Segunda, 23 de Abril de 2018 - 11:00

Luciano Ribeiro

por Bruno Luiz

Luciano Ribeiro
Fotos: Priscila Melo/ Bahia Notícias

Ao contrário de deputados da própria bancada, preocupados com a reeleição e às voltas com contas para saber como resolverão o prejuízo provocado pela desistência do prefeito ACM Neto (DEM) em concorrer ao governo do Estado, Luciano Ribeiro (DEM) está otimista. O líder da oposição na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA) acredita que não haverá queda na quantidade de parlamentares do grupo nas eleições deste ano. Em entrevista ao Bahia Notícias, o democrata apostou até em um crescimento da bancada, contrariando os prognósticos feitos por muitos colegas nos bastidores. “Não tem como diminuir de 20. Ainda mais que é uma eleição plebiscitária, praticamente. São só dois candidatos. Vota porque gosta ou não gosta daquele lado. Então não tem como não ser uma eleição que lhe permita aumentar essa bancada, que hoje é pequena”, afirmou. Ribeiro ainda classificou a decisão de Neto em não concorrer como “corajosa”, avaliou que isso não diminuirá o capital político do prefeito enquanto maior nome oposicionista no estado e reforçou também seu desejo por um candidato único do grupo para as eleições. “Não tenho nenhuma dúvida disso [de que haverá unidade na oposição]. Se eventualmente não vier a acontecer, será uma surpresa para mim. Mas pelas conversas que temos hoje, maduras, dentro da construção democrática, não vejo nenhuma dúvida”, assegurou.

Você assumiu a liderança da oposição há pouco mais de um mês. Qual vai ser a tônica deste seu período no comando do grupo?
O objetivo é manter o grupo de deputados unido, harmônico e fazer os enfrentamentos que são necessários, dizendo aquilo que não estamos de acordo e ajudando a construir as políticas públicas que nós entendemos que são necessárias. Ou seja, fazendo também as críticas propositivas.

 

Qual será seu maior desafio à frente da bancada de oposição?
Não há maior ou menor desafio, são os mesmos desafios. A gente já vive na oposição, estamos acostumados com ela, temos um ideal muito grande, trabalhamos em cima de um projeto político. Vamos fazer os enfrentamentos normais que uma oposição deve ter. O desafio maior é a harmonia do grupo, o que é sempre o objetivo maior de um líder.  

 

Uma crítica feita nos bastidores em relação à liderança do Leur Lomanto Jr. era sobre a postura menos combativa em relação ao governo. No momento de definição do novo líder, essa atitude mais incisiva foi utilizada como critério de escolha. Você pretende adotar este estilo, principalmente em época de eleição, com a oposição colocando candidaturas?
A questão da oposição não é ser agressiva. Eu acho que Leur fez uma grande liderança. Ele saiu porque pediu. Todos nós queríamos que ele permanecesse. Não houve esse critério de ser mais incisivo, mais agressivo. O que houve é uma continuidade das lideranças de Sandro [Régis] e Leur. A gente tem uma linha de conduta política, e ela será mantida. Cada um tem um estilo, aí é diferente. Mas não há essa necessidade de agressividade para que se faça oposição. A gente tem que ser combativo. Acho que isso eles vinham sendo também.

 

Você assumiu e, logo em seguida, houve o pedido de abertura da CPI da Fonte Nova. Isso já não demonstra uma atitude mais firme por parte da oposição?
Acredito que não. Isso foi um fato circunstancial, porque aconteceu no período em que assumi a liderança. Tanto é que o [presidente da AL-BA, Angelo] Coronel decidiu que deveria arquivar a CPI e eu, na minha liderança, decidi não judicializar. Até porque aconteceu um outro fato circunstancial: a denúncia apresentada pelo Ministério Público. Com os mesmos fatos, as mesmas coisas que a gente pretendia apurar.

