Segunda, 17 de Dezembro de 2018 - 11:00

ACM Neto

por Fernando Duarte / Ailma Teixeira

ACM Neto
Fotos: Max Haack / Ag. Haack/ Bahia Notícias

Diante do resultado das eleições deste ano, em que a bancada de oposição na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA) se apequenou, o prefeito ACM Neto (DEM) promete um maior envolvimento já no pleito de 2020. A próxima eleição vai eleger prefeitos e vereadores, mas o democrata não vai disputar cargos eletivos, pois estará no fim de seu segundo mandato à frente da Prefeitura de Salvador.

 

“Vai chegar em 2020 e eu vou participar ativamente de todas as eleições no interior, coisa que eu não pude fazer em 2016”, declara em entrevista ao Bahia Notícias. “Eu já comecei a trabalhar internamente aqui, desenhei um planejamento estratégico para as ações políticas nossas na Bahia. Vamos trabalhar com técnica, organização e antecedência. Eu, a partir de agora, passo a ter uma condição que eu não tinha até então. Quando cheguei à prefeitura, eu tinha que ser 100% focado em organizar a gestão”, explica o prefeito.

 

Mesmo com seu alto índice de aprovação Neto foi reeleito prefeito de Salvador com 73,99% dos votos, o democrata acredita que a transferência de capital político para seu futuro sucessor é “muito relativa”. Ele lembra que, além de transferir aprovação, em muitos casos se transfere também os níveis de rejeição do político, o que dificulta a definição de um prognóstico.

 

“Nós vamos ter que construir um bom candidato, que seja desejado pela cidade, que tenha a cara de Salvador, que tenha o jeito de Salvador”, afirma. O prefeito salienta que esse nome ainda não foi decidido, mas exalta o perfil de seu vice, Bruno Reis (DEM), como alguém que possui “articulação política e capacidade administrativa comprovadas”.

 

Quanto a constante troca de farpas com o governador Rui Costa (PT), ACM Neto diz que deseja uma melhora no relacionamento com o opositor, mas, antes disso, criticou a atuação do governo do estado em relação à obra do Bus Rapid Transit (BRT). De acordo com o democrata, enquanto ele foi um facilitador na execução do projeto do metrô, Rui usou o Inema para embargar a construção do novo modal.

 

“Felizmente nós conseguimos ganhar na Justiça, mas nós poderíamos estar correndo um sério risco de ter uma obra paralisada daqui a poucos dias. Então, infelizmente, eles não conseguem compreender que a prefeitura é um poder autônomo, independente e que o prefeito não é um empregado do governo do Estado, não é um secretário do governador”, ressalta.

 

Ao longo da entrevista, Neto voltou a falar ainda sobre sua decisão de não disputar a eleição estadual e seus planos para o futuro, quando ficará sem mandato a partir de 2021. Confira abaixo:

 

 

Prefeito, quais os seus erros e acertos em 2018, em especial com relação à eleição?

Olha, esse tipo de avaliação, que, inclusive, internamente a gente vem conversando com o grupo, é uma avaliação que tem que ser muito relativizada, porque você toma decisões diante de circunstâncias. Você toma decisões diante de um cenário do momento. Ninguém tem bola de cristal, ninguém pode antecipar o futuro. Você pode fazer leituras políticas e projetar o que é mais ou menos provável. Enfim, entrando no tema mais importante desse ano, que foi a minha decisão de permanecer na prefeitura, eu diria que ela foi uma decisão acertada. Ela se provou cada vez mais acertada, seja pelo curso da eleição, seja pelo que a gente vê hoje no Brasil, da exigência de um novo padrão de política, de um novo parâmetro de decisões políticas. Quando tomei a decisão de ficar, não foi pensando em projeto de poder. Foi pensando, sobretudo, no que o futuro poderia me reservar em termos de julgamento, caso a decisão fosse deixar a prefeitura, renunciar o mandato e contrariar a vontade da maioria da população de Salvador. Então, quanto a isso, eu realmente acho que acertei. Muitos dizem que poderia ter sido [uma decisão] tomada com maior antecedência, mas eu conversei com meu o grupo o tempo inteiro, mostrei claramente que o caminho era não ser candidato, nunca criei expectativa de que realmente seria e ela só foi até a última hora porque boa parte das lideranças políticas do meu grupo não se conformava com o fato de que minha decisão seria de não ser candidato. Houve toda uma pressão, muitos acharam que conseguiriam me vencer nos 45 minutos do segundo tempo. No entanto, havia uma reflexão bastante consistente, madura e responsável da minha parte que eu acho que hoje se mostra acertada. Talvez, para não dizer que não houve algum tipo de erro, ter confiado em sinalizações políticas, sobretudo de alguns partidos, que eu não quero vilanizar, que depois acabaram tomando outras direções. Isso trouxe algum prejuízo para o processo eleitoral.

