Segunda, 26 de Dezembro de 2016 - 11:00

Rui Costa

por Rebeca Menezes

Rui Costa
Fotos: Amanda Oliveira/GOVBA
Rui Costa não costuma esconder suas opiniões sobre o contexto político. Contudo, o governador da Bahia prefere não esquecer o seu lado humano. Em entrevista ao Bahia Notícias, Rui fala sobre a relação com os filhos e com a mulher, Aline Peixoto, e relembra como sua mãe era completamente contra sua trajetória política. Ao fazer um balanço da primeira metade de seu mandato, ele define qual foi o momento mais complicado dos últimos dois anos, tanto política quanto pessoalmente. Rui responde ainda sobre as críticas que recebeu por problemas na articulação com a base e explica a dificuldade de projetar reajuste para os servidores estaduais em 2017.

Como você avalia a primeira metade do seu mandato, sob uma perspectiva política?
Eu diria que foi uma primeira metade de desafio. Foi um desafio grande, de superação, em uma conjuntura bastante adversa. Como alguém que recebeu um avião para pilotar e pega na metade da viagem uma tempestade gigantesca, com muito raio, muita trovoada, com muita nuvem carregada. É assim que eu me sinto. Mas eu digo sempre que Deus, ao longo da minha vida, me deu desafios muito grandes. E muitas vezes, desde adolescente, eu achava às vezes que o desafio era insuperável, que o obstáculo era grande demais. Mas minha mãe me dizia: "Enfrente a dificuldade, nunca baixe a cabeça. Levante a cabeça para ver o tamanho do obstáculo. Se esforce, estude, trabalhe e tenha fé em Deus que você conseguirá superá-los". E hoje, depois de dois anos, eu me sinto realizado pessoalmente, realizado coletivamente - porque eu não fiz isso sozinho - por ter superado dois anos de extrema dificuldade. O Brasil não viveu nada similar a isso nos últimos 60, 70 anos, porque são todas as crises ao mesmo tempo. O Brasil já viveu crise política, já viveu crise econômica, já viveu crise institucional... Mas em cada momento era uma crise separada da outra. Agora veio tudo junto e eu me sinto realizado por ter ultrapassado esse desafio, e bem, eu diria. A Bahia está entre os três ou quatro estados do Brasil em melhor situação fiscal, financeira e de serviços públicos sendo mantidos e as obras sendo tocadas.
 
Você recebeu diversas críticas nos últimos anos por ser um ótimo gestor, mas um político ruim. Mas recentemente até mesmo o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Nilo, afirmou que te daria "dez" como político.  O que gerou essa "guinada" neste outro lado?
Eu diria que talvez seja que as pessoas passam, com o tempo, a me conhecer mais. Eu me sinto um ser humano na política e não um político. Portanto, talvez as pessoas, ao me conhecerem, vão percebendo as minhas prioridades, o meu foco, o meu jeito de ser. E nós gostamos mais do outro ser humano quando a gente conhece mais. Quando a gente conhece as pessoas, a gente desculpa mais os defeitos, reconhece mais as qualidades e minimiza os efeitos que o outro tem. Quando a gente só olha o outro à distância, tende a só enxergar os defeitos. Talvez, com o passar do tempo, as pessoas estejam me conhecendo mais. E também eu ficando mais mole, mais macio (risos). Porque o ato de governar também sensibiliza, vai humanizando ainda mais. E a cada dia que passa é um pouco da carga emocional que eu tive ao longo da minha vida. Isso tudo foi me formando, do meu jeito, da minha personalidade. E eu vou confrontando isso com a vida real, com o ato de governar. Com isso, eu acabo me emocionando e às vezes emocionando as pessoas que estão ao meu lado.
 

 
Para você, qual foi o momento mais complicado desses dois anos?
Pessoalmente, o período mais difícil foi em julho do ano passado, a despedida de meu pai mexeu muito comigo. Do governo, eu diria que o período mais difícil foi quando da injustiça cometida com a presidenta Dilma [Rousseff], que eu acho que foi um momento triste da história do Brasil. A história haverá de registrar como um grande absurdo. Aliás, a imprensa internacional hoje, de forma quase que unânime, registra como uma grande aberração e uma grande injustiça com a presidenta. A mídia nacional não, porque aí sofre a influência da disputa político-partidária. Cada um de nós é influenciado por suas preferências, ou por seus editores. Mas a mídia internacional, que é mais isenta, hoje reconhece o absurdo que foi cometido. Quanto mais se revela coisas, mais a imprensa internacional consolida que foi uma aberração sem tamanho. E esse foi o momento, do ponto de vista do gestor e político, mais difícil desses dois anos.
 
