Léo Prates pretende defender projetos que beneficiem as pessoas com deficiência - 05/11/2012
Foto: Tiago Melo / Bahia Notícias
Bahia Notícias – Foi uma surpresa para você ter conseguido uma votação tão expressiva, inclusive à frente de figuras mais renomadas, até dentro do próprio partido, como Cláudio Tinoco?
Léo Prates – Foi uma surpresa. A gente vinha fazendo um trabalho e sabia que poderia alcançar uma boa votação, mas em Salvador você nunca sabe mensurar o seu potencial de voto. Você trabalha em um universo pequeno e em uma disputa muito acirrada, então você não sabe efetivamente até onde pode chegar. Para mim foi muita surpresa, até porque eu só fui liberado pelo meu partido para trabalhar na minha candidatura a partir do dia 30 de abril deste ano. Então, além de haver tudo isso, gente mais renomada que eu, houve também um atraso para botar o meu bloco na rua. Mas estou muito satisfeito, feliz e agradecido ao povo de Salvador.
BN – Uma das suas bandeiras de trabalho é a acessibilidade. Salvador, segundo uma pesquisa recente, tem as piores calçadas do Brasil, além das dificuldades das estações de transbordo. Qual a sua primeira proposta para melhorar a questão da acessibilidade em Salvador?
LP – Eu tenho que registrar que, desde o vereador Agenor Gordilho (DEM), a Câmara não tinha um representante efetivo para as causas das pessoas com deficiência. As pessoas que o apoiavam acabaram abraçando nosso projeto, porque [ACM] Neto foi um dos deputados federais que mais fez projetos e trouxe recursos para instituições que cuidam de deficientes em Salvador. A primeira coisa que quero trabalhar é o fortalecimento das ONGs que prestam esse serviço. Eu sempre digo e dou como exemplo que nós não temos nenhum baiano entre os que ganharam medalha nas Olimpíadas de Londres, mas temos baianos que ganharam medalhas nas Paraolimpíadas de Londres. Estas instituições estão preparando estes jovens, estão conduzindo bem. A primeira luta da gente é organizar estas instituições, que sofreram muito durante estes quatro anos agora. A Lei de Utilidade Pública demorou muito de ser votada na Câmara Municipal e isso acabou acarretando em consequências para essas ONGs. Também buscar uma melhoria das calçadas, o que vai ser fácil porque o prefeito eleito já tem isso na sua vida pública, de luta para a pessoa com deficiência. Acho que somando o esporte, o fortalecimento das instituições e o avanço na preparação das pessoas que estão nelas, dos jovens com deficiência, para que ele possa ingressar no mercado de trabalho, são as três lutas primordiais que nós vamos ter na Câmara. Uma delas é sensibilizando o empresariado também. Existem leis que regulamentam a participação da pessoa com deficiência nas empresas, mas que precisam ser fiscalizadas para serem cumpridas.
BN – Esporte é uma de suas bandeiras também, e a gente vive em uma cidade que não tem tradição em esportes olímpicos. Inclusive faltam espaços, em Salvador, para desenvolver atividades atléticas. Como vereador, de que forma você pretende trabalhar para melhorar esse quadro?
