Segunda, 19 de Março de 2018 - 11:00

Guilherme Boulos

por Francis Juliano / Bruno Luiz

Guilherme Boulos
Fotos: Paulo Victor Nadal/ Bahia Notícias

Pré-candidato à Presidência da República pelo PSOL, um partido sem grande capilaridade no cenário político brasileiro, Guilherme Boulos pretende se ancorar na participação popular como forma de atingir a tão falada governabilidade, caso vença as eleições deste ano. Ciente de que dificilmente poderia aglutinar grandes siglas em torno de sua candidatura, o socialista parece não se importar. Diz que prefere se afastar do “balcão de negócios” que virou a política do país. “As pessoas estão desesperançosas da política. E nós temos que entender o porquê. O que leva a essa apatia e desmobilização é o abismo entre Brasília e o Brasil. É as pessoas não se sentirem representadas pela forma dominante de se fazer democracia no país. Precisamos construir a participação das pessoas de outra maneira. Desde o início”, defendeu, em entrevista ao Bahia Notícias. Boulos afirmou também que seu programa de governo pretende combater o recrudescimento dos discursos de ódio contra minorias no Brasil. Para ele, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), que também é pré-candidato a presidente, personifica o crescimento desse fenômeno. “Jair Bolsonaro é um bandido. Um criminoso. Ele tem cometido reiterados crimes. Então, deveria estar na cadeia”, reiterou. O pré-candidato também admitiu divergências entre os partidos do campo de esquerda no país, mas defendeu o direito de o ex-presidente Lula concorrer e a criação de uma frente entre as agremiações deste espectro sob questões que são comuns entre elas. Ele ainda se defendeu das acusações de que não é um legítimo representante dos sem-teto por não ser um sem-teto. “Acho muito curioso essa ideia de ataque, de dizer que, quem não é sem-teto originalmente, não pode encampar essa causa. Isso é uma negação da solidariedade, que é o valor humano mais importante”, afirmou. Leia abaixo a entrevista completa!

 

Como sua candidatura se apresenta como diferencial na esquerda?
Acreditamos que o Brasil está em um momento muito grave. Uma crise econômica séria, desemprego, perda da capacidade de desenvolvimento. Ao mesmo tempo uma crise política, em que as pessoas não acreditam mais em saídas políticas. Há uma desesperança no país. Qualquer candidatura que se pretenda popular, das maiorias, que queira transformar o Brasil, precisa colocar o dedo nesses dois pontos. Em relação à economia, não acreditamos que seja possível um projeto que represente o povo brasileiro que não comece chamando o povo a decidir sobre as medidas tomadas pelo governo ilegítimo de Michel Temer. Então, é preciso ter um plebiscito em que o povo decida se quer reforma trabalhista, congelamento de investimento social por 20 anos, se quer entregar o pré-sal para empresas estrangeiras. O governo ilegítimo não tem autoridade para isso e nem o Congresso desmoralizado, como fizeram. Além disso, na economia, é preciso reverter o caráter do Estado brasileiro. O Estado brasileiro é um Robin Hood ao contrário. Ele tira dos pobres por meio de um sistema tributário injusto. Quem paga imposto no Brasil é pobre e classe média. As grandes corporações, os bancos não pagam. E o Estado dá aos ricos, através de juros exorbitantes na dívida pública. E nós precisamos mexer nisso aí. Mexemos nisso com uma reforma tributária estrutural, que acabe com a farra dos grandes ricos no Brasil. Queremos colocar o dedo nessa ferida. Qualquer trabalhador brasileiro que tem um carro vai pagar IPVA agora nesse início de ano. O cara que tem um helicóptero ou uma lancha não paga um real. Não dá para ser desse jeito. Você tem uma desigualdade profunda e essa desigualdade é alimentada pelo estado. Em relação à política, nos diferenciamos porque entendemos que esse sistema político faliu. Candidatos recebem dinheiros das empresas. Depois, ganham, favorecem as empresas que financiaram suas campanhas. Os partidos montam no Congresso Nacional uma lógica de balcão de negócios que sustenta o apoio parlamentar, a governabilidade de quem esteja no Palácio. Em troca, recebem postos-chave para praticar coisas nada republicanas. Não dá mais. Para quem quer transformar o Brasil, não pode ser mais desse jeito.

