sem uma vacinação efetiva na população que acabe com a transmissão da Covid-19, é difícil imaginar uma recuperação rápida da economia.

"Não conseguimos imaginar recuperação em curto prazo. O ano de 2021 ainda é incerto, não sabemos sobre vacina, e sem cenário claro de que vai voltar ao que era antes não conseguimos medir os efeitos", apontou. Ele acredita que a retomada ao patamar pré-crise só venha ao longo de 2022, sem saber precisar se no começo ou fim do ano.

Segundo Zylberstajn, a tendência é que 2021 traga uma mudança maior no cenário do emprego no país, com um número maior de brasileiros entrando para as estatísticas dos desocupados. Isso porque a metodologia do IBGE só considera na taxa de desocupação aqueles que estão em busca de emprego.

Com o fim do auxílio emergencial e redução do distanciamento social, os números vão mudando, com mais brasileiros na rua em busca de ocupação ou efetivamente empregados.

"A gente vai ter uma mudança na força de trabalho, que são os ocupados e desocupados. Vai aumentar muito a quantidade de desocupados, que são uma parte dos não ocupados. Eles vão voltar ao mercado de trabalho, com a economia reafirmando, mas não vai ter ocupação para todo mundo", disse Zylberstajn.

Segundo ele, essas pessoas vão passar para uma outra realidade. Continuarão na mesma categoria dos não ocupados, mas em vez de fora da força de trabalho, vão estar na força de trabalho e procurando trabalho. "Justamente por isso é importante ter a noção geral dos não ocupados. A quantidade deles não vai mudar, só vai aumentar."

Outra previsão é a do crescimento no número de brasileiros ocupados. "É meio contraditório. Vai ter mais gente ocupada e mais gente desocupada porque as pessoas vão procurar ocupação e nem todas vão encontrar."



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