LP – Eu vou dividir a pergunta em duas partes. A primeira é no esporte como instrumento de socialização. A gente vê em várias comunidades carentes de Salvador que a quadra é o espaço de reunião, é onde se faz a festa, a socialização e é onde se joga o futebol, que é o esporte mais forte em nossa cidade, hoje. ACM Neto abraçou uma bandeira nossa, que é a requalificação dos campos e quadras de Salvador, e nós iremos pedir e cobrar do prefeito eleito a execução desse projeto, com objetivo de socializar o jovem. E o fortalecimento das associações comunitárias que treinam crianças para prática do futebol, que é o esporte mais forte em nossa cidade, repito. A segunda parte é o esporte de alto rendimento. Eu sempre dou como exemplo que temos uma raiz africana muito forte. Os africanos dominam o atletismo, principalmente maratonas. E nós não temos um baiano que se destaque no cenário mundial. Por que? Porque nós não temos uma pista de corrida, nós não temos uma piscina olímpica. Eu gostei muito de uma fala do prefeito eleito, onde ele diz que acabou a campanha, acabou o palanque. Eu acho que o prefeito eleito e o governador do Estado precisam se unir, porque nós não podemos ficar sem uma pista de atletismo e uma piscina olímpica. Principalmente porque vivemos do turismo e estamos perdendo turistas nisso. Uma competição de natação ou atletismo são competições baratas para trazer para a cidade, e nos falta infraestrutura esportiva. E isso precisa ser aproveitado no legado da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Todas as cidades que receberam estes eventos aproveitaram este momento como um momento de transformação. E eu espero que ACM Neto e Jaques Wagner se unam para que esse momento, ímpar na história da Bahia, seja aproveitado e que depois que isso passe a gente diga que Salvador mudou e a Bahia mudou.
BN – Geralmente é na base que isso tem que ser trabalhado. Você não acha que as escolas municipais deveriam incluir atividades esportivas, como aulas de educação física, que incentivem as crianças a serem atletas no futuro?
LP – O esporte escolar é um ponto muito sensível e importantíssimo. A primeira coisa que precisamos estimular, em nossa cidade, é a escola em tempo integral. Porque a criança vai estar estudando em um turno e fazendo outro tipo de atividade prática no turno subsequente. O grande projeto, tanto para área esportiva como educacional, é a escola em tempo integral. Claro que ACM Neto não conseguirá, em apenas quatro anos, transformar todas as escolas da rede. Espero que ele consiga fazer o máximo possível. Porque o estímulo no início da vida, em uma prática esportiva, pode nos render grandes atletas no esporte de alto rendimento. Fora que o esporte envolve os jovens, e é sabido por todos que acaba evitando que se tenha acesso às drogas e a outras coisas que tanto nos entristecem.
BN – Uma questão sobre o seu posicionamento futuro na Câmara, pensando na independência dos poderes. Nós temos uma Câmara hoje que é muito refém do desejo de João Henrique. Como é que você, vereador eleito do partido do futuro prefeito, o Democratas, acha que deve se posicionar? E como a bancada governista deve se posicionar em relação ao governo de ACM Neto?
LP – Muito boa a pergunta. Ontem eu estava vendo uma entrevista coletiva que ACM Neto deu e perguntaram para ele uma questão específica sobre a Câmara de vereadores, que foi sobre a presidência da Câmara. Ele disse “não vou me envolver”. Já é a primeira mensagem que o prefeito eleito dá, de que vai procurar preservar a independência dos poderes. Quanto ao meu posicionamento individual, será em apoio à gestão do prefeito. Sou do mesmo partido, irei apoiar. Mas não vou deixar de cumprir as minhas funções institucionais, que é propor projetos para o prefeito eleito, fiscalizar a gestão – porque às vezes o prefeito trás um auxiliar que não corresponde ao que a cidade deseja. O posicionamento eleitoral não quer dizer o mesmo posicionamento quanto vereador dessa cidade, que tem um mandato e tem os cidadãos, que estão literalmente sofrendo com a cidade como ela está hoje.
BN – Você seria, como pessoa de confiança do prefeito eleito, um forte candidato a assumir o posto de líder do governo ou pensa em primeiro conhecer o mandato e ficar como vereador mais secundário?
LP – Eu vou usar uma expressão que o PT usou muito. Eu faço parte de um time. Eu sempre digo que ajudei a construir esse projeto com ACM Neto desde os primórdios, mais especificamente desde o ano de 2000. Construímos juntos essa trajetória. Eu fui assessor parlamentar dele por muitos anos e me sinto partícipe dessa vitória. Eu achei que ele tem os predicados pessoais e políticos para administrar qualquer coisa, seja prefeitura ou governo do Estado. Ele se preparou a vida toda para esse momento. E meu sonho é de ver ACM Neto o melhor prefeito do Brasil, e para isso eu me coloco à disposição para tudo. Inclusive para ficar na Câmara apenas como vereador, que já é muito para mim, porque é meu primeiro mandato. Liderança de governo, secretaria, isso aí é uma decisão pessoal e espero que ele escolha o que é melhor no momento. Que ele veja a melhor forma de encaixar as peças. ACM dizia que “convite de prefeito, de governador e de presidente não se nega”, então não sou eu que vou desobedecer.
