Segunda, 27 de Janeiro de 2020 - 11:10

Alessandro Molon

por Lucas Arraz / Mauricio Leiro

Alessandro Molon
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

O líder da oposição na Câmara, deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ) acredita que, de fato, existe a necessidade de reformar as Previdências dos estados e municípios, porém estando atento para que se tenha "uma transição justa" ao novo formato. Destacou ainda que o PSB terá um "bom problema", pois tanto o vereador Silvio Humberto (PSB) e a deputada federal Lídice da Mata são grandes nomes para a prefeitura de Salvador em 2020.

 

Segundo o deputado, o campo progressista tem que se unir e analisar o melhor caminho para o país e não restringir e abdicar de dialogar, por exemplo, com os campos religiosos. "Não há razão para os progressistas não tenham apoio dos religiosos. As religiões podem conviver, dialogar, e ser um elemento de força para transformar a sociedade", analisou. 

 

Defensor do desarmamento, o parlamentar contraria os dados divulgados do governo sobre a falta de relação do aumento do armamento civil e a diminuição dos homicídios no país. "Os homicídios caíram por varias razões. Uma delas é o que os estados tem feito para diminuir isso. Na Bahia os homicídios tem caído, há 4 anos", disse ao Bahia Notícias.

 

Analisando a condução da educação pelo governo federal, Molon entende como "falso dilema" a ideia de reduzir gastos com ensino superior e reverter a verba para a educação básica. "Sem tirar da universidade aumentando também para educação básica", pontua.

Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

 

Deputado, o senhor já disse mais de uma vez para a imprensa em falar em 'oposições', no plural. O que hoje distingue a oposição do PSB feita por você e pelo PT?

É uma das coisas que digo, pois dentro da oposição tem visões diferentes de temas diferentes. Nós do PSB vemos o empreendedorismo como um tema importante e que a oposição não tem que ter preconceito com o tema. Outros partidos analisam que isso não tem que ser um tema de partido de esquerda e centro-esquerda. Portanto, existem visões diferentes. O PSB votou mais junto com o PDT em alguns pontos, outro com o PT. A palavra no singular talvez não revele o que de fato é a oposição. Debatemos o tema da ética da política, e isso era pauta da esquerda. E mesmo quando alguns problemas com nomes da esquerda. Outro exemplo é a sustentabilidade, retomar um projeto para o Brasil é um desafio que assumimos e outros partidos tem uma visão menos comprometida com esse tema. Mas nesse período temos que sublinhar o que nos une, é o que procuramos fazer. 

 

Em trechos de sua biografia, é percebido como o senhor quando deputado estadual a época, era tido como "brigão", porém o senhor foi elogiado pelo ministro da Economia Paulo Guedes pelo debate que fez sobre a reforma da Previdência. É possível construir consenso na reforma tributária com o governo e chegar a uma proposta que una oposição e governo?

Dependendo da abordagem que o governo faça sobre ela, sim. Mas depende do governo ter uma reforma tributária. Acho muito estranho depois de um ano o governo não enviar uma reforma, nos já apresentamos a nossa. Já tem uma outra na comissão especial e para nós é insuficiente. Dois são os problemas da tributação brasileira, primeiro ela é muito complexa. Até quem quer recolher o imposto da forma certa tem dificuldade. A legislação de ICMS é muito confusa, é difícil até para os fiscais, é preciso simplificar. Os empresários que paguem os impostos fazendo isso, o tempo gasto com isso no Brasil é recorde. Mas, não basta apenas simplificar, tem que tornar ela mais justa. Quem paga mais imposto no Brasil hoje? É a classe média e a classe popular. Super ricos não paga imposto no Brasil. A proposta do deputado Baleia Rossi só simplifica, mas não redistribui os valores. A nossa faz isso. Melhora para 99% da população brasileira. O pior problema do Brasil para nos seja a desigualdade, isso rui as nossas bases. É fundamental que a desigualdade reduza para a democracia sair fortalecida e o país cresce mais. O FMI [Fundo Monetário Internacional] já diz isso. 

