Mário Negromonte Jr. detalha projeto do "Cassetinho baiano" e fala sobre denúncia contra o pai - 05/12/2011
BN - Recentemente você ganhou bastante espaço na mídia com o projeto do “cacetinho baiano”. O projeto para adicionar fécula de mandioca à massa do pão causou um problema com o sindicato dos panificadores. Já teve um entendimento entre você, que é o dono do projeto, com os panificadores?
MN - Eu estou procurando debater e esgotar esse debate. A gente promoveu, por exemplo, uma sessão especial. Nós chamamos para conversar todo o setor, os comerciantes e as pessoas interessadas, e, a exemplo deles, os panificadores. Eles têm uma posição muito fixa. A gente sabe que existe um lado, nessa história, que é a questão do trigo. O trigo é um setor muito forte economicamente, porém, a gente sabe também que 80% do que se produz, do que nós consumimos, todo ele é importado. Mas nós temos aqui 665 mil agricultores familiares na Bahia. A Bahia tem o maior número de agricultores familiares. Muitos deles vivendo da mandiocultura. Infelizmente, a mandiocultura é ainda uma cultura de subsistência, ou seja, a pessoa vive disso para colocar o feijão e o arroz na mesa. Só. Como o governador Jaques Wagner colocou a mandiocultura entre as sete cadeias produtivas prioritárias e fizeram até uma enquete ano passado pedindo apoio aos deputados e candidatos para promover, seja projetos ou indicações, nesse sentido de incrementar o setor, foi daí que surgiu minha intenção de fazer esse projeto. Agora, se está pacificado com os panificadores? Não. Porque a gente está discutindo. Vamos promover uma audiência pública na Comissão de Agricultura, que eu faço parte também. Mas, terça-feira [22 de novembro] foi aprovado por unanimidade na CCJ [Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa] o parecer do relator que foi favorável ao projeto.
BN - Quem é o relator?
MN - O relator é Carlos Geílson [PTN].
BN - O projeto prevê não só no fornecimento público, como também da produção do pãozinho no setor privado. As panificadoras e as padarias seriam obrigadas a acrescentar essa fécula de mandioca?
MN - Aí é que está. A minha intenção não é essa. A minha intenção é dar o direito ao consumidor de ter opção. Pão com 10% fécula e 90% do trigo e o pão com 100% trigo. A obrigatoriedade quem vai impor é o mercado. Entendeu? Eu não quero trazer nada de problema com o livre comércio. Até porque a questão social sobrepõe ao livre comércio.
BN - Nessa alteração, o preço do consumidor no final, vai ficar mais barato ou mais caro?
MN - Veja bem: Vamos fazer um rápido relato sobre o que está acontecendo na Bahia. Existe a Bahiamido, no município de Laje, investimento da Fundação Odebrecht, de R$ 55 milhões com o governo do Estado para a indústria de fécula. Tem a Copasub também, que foi um investimento inaugurado há pouco, um mês, dois meses, em Vitória da Conquista, do governo do Estado e da Fundação Banco do Brasil, com o investimento de R$ 11 milhões também na indústria de fécula. Até 2012, a perspectiva é a produção de 30 mil toneladas de fécula no ano. E a perspectiva até 2015 é de 50 mil toneladas. Juntos, os dois [Bahiamido e Copasub] vão ter capacidade de produção, até 2012, de 30 mil toneladas e até 2015, 50 mil toneladas. Isso porque não tem projeto nem nada ainda que se diga: ‘Ah, vamos utilizar fécula’. Porque, obviamente, quando aumentar a demanda eles vão se mobilizar para atender a oferta. A mandioca está nos 417 municípios da Bahia. O trigo é de fora, a mandioca é nossa, baiana, brasileira. Por isso que tem essa discussão lá em Brasília também.
BN - Na Câmara Federal?