 

O governo tem uma grande maioria na Casa e, agora, vocês perderam um deputado, o Samuel Júnior, que migrou para a base governista. Então, no momento, vocês possuem apenas 20 deputados. Como isto pode dificultar a atuação da bancada na AL-BA?
Nós já enfrentamos o rolo compressor do governo na Assembleia desde o início da legislatura. Estamos acostumados com isso. Mas a gente tinha um certo conforto, até a abertura da janela partidária, por termos 21 parlamentares. Nós podíamos manter uma sessão sem permitir que ela caísse, nos permitia instalar uma CPI. A gente perde um grande instrumento, porque temos só 20 deputados. Então, esse é um fato dificultador de uma ação mais incisiva, mais efetiva da bancada. E nós temos que trabalhar com as armas que temos. O argumento, a fiscalização constante. Se nós não temos elementos para instalar uma CPI, nós vamos fazer discurso, vamos até a imprensa, para mostrar nossas ideias e o que pode ser feito. Não tem outro elemento. Porque principalmente agora, em ano eleitoral, nós dificilmente recomporíamos a bancada, porque já passou o período da janela partidária.

Logo após o prefeito de Salvador, ACM Neto, anunciar que não seria candidato ao governo do Estado, o deputado Samuel Júnior fez migração para a base aliada, assim como o deputado federal Cláudio Cajado. Então, ocorreram defecções no grupo. Você não acha que isso é um sinal de que a oposição pode ser implodida nestas eleições por causa da decisão do prefeito, que é o principal líder do grupo na Bahia e tratado como grande "puxador de votos" da bancada?
Óbvio que toda a Bahia sentiu o fato de o prefeito não renunciar ao compromisso assumido com a população de Salvador. A grande maioria da Bahia queria que ele fosse governador. Mas ele sempre dizia que tinha um compromisso com Salvador. Ele só sairia desse compromisso se a população de Salvador permitisse. Através das pesquisas, ele percebeu que a população queria que ele continuasse o mandato. Ele não renunciou a uma candidatura, ele deixou de renunciar ao compromisso que assumiu com o povo de Salvador. Houve, obviamente, um sentimento de perda para todos. Mas isso não diminuiu nosso grupo. Tanto que a decisão dele se deu em um momento em que ainda poderia haver mudanças partidárias. 

 

Mas ele fez isso faltando um dia para o fechamento da janela. Alguns deputados reclamaram, e eu ouvi isso nos bastidores, de que tiveram muito pouco tempo para tomar decisões sobre para quais partidos iriam. Fizeram isso de forma corrida, sem pesar direito aquilo que estavam definindo.
Mas teve. Se você pensar, dentro da própria bancada, houve uma movimentação incrível. Não foi isso. Do PMDB mesmo, muitos saíram. As pessoas não queriam, efetivamente, sair. Aqueles que quiseram sair, como Samuel Júnior e Cláudio Cajado, saíram. Não teve problema. O grupo está aí é aquele que, efetivamente, acredita nesse projeto. É claro que a gente veio trabalhando com a perspectiva de ter ACM Neto encabeçando esse projeto. Mas ele continua liderando. Tanto se acredita nele como verdadeiro e possível que hoje nós temos dois candidatos na oposição. Se fosse um projeto falido e desacreditado, hoje estaríamos com dificuldade de escolher um candidato. Mas vamos tocar esse projeto.

 

Você falou que o grupo tem dois pré-candidatos. O PMDB tem a candidatura de João Santana. O partido faz parte da oposição ao governador Rui Costa, fez parte da gestão do prefeito ACM Neto, tanto que o vice-prefeito Bruno Reis era, até pouco tempo, integrante do partido. Então você concorda com a opinião do prefeito de que a sigla não tem espaço na chapa?
Como líder da oposição, eu falo em termos de bancada. Na minha bancada, não tem nenhum representante do PMDB. Então, o que eu estou falando é que tenho legitimidade para falar. É dos pré-candidatos que têm representação dentro da minha bancada. O arco mais amplo, esse aí, não cabe a mim. Eu não quero emitir opinião sobre isso porque estou cuidando dos interesses da minha bancada. Quem lidera o processo, efetivamente, é o prefeito ACM Neto, mas o Zé Ronaldo disse que coligaria com o PMDB; João Gualberto diz que não. Então, há uma construção dentro do partido, no sentido de se buscar aquele que, no momento, tem as melhores condições de representar nosso projeto.