 

Vamos supor que você consiga se eleger. Teriam, então, os componentes políticos da esquerda e da direita, majoritariamente da direita, que estão aí há mais tempo. Como você faria para governar? Uma opção seria ter o povo ao lado, mas como isso se daria, se há uma divisão tão grande na população atualmente?
Eu acredito que o povo brasileiro vai promover uma renovação no Congresso, permitindo que uma bancada mais progressista, comprometida com os interesses populares seja eleita. O PSOL vai ter uma bancada fortíssima de parlamentares.

 

Mas, ao mesmo tempo, temos um recrudescimento muito forte das ideias de direita.
Só que há uma enorme insatisfação com os partidos que estão aí. As pessoas não se sentem representadas pelo Congresso Nacional, pelos partidos que estão aí. Mas, independente disso, nós precisamos pensar governabilidade de outra maneira. É preciso trazer o povo para o tabuleiro da política. As pessoas precisam ser ouvidas permanentemente. Democracia não pode ser apertar um botão de quatro em quatro anos e, depois, não decidir mais nada. Temos que construir mecanismos de participação permanentes que sustentem a governabilidade de um projeto de mudanças, com plebiscitos, referendos, conselhos. Onde as pessoas sejam ouvidas permanentemente, não só de quatro em quatros anos. Isso não é uma democracia. 

 

Como fazer isso? As pessoas, até os militantes, que vivem no dia a dia da política, estão se afastando das ruas. Como fazer com que elas voltem e se apaixonem também. Uma candidatura sua, para dar certo, precisa desse engajamento, até porque o PSOL é um partido menor em termos de capilaridade.
As pessoas estão desesperançosas da política. E nós temos que entender o porquê. O que leva a essa apatia e desmobilização é o abismo entre Brasília e o Brasil. É as pessoas não se sentirem representadas pela forma dominante de se fazer democracia no país. Precisamos construir a participação das pessoas de outra maneira. Desde o início. Nós não podemos construir o programa de governo em uma sala fechada. Programa tem que ser definido em debate público. Quando as pessoas se sentem parte, elas se empolgam. Quando elas se sentem parte do processo político, elas vão se sentir representadas. 

 

O Brasil teve com os ex-presidentes Lula e Dilma o que se chamou de vitória das esquerdas. Para governar, eles fizeram várias concessões. Nós sabemos que a política real funciona assim. Mesmo com isso, você acha que com discurso forte e contundente consegue ganhar as eleições? 
Quero colocar a pergunta para outro lado. Qual a outra alternativa? É disputar uma eleição, colocar uma maquiagem para falar coisas que as pessoas consideram mais próprias, depois ganhar a eleição e discutir governabilidade com balcão de negócios? Em 30 anos de Nova República, o PMDB não ganhou nenhuma eleição para presidente. Teve dois presidentes, mas nenhum deles eleito por voto popular. Mas o PMDB chantageia todos os governos e dá as cartas em todos os governos. Se a gente não quer gerir se aproximando da mesma lógica de hoje, se afastando do povo e governar para um 1%, vai ser sempre desse jeito. Nós queremos, pela primeira vez nos últimos trinta anos, colocar o PMDB na oposição. E se faz isso com um projeto que toque o dedo na ferida do esvaziamento democrático no Brasil, da participação política e, para ser respaldado, precisa estar referendado na maior parte da sociedade.