 

O PSB na Câmara foi muito crítico e puniu alguns deputados que desobedeceram as ordens de votar contra. Como o senhor vê a postura do partido para os estados e municípios?

Qual foi a posição do PSB para a reforma da reforma da Previdência de Bolsonaro? Fizemos uma campanha publicitária que dizia: essa reforma não. Mas era necessário fazer a reforma. Mas aquela era muito injusta. Nós não discutimos a necessidade da reforma e sim a qualidade do que ela fazia na prática. Ela mexe com os trabalhadores do regime geral e dos servidores públicos. O regime geral são os que ganham menos e pagam mais, e por isso votamos contra essa crueldade. Você pegar um trabalhador da construção civil que pega sacos nas costas, e trabalhar até os 65 anos é uma injustiça. Você pedir para que eu trabalhe até os 65, ok, acho justo. Para os estados e municípios será necessário fazer ajustes. Nos estados que é preciso equilibrar as contas, o posicionamento do PSB vai ser analisar a questão fiscal, promover o diálogo do governador com os servidores, tentar o máximo de entendimento possível e aplicar uma transição justa. Tem que ter uma transição justa. 

Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

 

A avaliação de um projeto presidencial do governador Rui Costa é feita por baianos fica comprometida pela proximidade. O senhor como líder da oposição, percebe que existe clima e viabilidade para uma candidatura de Rui aglutinar o campo de centro esquerda, que também conta com seu partido?

O governador vem fazendo um governo que é reconhecidamente muito bom. Tem índices muito bons e a imagem que o Brasil tem é positiva pelos resultados alcançados. Porém, antes de falar de um nome para a candidatura, é falar sobre a melhor tática da esquerda para vencer as eleições.Foi um pensamento feito por Rui Costa quando ele disse que o PT deveria ter apoiado Ciro Gomes em 2018. É uma pergunta que tem que ser feita por qualquer partido, pois, talvez, seja o momento de dar a oportunidade para que outro partido apresente um nome. Essa grandeza é bom que todos nós tenhamos. Os nossos projetos pessoais não são mais importantes que os projetos nacionais. O que é melhor para o Brasil, essa pergunta vai preceder quem será o nome. Qual a melhor tática? Um nome com mais possibilidade de agregar, um nome mais ao centro.

 

O PSB aqui em Salvador tem construindo o nome de Lídice da Mata para 2020. Alguns setores vem defendendo a necessidade de Salvador tem o primeiro prefeito negro, entre eles o presidente da sigla no município o vereador Silvio Humberto. Diante desse conflito, qual o melhor caminho a tomar?

Tenho muita admiração pelo vereador Silvio Humberto, por seu mandato, e temos visto no Brasil dois grupos majoritários do ponto de vista numérico na sociedade, que são tratados como se fossem minoritários. Me refiro aos negros e as mulheres que são dois grupos muito discriminados. O partido vai ter que decidir, e o privilégio é do PSB, que teremos um representante negro ou mulher. É um bom problema, temos dois grandes nomes. A Lídice foi a única prefeita da história de Salvador, tenho uma grande admiração por ela. Pela proximidade me tornei um grande admirador dela.

 

Em 2008 na sua candidatura a prefeitura do Rio de Janeiro, o senhor enfrentou alguns nomes da base aliada, inclusive, com o apoio do presidente Lula, o que acabou causando um esvaziamento da sua campanha. Em Salvador, a base de Rui Costa tem pelo 13 pré-candidatos, essa estratégia tende a dar certo?

Depende do que se considera dar certo. Naquela eleição, o presidente Lula acabou apoiando quem? No primeiro turno um apoio discreto a [Marcelo] Crivella e no segundo o Eduardo Paes. Eu me lembro de uma conversa com o presidente Lula, ainda em 2015, e ele me perguntava o que eu defendia. E disse para que não apoiássemos o MDB, e ele me disse que eram aliados. Eu comentei que ele ainda iria se arrepender disso. Eles votaram a favor do impeachment de Dilma [Rousseff]. Será que foi bom? Com quem de fato se da para contar? Quem pode representar e encarnar melhor o projeto e sonho de mundo de um determinado governo, e sei que Rui Costa vai fazer isso.

Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

 

Ainda em 2008, o ex-presidente Lula apoiou o atual prefeito Marcelo Crivella, e atualmente o governador Rui Costa coloca suas fichas no deputado federal Pastor Sargento Isidório que tem um perfil semelhante. É uma incoerência investir em um candidato que se mostra conservador ao invés de mulheres e negros?

Do ponto de vista das pautas sociais, eu tenho reparado que o deputado Sargento Isidório tem defendido o povo mais sofrido. Essa visão de mundo dos direitos sociais, ele tem se posicionado bem na Câmara. Temos que ver se de fato ele quer ser candidato. Pode ser que eventualmente ele não seja e o apoio dele seja importante para uma candidatura progressista. Para tentar agregar votos de setores religiosos, onde os progressistas precisam aperfeiçoar o diálogo. Foi esse afastamento que nos fez chegar no fundo do poço. Não há nada mais religioso do que reduzir desigualdades, não tratar pessoas em função da cor da pele e sobrenome. Não há razão para os progressistas não tenham apoio dos religiosos. As religiões podem conviver, dialogar, e ser um elemento de força para transformar a sociedade. Ter o apoio de varias religiões. Juntar isso e fazer uma união na cidade de Salvador.


O senhor é um forte defensor do desarmamento da sociedade civil. Porém estudos demonstram que nos últimos anos existem o maior números de armas registradas ao passo que o número de homicídios caiu. A que o senhor atribui isso? E mantém o discurso?

Eu não tenho a menor dúvida de que mais armas é mais morte. Uma pesquisa do Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada], do pesquisador renomado Daniel Cerqueira, já provou que 1% a mais de armas em circulação, causam 2% a mais de mortes. Então, a ideia de que as armas trazem segurança é uma ideia falsa. Tem a ilusão de que uma pessoa armada vai se defender e eles tem maior chance de morrer vítima de um assalto e isso já foi provado cientificamente. O efeito surpresa estão do outro lado. Os homicídios caíram por varias razões. Uma delas é o que os estados tem feito para diminuir isso. Na Bahia os homicídios tem caído, há 4 anos. O feminicídio tem aumentado. Temos um problema nesse campo, em razão de uma política estadual. Não tem nada haver com o governo federal, o ministro Sérgio Moro. Uma briga de trânsito pode acabar com uma morte e é muito grave e vai produzir resultados ruins.

 

O senhor é crítico do ministro da Educação e umas das ações dele foi retirar os investimento da educação superior para investir mais na educação básica. Medida acertada ou não?

Falso dilema. Não se trata de tirar da universidade para colocar na creche ou pré-escola. Tem que aumentar nesse setor, não tirando da universidade. Tem que fazer uma escolha correta. É uma escolha errada. Sem tirar da universidade aumentando também para educação básica. 

Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

 

Uma escolha dos deputados foi para o aumento das campanhas eleitorais, o PSB votou a favor. Foi uma escolha acertada, mesmo com a dificuldade de orçamento?

Não foi um aumento de verba. Foi a correção do valor da última eleição. Seria um aumento se tivesse sido aprovado o valor originalmente pelo presidente Bolsonaro. Ele tenta se desfazer do desgaste, que não veta pois sofrerá um processo de impeachment. É falsa essa afirmação, pois ninguém pode fazer isso apenas por vetar um projeto qualquer, e é mentira também pois o próprio governo propôs um valor de R$ 2,7 milhões. Foi proposto por ele. 

 

É possível relativizar sob a presença de familiares de mandatários na administração pública?

Depende do caso. Do critério usado. O exemplo do Eduardo Bolsonaro. Esse caso mostra o desprezo que o governo Bolsonaro tem com além dessa declaração. O quero dar para meus filhos o "filet mignon", ele disse que tem que dar o melhor para o filho, e não o país. Isso não é República. Esse desmonte é mais um sinal de uma área que era a política internacional. O Brasil nos fóruns internacionais é um pária. É tudo ao contrário que o Brasil sempre fez. 

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