O presidente Michel Temer tem insistido nas contrapartidas para liberar o dinheiro da repatriação. Uma delas é aumentar o imposto previdenciário dos servidores. Você acha que vai ter que ceder nessa questão? Haverá reajuste dos servidores para 2017?
Tudo vai depender do andamento da economia. Tanto as medidas que nós vamos tomar, ou que faremos de benefício, depende da arrecadação e da economia. Eu não posso antecipar nada agora porque, infelizmente, eu não tenho bola de cristal. Não é possível fazer previsão nesta conjuntura brasileira. As instituições não estão funcionando normalmente. Há uma brutal crise institucional e política no Brasil. E seria irresponsabilidade, ingenuidade eu fazer qualquer tipo de previsão. Então eu não posso fazer previsão sobre o que eu vou fazer do ponto de vista restritivas ou de medidas de concessão. Eu preciso avaliar o desempenho da economia e ver como a arrecadação vai se comportar. Se se comportar como foi esse ano, a resposta está dada. Nós vamos ter que apertar mais os cintos e não vai ter recurso para fazer concessão alguma. Porque se eu fizer, simplesmente não pago folha salarial, não pago direito trabalhista. E eu vou desorganizar o serviço para a população. Porque qualquer ser humano quer ter o seu salário reajustado. Isso é um desejo. Agora eu vivo de salário, sempre vivi de salário, e sei que não tem nada pior para quem vive assim do que não saber o dia em que vai receber. Todo mundo tem cartão de crédito, tem mensalidade da escola do filho, tem que ir no supermercado e pagar conta. E você não saber que dia que entra o seu salário é desesperador.  Então por isso é que eu tomo cuidado para não permitir aqui na Bahia. Porque se é ruim não ter reajuste, é muito pior não saber quando vai receber salário.
 

 
O senhor sempre foi muito ligado à sua família. Cita sempre os seus pais, publica fotos com as suas filhas. A sua mulher também tem atuado bastante na política, seja nas Voluntárias Sociais ou na eleição de Jequié. Essa é uma forma de vocês estarem mais juntos? Como você equilibra o lado governador com o lado familiar?
Eu acho sim que é uma forma de estarmos mais juntos. Eu não sei explicar isso. É muito de sentimento. Minha mãe era contra que eu estivesse no sindicato. Naquela época eu não era político, no sentido da palavra. Nunca tinha sido candidato a nada, nem a vereador, nem a deputado. Mas ela era terminantemente contra que eu estivesse na política. Ela queria que eu tivesse uma vida normal, como qualquer outro cidadão. Mas mesmo sendo contra, quando eu fui demitido na greve de 1985, ela foi a primeira a organizar passeata com as mães dos operários que foram demitidos. Eu tenho fotos dela organizando passeata na Avenida Sete, com cartaz, com faixa, pedindo a readmissão dos filhos. Então é amor de família. Quando a família sente que alguém está precisando de apoio, de ajuda, todo mundo vai se envolver. Esse sentimento eu diria que não é só minha mulher. Meu sogro, minha sogra, meus irmãos... Todo mundo de alguma forma se envolve. É um pouco de solidariedade. É o sentimento de quando a gente se juntava no domingo para bater a laje do vizinho. O vizinho não tinha dinheiro para pagar o pedreiro, e todo mundo usava a desculpa para fazer uma feijoada, a gente rateava a cerveja, e todo mundo ia fazer o serviço. Então em cinco, seis horas a laje estava batida e a pessoa estava feliz, e todo mundo feliz porque tinha ajudado um membro da comunidade. E eu acho que a gente precisa retomar. Com o passar dos anos, as pessoas foram ficando mais egoístas, mais distantes. Eu acho que a gente precisa retomar esse sentimento mais humano, mais solidário e mais fraterno. São simples atos. Às vezes ajudar um idoso a atravessar a rua, ajudar uma criança. São simples atos que muitas vezes não precisam ter publicidade. Isso constrói vida nessa terra, no planeta. E é uma forma, eu diria, tanto de estar mais próximo da família como a família estar mais próxima de mim, com todo mundo se envolvendo um pouquinho. Mas eu respeito. Minhas filhas até a gente expõe mais em fotos, mas meus filhos mais velhos eu preservo mais, porque eles são mais vulneráveis no mundo externo. As crianças estão mais coladas também. Mas é um momento de grande reflexão, de muita emoção. E minha mulher ajuda muito a me emocionar, porque ela faz muito esses eventos mais familiares, de reunir crianças e idosos. Esse ano ela colocou os idosos e mexeu muito comigo. Porque eu perdi meu pai no ano passado e minha mãe faleceu nos meus braços, literalmente. No dia em que ela estava falecendo, ela pediu para todo mundo sair do quarto e eu que fiquei com ela. Meu pai a mesma coisa. Então eu não sinto revolta de ninguém, mas eu sinto uma dor no coração muito grande quando eu vejo pais e mães falando de seus filhos com enorme saudade. Eles sabem onde os filhos estão, sabem onde estão trabalhando, e dizem "tem não sei quanto tempo que eu não vejo meu filho, que eu não vejo minha neta". Então isso mexe com a gente. 

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