 

Voltando a falar do Lula, ele deu recentemente declarações positivas para você. E, por conta das últimas pesquisas que colocam ele lá em cima, o apoio do Lula não é algo a ser dispensado. Vamos colocar que o ex-presidente mergulhasse de cabeça em sua campanha. Você acha que o partido aceitaria bem isso?
Eu tenho diferenças programáticas com o PT e o Lula. Coisas que já tive oportunidade de expor pessoalmente ao próprio Lula de maneira transparente. Eu acho que não dá mais para repetir a velha lógica de aliança com o PMDB, compor com o andar de cima da sociedade. Ao mesmo tempo, eu compreendo perfeitamente o que está acontecendo nesse momento e há uma total injustiça com o Lula. Ele foi condenado sem provas pelo juiz Sérgio Moro e o TRF-4. Uma condenação política com o objetivo de retirá-lo da eleição. A questão que temos colocado, e não é minha particular, e sim colocada pelo próprio PSOL, é defender o direito dele de ser candidato, mas, ao mesmo tempo, apresentar um projeto político que seja diferente do que o Lula apresentou.

 

Lula subiria no seu palanque sem problemas?
Isso não está colocado. Até o momento, Lula é candidato. E, tudo indica que, com ele saindo, ele vai lançar um candidato do PT. Subir no palanque não está colocado, até porque eu não conheço na história do sistema eleitoral um primeiro turno com candidatos adversários estando no mesmo palanque. Nós achamos que defender a candidatura de Lula não é apenas um dever da esquerda, mas de todos que apoiam a democracia no Brasil.

 

Você falou bastante sobre a questão econômica e macro política, mas também há as pautas das minorias. Como elas estão sendo trabalhadas por vocês?
Primeiro, precisamos definir bem o que são pautas de minorias. Muitas vezes, colocamos mulheres e negros como pautas de minorias, mas eles são maiorias no Brasil.

 

Falo como minorias sociais.
Em relação ao tema da ofensiva contra a população LGBT e indígenas, que vem crescendo no Brasil com a disseminação do discurso de ódio, nós temos muita preocupação. O crescimento disso não só contra essas minorias, mas o machismo, o racismo, hoje está personalizado na figura do Jair Bolsonaro. A batalha contra o Jair Bolsonaro não pode ser apenas eleitoral, é todos que defendem a civilização. É uma batalha de princípio. Mais do que isso, Jair Bolsonaro é um bandido. Um criminoso. Ele tem cometido reiterados crimes. Apologia à tortura, ao estupro, como fez com a deputada Maria do Rosário. De crime de racismo com os ataques que fez aos quilombolas, a homofobia. Então, o Jair Bolsonaro deveria estar na cadeia. Temos que respeitar a diversidade de opinião, a diversidade sexual. Não podemos ser um país de fofoqueiros que se metem no amor alheio. O casamento civil tem que ser tratado como um direito. Em relação à pauta indígena, é preciso ter demarcação das terras. É um absurdo que povos que tiveram suas terras espoliadas há 500 anos tenham que lutar por um pedaço mínimo de terra porque o agronegócio e latifundiários passam por cima. É preciso defender as terras índigenas, quilombolas, os LGBTs, direito de decisões sobre o povo corpo, no caso das mulheres. No caso do racismo, combater a desigualdade. Nossa sociedade ainda está baseada na lógica da escravidão e da Casa Grande. Negros recebem, em média, metade do salário dos brancos. Qualquer governo e projeto de país que queira promover mudanças de verdade precisa abraçar essas pautas sem medo.

 

Caso você vá ao segundo, estará aberto a todas as colorações partidárias? 
Não achamos mais possível e admissível fazer alianças de ocasião e por fisiologismo. Isso deteriora qualquer programa. As pessoas que defendem nosso programa são bem-vindas para estar conosco. Agora, quem tem um programa diferente desse e quer vir por acordo de balcão, aqui não tem acordo de balcão.

 

Mas sua candidatura é, por exemplo, diferente da de Ciro Gomes e do Lula, que são nomes da esquerda mais bem posicionados nas pesquisas? Como você poderia demonstrar isso?
A esquerda e o campo progressista têm pontos de unidade e de diversidade. Hoje há uma unidade ampla da esquerda brasileira na defesa de direitos sociais, contra as reformas de Temer, contra o golpe, na defesa da democracia, do direito do Lula ser candidato. Em relação aos pontos unitários, temos que estar juntos em frentes democráticas. Mas as diferenças que temos com demais candidaturas do campo progressista é que defendemos que precisamos ir além do que apenas reeditar o que foi feito. Até porque não há mais condições para isso. Não é possível avançar nos direitos sociais sem combater privilégios. E levar esse entendimento até as últimas consequências significa assumir, como bandeira chave de projeto para o país, algumas reformas estruturais que eu não tenho visto essas candidaturas encamparem.