BN – Mas você se vê como secretário? Você consegue se projetar numa cadeira de secretário de alguma pasta da prefeitura?
LP – Eu volto a dizer que essa é uma decisão particular do prefeito.
BN – Mas você se vê?
LP – Eu acho que não é se ver. Eu procurei a minha vida toda, até estimulado por ACM Neto, me qualificar. Eu sou engenheiro eletricista, fiz uma pós-graduação em administração. Antes de ser candidato, tive que deixar um mestrado em economia na [Universidade] Federal. Procurei me qualificar sempre para os desafios que a vida pública me colocar, mas eu volto a dizer: secretaria e liderança de governo é uma escolha particular do prefeito. Eu quero que ele fique muito à vontade.
BN – Recentemente, a legislatura atual aprovou aumento no salário dos vereadores, e os últimos aumentos têm sido sempre superiores a 40%. Sabe-se que é constitucional votar o aumento, mas a lei não define percentual. Qual a sua posição sobre o futuro salário, de R$ 15.000? Você acha que é legítimo o vereador ganhar um salário deste montante em uma cidade tão pobre?
LP – Vamos dividir a pergunta em três partes. A primeira é que o vereador ganha constitucionalmente até 75% do que ganha um deputado estadual. Os vereadores passaram 4 anos sem aumento, e segundo eu li, o aumento aplicado à Câmara era parecido com os que foram aplicados ao salário mínimo. Ou seja, teve 44% de aumento e o salário mínimo também. Os 75%, o deputado estadual aplica um instrumento, que na Câmara não existe e eu acho correto, de aumento imediato quando o federal sobre. Na Câmara não é bem assim. A análise que eu faço são duas. Se você me perguntar “você acha que o vereador ganha muito?” eu vou dizer que não, mas se você me perguntar “você acha que comparado com o que o trabalhador soteropolitano está ganhando, o vereador ganha muito”, eu vou dizer que sim. Depende da perspectiva. O que tenho a dizer é que trabalharei quatro anos para diminuir o desemprego e para que a média salarial do trabalhador em Salvador aumente. Eu não acho que tem que diminuir o salário do vereador, eu acho que a gente tem que lutar para que todo mundo mundo tenha um salário melhor e mais digno. A sua pergunta, eu responderia de duas formas. Primeiro é que o índice [de aumento] é normal, segundo que eu acho que precisamos trabalhar para que o trabalhador ganhe mais. A minha luta é para que a cidade se desenvolva economicamente. Eu acho que o salário é um atrativo para que melhores pessoas venham à Câmara e ela se qualifique. O cidadão tem que cobrar projeto, propostas e trabalho dos vereadores. O salário melhor vai atrair profissionais melhores para a Câmara de Salvador, que a gente espera que seja melhor.
BN – Durante a campanha, o seu nome foi usado várias vezes por Nelson Pelegrino (PT) como prova de que o prefeito João Henrique (PP) estaria vinculado a campanha de ACM Neto. Na sua opinião, por que João Henrique não apareceu publicamente na campanha?