 

Mas essa divergência de posicionamento não mostra uma dificuldade de entendimento, de convergência, de se chegar a um diálogo na bancada?
Eu sempre acredito que a melhor solução é a que nasce das divergências. As nossas divergências estão sendo publicizadas, pois fazem parte de um processo democrático. Cada um pode fazer suas colocações. Não há nenhuma dificuldade de convergência. Quando ela convergir, certamente ela será fortalecida porque saiu de uma divergência muito grande e plural.

 

A bancada de oposição lançou recentemente uma nota defendendo candidatura única dentro do grupo. Você acha que Zé Ronaldo e Gualberto conseguirão efetivamente chegar a um entendimento e fazer a oposição marchar com um só nome nas próximas eleições?
Não tenho nenhuma dúvida disso. Se eventualmente não vier a acontecer, será uma surpresa para mim. Mas pelas conversas que temos hoje, maduras, dentro da construção democrática, não vejo nenhuma dúvida. Acho que já é um consenso dentro da bancada de um nome, que é o de Jutahy Magalhães para candidato ao Senado. Todos querem ser representados por ele no Senado. Das quatro vagas, hoje temos disputando três, porque uma é de Jutahy. 

 

E por que, até o momento, há esse bate-chapa?
Não há disputa nem bate-chapa. Nós estamos buscando um projeto, defendendo ideias, programas. Não há um personalismo. Várias pessoas podem representar projeto. Estamos discutindo quem efetivamente pode enfrentá-lo melhor.

 

ACM Neto era considerado o candidato natural da oposição e aquele com melhores chances de disputar com o governador Rui Costa, com possibilidade de, eventualmente, vencer o pleito. Sem ele à frente da chapa, o pleito não ficará mais difícil para vocês da oposição?
Olha, eu tenho alguma experiência do tempo que eu faço política. Não tem eleição dada. Eleição é eleição. Nós temos um projeto melhor do que está aí nesse governo. Então, não tenho dúvida que o nosso projeto sairá vitorioso em outubro.

Mas você não acha que o candidato da oposição terá um trabalho maior que o prefeito ACM Neto para disputar com o governador Rui Costa? Neto é um candidato conhecido no estado, a maior liderança política da oposição atualmente na Bahia, com alto potencial eleitoral. Não à toa vocês insistiram no nome dele até o final. Sem o prefeito, não fica um vácuo?
Não é que fica vácuo. É óbvio que nós da classe política e o povo tinham um desejo de que ACM Neto fosse governador da Bahia. Ele foi o melhor prefeito do Brasil cinco vezes, é um nome que já foi líder nacional. Claro que é um nome mais conhecido. O outro candidato, que, por enquanto, não foi escolhido terá um certo tempo para poder incorporar como representar dessas ideias. O que me faz ter essas convicções é que ele não vai ser nosso candidato, mas o que estamos assistindo é que nosso grupo político, nossas lideranças continuam da mesma forma. Não houve defecções maiores. Terá tempo para o candidato se incorporar como candidato, é claro. Mas eu não vejo muita dificuldade nisso.

 

Neto foi o nome no qual a oposição apostou até o final. No entanto, vocês sabiam que ele poderia não concorrer. Não pensar em um plano B, construir uma outra liderança, não foi um erro do grupo? Agora, vocês estão, às vésperas do início da campanha, tentando emplacar um candidato.
Não acredito que foi um erro. Política vai de momento. Tanto não foi um erro que temos dois candidatos postos. Poderiam existir outros tantos. O nome mais desejado era o do prefeito, mas ele nunca havia garantido que iria deixar de ser prefeito de Salvador. A população de Salvador não permitiu que ele deixasse a prefeitura. As outras teorias não vão nesse sentido. E não é verdade.