 

Passada a tensão eleitoral, é possível ter uma relação mais republicana e menos eleitoreira com governo do estado? Qual é o empecilho para que prefeitura e governo da Bahia parem de trocar farpas públicas?

Esse é meu desejo, mas nós podemos pegar um exemplo claro em relação à questão de transporte público, de mobilidade. Eu fui facilitador de todo o processo do metrô. Se não fosse por mim, pela minha decisão de transferir o metrô para o governo do estado, de criar todas as condições para o desenvolvimento da obra, hoje nós talvez não tivéssemos o metrô funcionando em Salvador. Jamais fiz jogo, jamais pirracei o governo. Demos todas as licenças. A Bahia inteira sabe o que foi necessário suprimir de vegetação, sobretudo no canteiro central da Paralela, para que o metrô fosse construído. Aí chega no BRT, que foi um acordo que eu fechei a época com [Jaques] Wagner, Rui Costa e Dilma [Rousseff] — Rui Costa era secretário da Casa Civil e quem estava negociando pelo governo, Jaques Wagner era governador e Dilma Rousseff a então presidente. Foi nesse contexto que nós viabilizamos o projeto do BRT. Chega agora e o que faz o governo do estado através do Inema? Primeiro, estica no limite inaceitável de prazo o pronunciamento a respeito da licença solicitada pela prefeitura. Quando não teve mais jeito, porque houve uma determinação do juiz que ele concedesse a licença, o Inema, sem qualquer fundamento técnico, não concede licença. Felizmente nós conseguimos ganhar na Justiça, mas nós poderíamos estar correndo um sério risco de ter uma obra paralisada daqui a poucos dias. Então, infelizmente, eles não conseguem compreender que a prefeitura é um poder autônomo, independente e que o prefeito não é um empregado do governo do Estado, não é um secretário do governador, que aqui nós temos que zelar pelas questões que são do município. Da minha parte, eu não tenho nenhum interesse em manter uma relação de tensão. Até imaginei que no momento que eu decidi não ser candidato, o governador ia ter uma postura diferente, mais leve, mais tranquila e menos tensa, porque ele, nos quatro primeiros anos, sempre foi muito tenso na sua relação comigo. Talvez porque imaginasse que eu fosse o adversário dele. Isso não aconteceu, minha decisão foi ficar. Então, eu imaginava que depois as coisas iam caminhar por um rumo mais tranquilo. Infelizmente, o governo não permite e o BRT é o maior exemplo disso.

 

 

Após chegar à primeira metade do segundo mandato, o que o senhor planeja para essa reta final da sua passagem pela prefeitura de Salvador?

As grandes entregas desses oito anos acontecerão agora nos próximos dois. O que nós temos de obras importantes para concluir, o que nós temos de consolidação de ampliação de serviços, principalmente no campo da educação e saúde. Os grandes financiamentos que nós contratamos, como o Mané Dendê, no Subúrbio, mais de 500 milhões de reais numa grandiosa obra, a ampliação dos recursos, também com fonte de financiamento para área social. Então, eu diria que esse conjunto de entregas que nós vamos oferecer a Salvador nos próximos dois anos, ao que se soma, é claro, toda a parte econômica com a conclusão dos projetos do Salvador 360, Centro de Convenções, as intervenções no Centro Histórico de caráter urbanístico. Então, todo esse conjunto de coisas, eu acho que vai fazer com que os próximos dois anos sejam os anos mais marcantes desses oito, o que não é fácil, porque qualquer mandato que se renova existe uma certa fadiga. Você deixa de ser novidade, mas toda nossa estratégia foi organizar administrativa e financeiramente a prefeitura, para que a gente tivesse um ritmo muito acelerado nesses últimos dois anos de mandato.