 

Se fala muito, inclusive por opositores seus, é que você não seria um legítimo representante dos sem-teto. Te acusam de ser privilegiado e dizem que aquilo não tem nada a ver com você. Como você se defende dessas acusações?
Eu não nasci em São Paulo em uma família de classe média - meus pais são médicos. Desde muito jovem, com 15, 16 anos, comecei a me aproximar da militância social. Acho muito curioso essa ideia de ataque, de dizer que, quem não é sem-teto originalmente, não pode encampar essa causa. Isso é uma negação da solidariedade, que é o valor humano mais importante. Ter a capacidade de assumir causas que não são originalmente suas. Eu quero que todas as pessoas tenham as oportunidades que eu tive. É isso que me faz militar há mais de 15 anos no movimento dos trabalhadores sem-teto, e com muito orgulho. A pergunta que deve ser feita é: por que em um país com mais de seis milhões de pessoas sem casa, por que mais gente não se engaja na luta dos sem-teto? De todas as coisas que nos diferenciam da direita, do atraso, a mais importante delas é a solidariedade. Tenho muito orgulho de ter construído minha vida dentro do movimento.

 

Alguns setores do PSOL não digeriram bem sua escolha como pré-candidato. Como você está lidando com isso?
É muito importante que, em qualquer partido, haja espaço para pluralidade. Pensamento único não faz bem a ninguém. O PSOL tem suas diferenças, sua pluralidade. Mas o partido tem seus espaços de definição. Na última semana, fizemos uma conferência eleitoral e, por mais de 70% dos votos, a nossa chapa foi aprovada para representar o partido nas eleições desse ano. Houve uma definição partidária. Nós respeitamos as pessoas que tiveram posições diferentes, mas esperamos também que elas respeitem a definição partidária e possam compor esse processo. Ao mesmo tempo, estamos construindo algo novo e estamos construindo uma aliança. Pela primeira vez, uma aliança que se expressa no processo eleitoral com partidos e movimentos sociais. Essa candidatura não é apenas do PSOL. É do PCB, que também compõe a aliança, mas com uma série desses movimentos. 

 

A campanha vai começar e sabemos que há uma série de limitações, principalmente financeiras. O que vocês pretendem fazer para disputar uma eleição nesses moldes? Também queria saber como você pretende fazer a comunicação com o povo, mais fora desse debate complexo.
Em relação ao financiamento, há um fundo público de financiamento para campanhas, criado pela reforma política. Nós também vamos fazer financiamento coletivo pela internet, com venda de materiais, tudo o que é permitido na legislação. Não é uma campanha de pouca gente com muito dinheiro, mas de muita gente com pouco dinheiro. Você ter formas de financiamento coletivo é muito importante. Nós não queremos e nem vamos procurar financiamento de grandes bancos, corporações. Nós preferimos fazer campanha com chinelo rasgado a receber dinheiro de gente que está viciada em uma lógica de corrupção e troca-troca na política. Em relação ao debate popular, nós já temos feito. É uma campanha com diversos movimentos sociais, gente que está na periferia, no dia a dia dos trabalhadores, ouvindo os problemas. Nós construímos no ano passado a plataforma Vamos, que fez mais de 50 debates em todas as regiões do país, envolvendo mais de 150 mil pessoas, presencialmente e nas redes sociais. Essa plataforma é base do conteúdo programático que estamos construindo. Nós estamos construindo de baixo para cima. Dialogando com as pessoas, incluindo as propostas que as pessoas querem para o país. Não é uma campanha para políticos, é uma campanha que quer dialogar para o povo brasileiro.

Histórico de Conteúdo