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Entrevista

Valdir Raupp faz um balanço sobre a expectativa do partido para a campanha de 2012 - 02/07/2012

Por Rodrigo Aguiar / Evilásio Júnior

Valdir Raupp faz um balanço sobre a expectativa do partido para a campanha de 2012 - 02/07/2012
Fotos: Max Haack / Ag. Haack / Bahia Notícias

Bahia Notícias – Na semana passada circulou a informação de que o senhor ia se afastar do mandato de senador para se dedicar às campanhas por todo o Brasil. O senhor já fez isso? Ainda pretende fazer?

Valdir Raupp –
Eu acabei adiando essa decisão porque tem um projeto muito importante lá no estado (Rondônia) que eu ainda não consegui fazer. Então, a tendência é resolver até o dia 5 de julho e aí eu estarei me licenciando por volta do dia 10. Enquanto eu não resolver esse projeto de cinco anos que nós estamos trabalhando lá no Congresso – que é a transposição de 20 mil servidores do ex-território para os quadros da União –, não tenho como sair. Esse projeto já aconteceu nos estados de Roraima e Amapá, que são mais jovens do que Rondônia e já conseguiram isso há algum tempo enquanto Rondônia ficou sendo, infelizmente, injustiçado.

BN – E como o senhor pretende efetivamente participar das campanhas?

VR –
Eu tenho, desde o início do ano passado, quando eu assumi a presidência nacional do PMDB, me desdobrado entre o estado – eu não posso abandoná-lo – e o PMDB nacional. Então, junto com o presidente da Fundação Ulysses Guimarães, deputado Eliseu Padilha (RS), nós percorrermos praticamente todos os estados, alguns mais de uma vez. Ficaram faltando apenas o Amapá e o Amazonas, que eu deixei por último, porque eram os mais próximos lá do Norte, também por problemas de agenda dos presidentes locais nós. Salvador já é a segunda vez que eu venho. Eu estou fazendo uma coisa que, modéstia à parte, nenhum outro presidente nacional do partido fez até agora: em menos de um mandato, que é de dois anos, e ainda na interinidade, pois o presidente é o Michel Temer (vice da República), percorrer todos os estados.

BN – Qual é a expectativa do PMDB para essas eleições e onde o senhor acha que o partido tem mais chances de vencer?

VR –
Nessa cruzada nacional, nós fizemos uma pregação de candidatura própria – A Fundação Ulysses Guimarães e eu, o diretório nacional – em todas as cidades. O maior desejo nosso era que o PMDB pudesse ter lançado candidatura própria em todas as cidades. Infelizmente, isso é impossível, porque tem cidades que não aparecem nomes com condições ou que queiram, há compromissos com alianças antigas também, e isso acaba dificultando em algumas cidades. Mas nós vamos lançar candidatura própria na maioria das capitais e na maioria dos municípios brasileiros. Eu creio que em mais de 3 mil cidades o PMDB deverá lançar candidatura própria e em mais de mil cidades terá candidatura a vice-prefeito, além de mais de 50 mil candidatos a vereador. Então, a chance de eleger um número expressivo, talvez ainda maior do que nós temos hoje, é muito grande, devido à quantidade de candidaturas que nós teremos em todo o Brasil. Candidaturas competitivas. Nós estamos trabalhando para eleger mais prefeitos nas capitais. Só tínhamos cinco prefeitos de capitais: dois saíram para disputar governos e ficaram só três. Agora, estamos lançando 15 candidatos a prefeito entre as 26 capitais.

BN – E como o senhor avalia a situação em Salvador?

VR –
Em Salvador, as chances de a gente chegar no segundo turno e ganhar as eleições são muito grandes. O que a gente viu aqui foi uma convenção concorrida: muita gente, muita militância, muita empolgação, os candidatos muito bons, nos próprios discursos, nas próprias propostas. O Mário Kertész, candidato a prefeito, o Nestor Neto, candidato a vice-prefeito, um jovem que saiu da periferia, que estudou e se formou com dificuldades, mas chegou à faculdade – líder estudantil, líder da Juventude [do PMDB], enfim, eu diria que é uma chapa perfeita. A exemplo de Salvador, nós temos muitas outras capitais com chances reais de vitória, como Rio de Janeiro – reeleição do Eduardo Paes –; Campo Grande, com o deputado [Edson] Giroto; Florianópolis, com o deputado Gean Loureiro; Belém, com o deputado José Priante, só para citar alguns.

BN – Tanto no café da manhã com Michel Temer quanto na convenção do PMDB, Mário Kertész falou de um projeto petista, sobretudo, de poder. O senhor concorda com essa avaliação?

VR –
O PT é um grande partido, assim como o PMDB. Nós estamos em uma aliança nacional, mas eu vejo que o PT já começa a perder força. Tem cidades que eles estão governando que não vão nem tentar a reeleição, dada a fadiga dessas candidaturas, desses mandatos. O exemplo típico é Recife, onde eles tiveram que trocar o candidato porque o prefeito eleito, que está há quatro anos [João da Costa Bezerra Filho], não conseguiu se viabilizar porque não fez um bom trabalho. Em Fortaleza também não está sendo diferente. Em muitas outras cidades, eu poderia aqui citar dezenas, está acontecendo a mesma coisa. Tem hora que tem que renovar. Eu acho que tudo tem que ter um tempo e eu louvo a atitude do Mário Kertész por duas razões: primeiro por não fazer grandes coligações – isso dá problema, só dá trabalho, dividir cargos, isso é uma loucura. Ninguém aguenta mais o sistema partidário do jeito que está. O vice é do PMDB e vai governar para a população e não para partidos políticos, que é o que a maioria das administrações tem feito hoje em dia. Segundo que ele só vai ficar quatro anos: ele já está entrando com compromisso de não ser candidato à reeleição, porque a reeleição tem hora que até ajuda, mas tem muitos casos em que mais atrapalha do que ajuda. Você faz um apanhado em todo o Brasil e vê que as reeleições mais atrapalharam do que ajudaram. Ele vai ficar quatro anos e vai ficar voltado para a cidade, o povo da cidade e os seus problemas.