MN - Na Câmara Federal, ou seja, está em voga isso aqui não só na Bahia, como também no Brasil. Como também é uma das coisas que as panificadoras dizem: “Ah, mas não está em evidência, não se discute”. Não é por aí. Está sendo discutido lá, por diversas outras comissões, não só essa especial. Se eu não me engano a deputada foi Elcione Barbalho (PMDB-PA). Agora, um detalhe grave que não foi falado na imprensa: No dia da sessão especial que nós fizemos, eu apresentei um documento do laboratório da Universidade Federal [da Bahia] que demonstra hoje o uso da fécula por alguma empresa que eu não tenho o nome aqui de cabeça. Fazendo contraponto aqui a [Mário] Pithon, o presidente [do Sindicato dos Panificadores da Bahia], ele disse no Bahia Notícias que os comerciantes não foram ouvidos. Foram ouvidos sim, na sessão especial. E dizendo que a gente tava querendo colocar uma coisa nova no pãozinho. Outra inverdade, porque, inclusive, eu até tenho gravado isso para quem quiser ver lá na TV Assembleia. Um comerciante subiu à tribuna e assumiu que hoje já usam fécula de mandioca. Então, quer dizer, a grande questão é a seguinte: se usam, por que não divulgam? E, se divulgam, por que não diminui o preço?
BN - Qual o interesse que você acredita que teria esse setor em importar esse material? De onde vem o trigo?
MN - Vem do Canadá, Estados Unidos e Argentina. Olha, essa é a minha pergunta. Na verdade, meu projeto é para fazer essa pergunta. Se a gente tem um material aqui, uma matéria prima, a mandioca. E sendo muito mais barato. Além do que com a fécula da mandioca, o [pãozinho do] projeto fica mais nutritivo, porque não tem glúten e é um diluidor do glúten.
BN - E o sabor, tem alguma diferença?
MN - Não muda nada, zero.
BN - Por que resistir à implantação, se não altera a qualidade do produto e ainda interfere no preço para baixo?
MN - São esses questionamentos que eu faço. O meu objetivo é esse e, obviamente, beneficiar o pequeno agricultor, que hoje ainda vive nessas condições de subsistência.
BN - No parlamento, como está esse entendimento? Você tem conseguido convencer os outros deputados?
MN - Olha, Marcelo Nilo [PDT, presidente da Assembleia] falou que ia colocar até dezembro [projeto em votação]. Eu quero poder esgotar ao máximo o debate para que depois, futuramente, nenhum setor diga: “Ah, não. Foi aprovado a toque de caixa, foi aprovado sem ouvir”. Então, eu preferia, por exemplo, que nós tivéssemos ainda algumas audiências, com os deputados, para poder convencê-los. Para eles irem ao plenário e votarem conscientes de que estão fazendo o melhor. Então, talvez eu vá até falar com o presidente [Marcelo Nilo] para ver se não é melhor a gente votar no próximo ano, depois do recesso, para a gente poder discutir um pouco mais. O CCJ foi unânime, todos votaram favorável. Ninguém que é contra se manifestou comigo em nenhum momento.
BN - Vamos mudar um pouco o foco. Você é filho do ministro das Cidades, Mário Negromonte (PP). Ele diz estar sofrendo uma “campanha” contra seu nome na imprensa. Você, como integrante do PP e filho dele, como vê isso? Acredita que Mário vai cair mesmo no Ministério das Cidades?
MN - Há muito tempo, vocês estão acompanhando a imprensa, têm algumas coisas que se colocam, através de jornais, de revistas, que não têm tanta ressonância, inclusive na mídia nacional. Outras têm, mas o objetivo é sempre um: tentar derrubá-lo. Inicialmente houve a questão do partido, mas não foi o partido como um todo.
BN - O setor de Francisco Dornelles...
MN - Não, não era nem o Dornelles. Tinha um... Eu não gosto de citar nomes, mas eu vou dizer o seguinte: tinha meia dúzia de deputados que, vocês acompanharam o processo, fizeram uma votação de líder, de noite, em uma quinta-feira, quando o Congresso já começa a voltar para suas bases, e a partir daí começou todo esse processo. Depois daí, esse grupo enfraqueceu e aí, pelo enfraquecimento, é que começaram as notícias e as ameaças e tudo mais. Eu vi, naquele momento, a gente fica triste, porque foi no meu partido e a gente teria que estar falando de outras coisas, de outros projetos para a sociedade, e tudo mais, e ajudar o ministro a fazer projetos que viessem a atender o Brasil todo. Mas algumas pessoas escolhem pelo interesse pessoal e outros interesses que acabam atrapalhando o interesse maior da bancada. Mas o que é importante dizer agora é o seguinte: vocês percebem que tem questão até de pessoas, de questões políticas envolvidas, até regionais, de Paulo Afonso.