LP – Primeiro, eu quero separar as coisas. Uma coisa é Léo Prates pessoal e outra coisa é o partido. Em 2008, no segundo turno da eleição, eu fui convidado por Fábio Mota para ingressar na coordenação de campanha de João Henrique, quando ACM Neto não passou para o segundo turno. Lá, eu acabei conseguindo amigos e me dedicando muito à campanha, porque eu sou assim, eu me entrego de coração. Trabalhei muito e, ao final da eleição, João Henrique me convidou, na sala dele, e me deu uma posição. Eu tenho que dizer aqui, pela primeira vez, que ACM Neto não queria que eu saísse do gabinete dele. Ele foi contra a minha saída, porque eu já tinha uma bagagem e conhecimento construído das pessoas, sabia qual a base política onde ele atuava, como ele atuava, com quem ele atuava. Ele não queria que eu fosse para a prefeitura de Salvador. Eu, achando que era uma oportunidade para mim – como foi – fui ser assessor especial da Prefeitura de Salvador. A responsabilidade que eu tenho lá é de atender lideranças comunitárias, organizar agenda e de ter me dedicado a estudar a máquina pública, aproveitando a oportunidade. Eu não administrava nada, eu não cuidava de nada, eu fazia atendimento a lideranças comunitárias – que acabou me possibilitando conhecer a cidade mais profundamente, o que me ajudou na eleição de vereador. Outra coisa é ACM Neto, que indicou Cláudio Tinoco – e ele nunca negou isso – para a Saltur, fez quatro Carnavais. Quanto ao prefeito João Henrique, ele sempre se disse neutro na eleição, porque ele entendia que esse era o melhor posicionamento. No dia da eleição, eu vi no Bahia Notícias que ele se posicionou e votou em ACM Neto. Eu quero separar bem as coisas. O prefeito João Henrique não participou da campanha de ACM Neto porque naquele dado momento da história ele não estava imbuído da campanha. Quanto a mim, acho que o Pelegrino quis colar uma imagem, que foi equivocada. Eu poderia citar pessoas que estavam fazendo campanha para Nelson Pelegrino dentro da prefeitura e nem por isso João Henrique estava apoiando Nelson Pelegrino. Eu posso citar, por exemplo, os cargos ocupados pelo PSC, que no segundo turno apoiaram Nelson Pelegrino. Eu posso citar os cargos ocupados pelo PP, o secretário da Setin e da Casa Civil, que faziam campanha para Nelson Pelegrino. Nem sempre porque você é da máquina, você tem que seguir aquele posicionamento. Não entendi, mas agradeço ao deputado Nelson Pelegrino, que acabou me tornando uma pessoa mais conhecida.
BN – O que o povo de Salvador pode esperar de você para mudar o perfil da futura legislatura? Como você vai contribuir para dar uma nova cara para a Câmara?
LP – Eu não venho de família política, eu não tenho tradição política, não venho de uma família rica – venho de uma de classe média – construí minha trajetória política com muito trabalho, com muita dedicação, com muito amor. Eu faço tudo muito apaixonado. Gosto de estar no grupo onde estou. Eu acho que vou contribuir com meu trabalho, com minha vontade, com a minha dedicação e minhas ideias, porque a gente acaba tendo algumas ideias ao longo da vida. Mas principalmente com a minha força de trabalho. Eu costumo ser uma pessoa que acordo cedo, trabalho muito, me dedico muito ao que eu faço, procuro me qualificar. E espero também poder aprender, com muito respeito ao meu grupo político. Você tem pessoas lá que muito podem ensinar. Eu estou em um campo adversário ao ex-governador Waldir Pires (PT), mas é uma pessoa que eu pretendo obervar a atuação política. Eu tenho 34 anos, eu ainda tenho uma carreira longa pela frente, espero aprender um pouco. Você tem o vice-prefeito Edivaldo Brito (PDT), tributarista renomado. Ana Rita Tavares (PV), auditora de carreira do Tribunal de Contas do Estado. Sílvio Humberto (PSB), do Instituto Cultural Steve Biko. E nessa pluralidade, espero crescer. Como quando eu fui para prefeitura, fui para aprender. Espero contribuir dessa forma: trabalhando muito, buscando observar, buscando crescimento político lá dentro e buscando ajudar no que eu puder lá dentro, independente de partido A, B e C. Volto a repetir a frase de ACM Neto: “Acabou eleição, acabou o palanque”.
BN – E no que depender de Léo Prates, vai ter sempre quórum na Câmara?
LP – Vai ter sempre quórum, para os temas bons e para os temas ruins, também.