 

O próprio pré-candidato João Gualberto externou uma preocupação em fazer uma chapa proporcional mais forte para deputados federais e estaduais. Você acha que, sem ACM Neto na dianteira da chapa, corre o risco de a oposição diminuir o número de deputados que tem atualmente? Alguns parlamentares estão preocupados com a reeleição e se veem às voltas com contas...
A gente tem que ir para a história. Ainda que ACM Neto vencesse a eleição, ele dificilmente faria a maioria na Assembleia Legislativa. Quem está no governo, se perde a eleição, faz a maioria. Eu não acredito que vai diminuir. Acho que vai manter o mesmo número. Essa preocupação de fazer contas, de perder noite, não é só da bancada de oposição, é de todos. Aqui, você tem dois candidatos a governador da Bahia, porque geralmente quem disputa é quase um Ba-Vi, você se preocupa com um candidato só. A chapa majoritária nós nos preocupamos com 200, 300 pessoas. Aí você tem que fazer contas diárias. Isso não é privilégio da oposição. É também da situação. Hoje, eles têm 43 deputados. Nós temos. Impossível que isso diminua. Se for pegar a lógica partidária, seria, então, um candidato único, para diminuir. Não há como. Então, eu acho que tende a aumentar nossa bancada. Acho que eles fazem a maioria, ainda que perca a eleição. A máquina administrativa, e Rui está usando muito, tende a fixar os votos nos parlamentares e que ele faça maioria. Mas você não ter um terço dos votos, é impossível, ainda que seja candidato único. Não tem como diminuir de 20. Ainda mais que é uma eleição plebiscitária praticamente. São só dois candidatos. Vota porque gosta ou não gosta daquele lado. Então não tem como não ser uma eleição que lhe permita aumentar essa bancada, que hoje é pequena.  

 

Alguns deputados ficaram bastante irritados com a desistência de Neto. Isso não pode levá-lo a perder capital político dentro do grupo?
Eu acho que Neto teve uma atitude mais corajosa de não renunciar, quando ele tinha todas as condições favoráveis de se eleger governador da Bahia. Houve um desconforto? Houve. Porque todo mundo desejava. Mas esse fato já passou. Estamos trabalhando com outra perspectiva, com outra circunstância. 

Não foi uma decisão mais pessoal do que pensando no grupo?
Ele nunca disse que era candidato. Quem disser diferente…

 

Mas vários deputados disseram que foram pegos de surpresa. Jutahy disse que estava frustrado. Elmar Nascimento fez críticas públicas a Neto. 
Às vezes, a pessoa acreditava que ele seria. Mas ele nunca tinha garantido para ninguém. 

 

Uma reclamação recorrente da oposição, e até do governo, é a falta de pagamento das emendas impositivas por parte do governador Rui Costa. Apesar da promessa de liquidar tudo até o fim do ano passado, o governo não o fez. Como está a situação para vocês da oposição, até o momento?
Em qualquer democracia, o poder mais forte tem que ser o Legislativo. Tem sido, hoje, o mais fragilizado. As emendas foram criadas através de emenda constitucional. Está na Constituição da Bahia. Nós já entramos com diversos mandados de segurança, o governador tem perdido, mas não tem executado. Ele, simplesmente, ignora aquela Casa. Ele não paga. Quando paga, faz de qualquer jeito, não tem critério. Quando chega o final do ano, que ele quer que a Casa ande, vai lá e dá um trator, uma ambulância, paga uma festa de São João, coisas que não estão lá atrás colocadas como emenda. Então, se você tem R$ 1 milhão para receber, recebe R$ 100 mil. É um atraso desde quando ela foi criada. Não tem nada mais desmoralizante para um Poder do que esse. Acho que nem os da situação estão recebendo. Eles até pretendem receber uma obra de favor a receber uma obra que é de direito, através da emenda. É um equívoco. O governador destina uma obra para a base de um deputado para conquistar o prefeito. As consequências vão, ao longo do tempo, só engrandecendo, enfraquecendo a oposição. A gente tem todo ano feito a judicialização. Isso, em algum momento, terá consequência. 

 

Você foi prefeito de Caculé por oito anos. Alguns deputados acabam indo e voltando. Vão para a Assembleia, mas acabam voltando a disputar a prefeitura novamente. Concorrer a prefeito da cidade de novo é algo que está no seu horizonte?
Quando saí da prefeitura, saí extremamente satisfeito com o que fiz. Tenho certeza absoluta que minha parcela como prefeito já tinha dado. Então não pretendo, nem em 2020 nem nunca. Não digo que não serei, porque em política você não diz isso. Mas é uma coisa que não está na minha cabeça. A curto prazo, meu objetivo é continuar na Assembleia. E na liderança da situação (risos), a partir do ano que vem. Ser líder de Zé Ronaldo ou de João Gualberto. 

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