BN - Algo de Paulo Rangel (PT, deputado estadual)?
MN - É, que chegam à mídia nacional...
BN- Festa do bode...
MN - Exatamente. Não teve nem a nossa autorização, nem nada, o prefeito botou lá para valorizar. É aquela coisa que o ministro falou: “Eu nem fui à festa. A festa que tem 11 anos”...
BN - Seu nome estava lá e o do ministro também.
MN - Eu nem fui lá e nem o ministro foi. Então, quer dizer, uma festa de 11 anos, uma coisa pequena, uma coisa que vai valorizar a caprinocultura lá. Todo mundo sabe que Paulo Afonso e região vivem disso aí. O ministro falou em “baboseira”, mas eu acho que é uma coisa pequena. Agora, vai acontecer o seguinte: Tem aquelas pessoas que fazem a política do bem e tem aquelas pessoas que fazem a outra política, quer ver a pessoa se desgastar, quer ver as pessoas com a dignidade afetada. A gente está muito tranquilo. Ele [ministro Mário Negromonte] não tem apego a cargo. Ele me disse uma frase, uma vez, quando eu assumi, que era assim: “Quanto maior o posto, maior deve ser a humildade e a responsabilidade”. Do dia que eu tomei a posse, levo isso comigo até hoje. Agora, tem outros partidos que querem o Ministério das Cidades. Entende? Então, é um jogo. A gente entende o jogo. É um jogo bruto, duro e às vezes sujo, mas a gente compreende. Mas eu acredito que o ministro tem feito uma boa gestão. Agora teve essa questão de parecer, que vocês até divulgaram.
BN - Luiza Vianna [diretora de Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades]...
MN - Ela é diretora. Eu falo abertamente, não tenho problema. Eu sou deputado e o ministério é diferente, é uma pasta do governo federal. Eu sou deputado. Eu não posso dar maiores detalhes, mas o que eu posso dizer é o seguinte: eu liguei para Cássio Peixoto, chefe de Gabinete e falei com o ministro mais cedo. Existe o Gecopa [Grupo Executivo da Copa do Mundo FIFA 2014] e o Gepac [Grupo Executivo do PAC]. Os dois são colegiados. E o Ministério das Cidades faz parte. O Gecopa é o ministério do Planejamento, Ministério das Cidades e o Ministério dos Esportes. Esse colegiado decidiu que seria VLT. Houve o parecer técnico. O Gecopa mandou para o Ministério das Cidades essa decisão e o Ministério seguiu essa decisão do parece do Gecopa. Agora, se um outro técnico profere um parecer diferente, um impedimento pessoal contra o Gecopa, aí é outra coisa. Se ele divulga isso, grava isso numa reunião e depois divulga isso, depois de resolvido no Gecopa, aí é uma coisa do Ministério resolver, dentro. Parece que é um técnico de carreira. Então, é uma questão administrativa para se resolver. Agora, obviamente que as pessoas vão politizar qualquer coisa. E eu não sei se a intenção dele foi essa, eu posso dizer. O governador [Sinval da Cunha Barbosa (PMDB)] falou e solicitou que fosse modificado de BRT para VLT. O Gecopa e o Gepac decidiram que ia ser VLT. O ministro vai fazer o quê? Pelo que eu entendi, foi isso.
BN - Você é um parlamentar jovem, talvez o mais jovem da Assembleia...
MN - Segundo mais jovem. Adolfo é mais jovem. Eu tenho 31, ele deve ter 30.
BN - Há uma certa resistência na Assembleia por isso?
MN - Muito pelo contrário. Eu acho que o jovem está com tudo agora. Jovem e mulher. Acho que a sociedade quer renovação, quer poder oxigenado, quer manter os bons, experientes, mas também quer renovar. Eu, pela minha votação, eu fui o deputado mais votado do Brasil no Partido Progressista e o segundo deputado da Bahia. Isso é uma demonstração de que a sociedade confia no jovem. No começo há uma certa dúvida.
BN - Foi influência de seu pai?