BN – Ausência de alianças não é um problema?

VR –
Eu acho que não [risos]. Eu sou relator de um projeto no Senado, que eu já fiz o relatório, já ganhamos, aprovamos na Comissão de Constituição e Justiça, para o fim das coligações. Já passou na CCJ e a tendência é passar no plenário também. Está caminhando para isso. Os partidos não aguentam mais. Os candidatos não estão aguentando mais ter que negociar meses e meses e receber, muitas vezes, propostas espúrias, indecorosas de fechamento de partidos só por causa do tempo de rádio e televisão. Nós temos que reformar, após as eleições municipais, e cada partido se vira com o seu tempo de televisão, com os seus candidatos. Eu acho que as propostas ficam mais saudáveis para a população se saírem como aqui em Salvador, com chapa pura e sem essas coligações.

BN – Aqui em Salvador, isso aconteceu muito em virtude das circunstâncias, porque o PMDB tentou a todo o momento construir uma frente de oposição com o Democratas e o PSDB. A ideia não vingou. Então, o fato de o PMDB sair com uma chapa “puro sangue”, como tem sido chamada, é em função também desse fracasso...

VR –
É, mas podia ter outros partidos. Tem 30 partidos. Então, mesmo não tendo prosperado a aliança com DEM e o PSDB, poderia ter buscado aliança com outro partido. O Geddel [Vieira Lima] mesmo me disse: ‘Raupp, não vale à pena. É sempre uma troca, uma coisa, um apoio diferente’ e isso não deu certo. Eu não quero dizer que, de repente, uma aliança não seja positiva. Tem outro projeto no Senado, também, que eu não lembro agora quem foi que apresentou, que o tempo de televisão deveria ser só da chapa majoritária. Você perderia essa negociação, esse balcão que está acontecendo hoje, se o tempo de rádio e televisão fosse usado apenas dos candidatos a prefeito, vice, governador ou presidente da República. Não haveria essa agregação de 10, 15 partidos, que é um jogo desleal. Quem tem mais dinheiro para negociar, quem tem mais cargo para dar, mesmo antes da eleição, porque têm governos que dão cargo em troca. Um exemplo típico é São Paulo. Eu posso falar porque a mídia já divulgou isso amplamente. Houve uma negociação explícita em São Paulo com outros partidos em troca de cargos: do Estado, da prefeitura de São Paulo e da União. O caso do PT lá foi um exemplo típico de... não sei. É público, né. O PP lá, o Paulo Maluf, negociou a Secretaria Nacional de Saneamento, que é uma gigante, com quase R$ 3 bilhões de orçamento. Estava entre a Secretaria de Habitação do Estado de São Paulo e esta secretaria. Olha só onde fica a ideologia partidária. De um lado estava se negociando a Secretaria de Habitação para ele ir para a chapa do [José] Serra (PSDB); do outro estava se negociando a Secretaria de Saneamento do Ministério das Cidades, do governo federal, para ele ir para o lado do [Fernando] Haddad. E prevaleceu o quê? Onde tinha mais orçamento, porque a outra só tinha o orçamento de R$ 1 bilhão e pouco. Então, isso tem que acabar. Esse sistema está podre. Não tem mais como continuar.

BN – O senhor teme que possa haver algum tipo de tensão pelo fato de o PT e o PMDB serem aliados nacionais, mas na Bahia um ser governo e outro oposição? Como é que Mário Kertész deve se portar durante a campanha em relação ao PT?

VR –
Eu acho que Mário Kertész deve se portar amistosamente. Tenho certeza de que ele vai fazer uma campanha de altíssimo nível e se eleito, porque eu creio que será eleito, ele vai buscar tanto o governo do Estado quanto o governo federal, até porque o PMDB está lá com o vice-presidente da República. Eu, como presidente do diretório nacional, falo pelo PMDB como um todo. Nós vamos dar apoio, até porque tem representação do PMDB em todo lugar. De forma que eu não vejo nenhum problema pelo fato de ele não estar alinhado ou com o PT nacional ou com o PT estadual. Nós vivemos em um país democrático e o PMDB, que é o maior partido do Brasil, pode lançar candidato mesmo onde o PT está governando. No Brasil, acho que não teremos 10% das cidades com PT e PMDB juntos. Em 90% vamos estar separados, até porque o partido é independente.

BN – Como é que está a relação entre os dois partidos?

VR –
A relação é boa, de respeito. Nosso vice-presidente se dá muito bem com a presidente Dilma. Eu também. Faço parte do Conselho Político da República, como presidente do PMDB. Então, eu acho que essa relação é boa e se o Mário Kertész for prefeito de Salvador, nós vamos abrir portas dos ministérios para ajudar, sem nenhum troca-troca, mas sim porque o PMDB é um partido grande, que tem o vice-presidente da República, vários ministros, a maior bancada no Senado e a segunda maior na Câmara.