 

Finalizando a gestão com índices de aprovação similares aos registrados até agora, qual é o peso da benção de ACM Neto para fazer o sucessor?

Olha, eu acho que eleição no Brasil está mudando muito. A gente já viu que essa coisa de transferir votos é muito relativa. Às vezes você transfere aprovação, mas também transfere rejeição. Às vezes você tem condições de fazer um candidato completamente desconhecido, às vezes você perde com candidato muito conhecido. Então, você tem todo tipo de cenário no Brasil. Eu não gosto de ficar projetando esse tipo de coisa. Para mim, o importante é a gente chegar com avaliação boa na administração, com entregas para cidade, com um governo reconhecidamente eficiente e ter um bom candidato. Nós vamos ter que construir um bom candidato, que seja desejado pela cidade, que tenha a cara de Salvador, que tenha o jeito de Salvador. A maior prova de que essa transferência de votos é relativa está no fato de que o PT, mesmo tendo o governo do estado há 12 anos e tendo tido o governo federal por quase 14, nunca conseguiu fazer o prefeito de Salvador. Então, cada eleição tem sua própria dinâmica, o seu jeito próprio. Da mesma forma, não adianta querer vincular o resultado de 2018 com o que pode acontecer em 2020. Em 2010, nós saímos das urnas fragorosamente derrotados. Foi o pior momento do nosso grupo político, não tínhamos expectativa de poder nenhuma. Absolutamente nenhuma. Tivemos um resultado eleitoral pior do que o de 2018. Não tínhamos prefeitura de capital, nem de grandes cidades. Chegou em 2012, dois anos depois, eu ganhei a eleição aqui, enfrentando todas as máquinas. Então, o que está na minha cabeça? Fazer o meu trabalho de maneira correta, adequada. Ter uma gestão extremamente eficiente até o fim e, é claro, trabalhar para ter um bom candidato. Eu acho que essa é a fórmula principal.

 

Bruno Reis é citado como uma das apostas para o palácio Thomé de Souza em 2020. Outros nomes ainda podem aparecer? Se Guilherme Bellintani tiver musculatura política poderia ser candidato a prefeito com seu apoio?

Tudo pode acontecer. Nós temos dois anos para ter clareza no cenário. Bruno é naturalmente um nome lembrado porque está comigo há muito tempo, me ajudou a construir todo esse trabalho em Salvador e tem uma coisa que as pessoas nem sempre sabem: Bruno não foi um simples assessor parlamentar ou mais um deputado. Não. Bruno foi um cara que me ajudou a montar todo esse trabalho em Salvador. Conhece a cidade tão bem quanto eu conheço. Tem articulação política e capacidade administrativa comprovadas. Então, Bruno é um nome que reúne muitas condições e tem absoluta legitimidade para pleitear uma indicação. Agora, já está decidido que Bruno é o candidato? Ainda não. Ainda tem muita coisa para acontecer. Podemos avaliar ou será possível examinar outras alternativas? Sim, e aí eu não vou incluir nem excluir ninguém. Todo mundo que tiver uma proximidade, um ambiente, uma filosofia igual a nossa, um pensamento igual ao nosso para cidade, poderá se habilitar, poderá se colocar como alternativa. E aí, na hora certa, nós vamos tomar a decisão.

 

Bellintani nasceu politicamente ligado ao senhor e é considerado como a menina dos olhos do PT hoje. Como lidar com essa situação?

É um elogio, porque uma das virtudes da nossa gestão foi ter formado e projetado bons quadros. Guilherme é um exemplo disso. Guilherme era um sujeito de sucesso na iniciativa privada, que eu não tinha relação pessoal. Mas, com o objetivo de montar uma boa equipe, comecei a prospectar nomes, talentos, locações e descobri Guilherme. Ele é um cara muito qualificado, fez um grande trabalho na prefeitura, nas três secretarias por onde passou, e hoje é meu amigo. Além de ter sido um colaborador de trabalho, Guilherme é meu amigo. A gente conversa com muita frequência, e veja que se o PT hoje cogita um quadro que foi formado por nós, desfruta da relação pessoal comigo, é porque realmente o nosso trabalho deu muito certo e até eles são obrigados a se ajoelhar e reconhecer isso.