MN - Não. Eu fui líder estudantil, fui presidente de grêmio, comecei no colégio, fui presidente da Juventude de Paulo Afonso [do PP}, depois fui estadual e agora nacional.
BN - Alguma chance de concorrer ano que vem para a prefeitura de Paulo Afonso?
MN - Eu não descartaria nenhuma candidatura futura, estou focando minha energia e minhas ações em meu mandato de deputado estadual. O pessoal está comentando muito, mas eu não. Como eu tenho uma pauta estadual e a gente ajuda muito na construção do partido, e agora o ministro lá, presidente do partido, lá no ministério, a gente fica muito atrelado a essa questão do desenvolvimento do partido. Apesar de jovem, eu gosto de articulação política, de contribuir com pesquisa, com estudo, aprofundar tudo isso. Minha cidade, Paulo Afonso, eu nasci lá, convivi muito e ainda vivo lá. É uma honra, primeiro, estar muito bem nas pesquisas. Meu nome está sendo falado...
BN - Existem pesquisas lá?
MN - A oposição que diz, inclusive, que a gente está muito bem.
BN - A atual prefeitura está agora com o PDT [prefeito Anilton Bastos]. Vocês estão fechados com o governo de lá?
MN - Não, nós somos oposição.
BN - Então, você diz o quê? Está descartado 100% que você vai disputar? Qual a porcentagem que você dá?
MN - Eu diria assim, a gente está analisando o cenário, vai conversar com a sociedade, mas é isso, a gente trata muito da questão da agenda estadual. Mas vamos pensar, não está totalmente descartada.
BN - Mário Negromonte interfere até quanto aqui no seu mandato?
MN - Ele é meu mentor, minha inspiração, mas ele tem uma agenda hoje muito cheia. Se eu falo muito com ele, eu falo, de segunda a quinta, duas vezes na semana. Obviamente que eu sigo a linha dele, como eu falei aqui, de princípios e tudo mais, mas eu tenho um estilo de fazer política, ele tem outro estilo. Eu tenho uma forma de agir, de atuar, eu tenho bandeiras, como da agricultura, de juventude, da educação e de outras coisas. Eu debato depois, coloco a ele minha posição e ele respeita minha posição e a gente vai dialogando, mas ele não tem tanta ingerência da minha decisão final.
BN - Em relação ao ministro, como integrante do PP. Se confirmar o que a imprensa nacional tem dito, que o ministro cai no máximo até a reforma ministerial programada para o início do ano. Como é que fica o futuro do PP na Bahia em seu entendimento?
MN - Sinceramente, eu acho que não cai.
BN - Na reforma ministerial agora do final do ano?
MN - Eu acho que ele não cai. Ele pode até chegar a cair, mas eu acho que não cai porque aquele momento do partido já foi superado. Hoje, os 27 diretores estão apoiando, inclusive o presidente [do PP, Francisco] Dornelles falou isso para Ideli Salvaltti, ministra das Relações Institucionais. A decisão de ele ficar ou não cabe à presidenta. Se, na hipótese dele não ficar, é aquilo que eu disse, nós não temos apego a cargo nenhum. Nós vamos continuar nosso trabalho apoiando a presidenta Dilma, apoiando o governador Jaques Wagner e procurando espaço dentro da Bahia para poder crescer o partido. A reforma nunca foi discutida. Eu ando muito em Brasília, ninguém nunca falava em reforma. Isso foi criado nos meios de comunicação, mas foi criado por quê? Porque alguns ministros vão sair candidatos.
BN - Uma última pergunta sobre a brincadeira de Marcelino Galo [PT] em relação ao projeto da colega Luiza Maia [PT]. Você vai votar no Projeto de Lei Antibaixaria, se ela votar no do Cacetinho?
MN - Foi bom você falar nisso. Eu já faleo com ela. Eu não vou pautar, dizer minha decisão, por barganha de nada. Não vou mesmo. Uma decisão é um convencimento. Eu tenho certeza que ela, como deputada, vai fazer a mesma coisa. Pode ter uma brincadeira aqui e ali, mas na hora do voto, a gente incorpora o deputado, o representante do povo. Não. Eu não vou fazer isso e eu tenho certeza que ela também não vai.