 

 

O desempenho do DEM nas eleições de 2018 não chega a ser desprezível. O senhor falou que 2010 foi pior, porém a Bahia era uma aposta importante até quando o senhor decidiu permanecer na prefeitura. O resultado disso foi uma redução das bancadas, tanto na Câmara dos Deputados quanto na Assembleia, ao menos essa é a perspectiva Inicial. Como evitar que isso se torne uma tendência para os próximos pleitos?

Só corrigindo: Nós, tanto para Assembleia quanto para Câmera, fizemos, e estou falando pelo Democratas, uma quantidade de deputados maior do que a da eleição passada. Na Câmara, nós mantivemos os quadros que tínhamos. Eram quatro vagas, e fizemos quatro deputados. Na Assembleia, acho que crescemos um ou dois deputados estaduais. Então, não é verdade que diminuímos. Repito que cada eleição tem a sua circunstância e o Democratas vai trabalhar intensamente para ter candidatos fortes, competitivos, a prefeito nas principais cidades do estado. Eu vejo que 2020 vai ser um passo importante para o partido ter um projeto de poder estadual em 2022. A verdade é que a política faz com que as coisas sejam muitos cíclicas. Passou a eleição, você tem aquele primeiro período da ressaca. Logo depois, você já começa a pensar no que tem pela frente. O bom é isso. A ressaca é curada rapidamente, as feridas cicatrizam rapidamente e a gente vai se alimentando de novas expectativas e novos projetos. É o que nós já estamos fazendo. Eu já comecei a trabalhar internamente aqui, desenhei um planejamento estratégico para as ações políticas nossas na Bahia. Vamos trabalhar com técnica, organização e antecedência. Eu, a partir de agora, passo a ter uma condição que eu não tinha até então. Quando cheguei a prefeitura, eu tinha que ser 100% focado em organizar a gestão. Em 2016, eu não pude participar da política no interior porque eu era candidato à reeleição e não podia passar mensagens duvidosas. Em 2018, eu dei a maior demonstração de compromisso que poderia ter dado com a cidade, continuando na prefeitura, abrindo mão de um projeto de poder que poderia ter me levado ao governo do estado. Então, eu acho que, em seis anos, eu dei demonstrações de sobra que o meu compromisso principal é com Salvador. Agora, vai chegar em 2020 e eu vou participar ativamente de todas as eleições no interior, coisa que eu não pude fazer em 2016. Quando eu deixar a prefeitura, a partir de 2021, é claro que o meu foco vai estar todo voltado para organizar o nosso grupo, organizar o nosso time, para entrar em campo em 2022.

 

A partir de 2021, o que ACM Neto vai fazer?

Então, eu não tenho ainda planos totalmente consolidados, porque a gente não sabe como é que vai estar o cenário político do Brasil lá adiante. Estamos tendo muitas mudanças políticas no Brasil, é difícil você conseguir enxergar com esse nível de antecipação. Supondo que as coisas estejam tranquilas, que não haja nenhum cenário de excepcionalidade política, eu penso em passar um tempo fora. Não sei se três ou seis meses. No mínimo de três, máximo de seis meses, não passaria disso, estudando. Penso em escolher uma instituição de ensino que eu possa aperfeiçoar ainda mais o meu inglês e possa também ter acesso a coisas que eu faço sempre, mas não com esse tempo inteiro, a experiências de boa prática de Gestão Pública fora do Brasil. Então é algo que está na minha perspectiva. Como eu tenho a presidência do partido, do Democratas, eu não sei que nível de liberdade e flexibilidade eu vou ter. Por isso que é difícil fazer uma previsão, mas com certeza, parado eu não vou ficar. Eu sou uma pessoa que comecei a trabalhar com 11 anos de idade, ajudando minha mãe numa loja que ela tinha. Sempre fui muito ativo, desde os 18 anos de idade eu não sei o que é passar 15 dias ininterruptos de férias, descansando, sem fazer nada. Isso não faz parte da minha vida. Minha vida sempre foi uma vida de muito trabalho esse tempo todo. Pela primeira vez desde que entrei na política ficarei sem mandato e não estou achando isso ruim. Acho que passar um tempo, dois anos, sem ter um mandato é algo que permite também você se reoxigenar, buscar novos ares, novas ideias, abrir a cabeça, pensar. A nossa rotina acaba consumindo muito do nosso tempo. Então, acredite que eu estou animado com que poderei fazer a partir de 2021, mas ainda sem planos totalmente consolidados.

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