Sexta, 23 de Outubro de 2020 - 16:30

Parque de Exposições, coragem ou equívoco de Rui?

Parque de Exposições, coragem ou equívoco de Rui?
Foto: Divulgação

Vender o Parque de Exposições pode parecer um ato de coragem do governador Rui Costa. Afinal, não faria sentido o Estado continuar sendo proprietário de uma área de mais de 300 mil metros quadrados, estrategicamente localizada em Salvador, mas que há décadas vem sendo utilizada por três associações de criadores de cavalos e bois. São entidades de caráter privado que, embora não tenham fins lucrativos, servem a empresários e fazendeiros. Com certeza não é o melhor uso para um patrimônio público tão valioso.

 

A área do Parque de Exposições é igualmente cobiçada pela especulação imobiliária, opção ainda pior.

 

Mas também não faz sentido o Estado abrir mão de uma das poucas áreas públicas que poderia ser utilizada para uma função urbanística ligada às principais vocações econômicas da cidade como o turismo, a cultura, a música e a economia criativa.

 

Isso, inclusive, deveria estar sendo debatido na presente campanha eleitoral municipal, tão sem ideias e propostas, em que um candidato se refere ao passado recente e os outros afirmam que vão “cuidar das pessoas”, como se isso fosse possível sem planejamento, sem atividade econômica e sem empregos.

 

Uma das minhas grandes frustrações como secretário de Turismo da Bahia a partir de 2007, foi não ter conseguido convencer o então governador Jaques Wagner a implantar no Parque de Exposições da Bahia, a Cidade da Música. Aliás não era bem convencer o governador, que talvez estivesse até convencido. Mas, sim, de mobilizar a sociedade para vencer as resistências dos fazendeiros urbanos que por décadas dispuseram da maior área pública do Governo do Estado na cidade de Salvador como espaço comercial para seus negócios de pecuária.

 

Subestimei a força política do atraso, em parte instalada no próprio governo capitaneado pelo PT. Considerei que bastaria a própria lógica da ocupação do espaço para convencer Wagner a tomar a decisão. Essa lógica consistia no fato de que dos 32 eventos realizados anualmente no Parque, 29 eram de música. A vocação da área para a música era tão grande que a própria Rede Globo na realização de seus eventos apresentava o espaço como Cidade da Música.

 

À época (2009/2010) o “cluster” da música baiana estava capitalizado com o grande sucesso do Axé e buscava alternativas de áreas para uma grande arena musical.

 

Sugeri, então, que fossem além da ideia de uma grande arena e propus outras funções que foram incorporadas a um belo sonho arquitetônico elaborado por Renato Bittencourt e Giusepi Mazzoni. O anteprojeto previa, por exemplo, um estacionamento subterrâneo para 8 mil carros, um teleférico até o Parque das Dunas , um hotel, um edifício destinado a áreas técnicas e de formação profissional, estúdios de gravação e laboratórios musicais, artes cênicas, bem como lojas, escritórios e áreas de coworking.

 

O sonho arquitetônico e musical nada tinha, no entanto, de idílico ou utópico. Seria um dos grandes centros de entretenimento da América Latina, com uma arena para 70.000 pessoas, tendas multiuso, concha acústica e espaços destinados a todas as linguagens musicais da Bahia: samba, forro, axé, jazz, rock, música clássica, música eletrônica, hip hop, funk, pagode.

 

Mas também não seria apenas um grande centro de entretenimento. A Cidade da Musica seria uma verdadeira usina geradora de energia e negócios musicais, culturais e turístico.

 

 Um grande arranjo produtivo para nossa mais forte vocação cultural, artística e econômica: a música. A música que se liga às  artes cênicas, ao áudio visual, à tecnologia.

 

EMPREGO E TURISMO 

A Cidade da Música não geraria menos que 2.000 empregos diretos nas áreas técnicas, de informática e softwares, na administração, no comercio, na fabricação de instrumentos musicais e na luteria. Além do estimulo e do emprego a técnicos de palcos, cenógrafos, eletricistas e figurinistas e engenheiros de som, vendedores especializados de instrumentos  musicais,divulgadores musicais. 

 

Para o turismo cumpriria dois papeis fundamentais:

1) a realização de grandes shows e eventos resolveria os efeitos do pior problema do turismo  numa cidade como a nossa que é a baixa-estação.

2) aumentaria em pelo menos um dia a permanência de turistas na Bahia.

 

Os turistas não só participariam dos eventos como visitariam e conheceriam os memoriais do axé, do samba da Bahia, do forró da Bahia, do rock baiano, do reggae enfim da música baiana uma das mais importantes do Brasil. O trade turístico sabe bem o que significa mais um dia de permanência dos turistas para hotéis, restaurantes, transportadores, aluguel de veículos e ocupação de guias.

 

Na área do turismo foi proposto ainda um segundo movimento: o Governo do Estado transferiria o Parque de Exposições para Feira de Santana o que dinamizaria ainda mais a vocação turística e a atividade agropecuária da Princesa do Sertão.

 

Feira e Salvador ganhariam muito com suas vocações potencializadas.

 

SOFT POWER CULTURAL

A música, como todos sabem, é o grande Soft Power da economia cultural na Bahia.

 

Em todo lugar do mundo a música se liga a quase todas as manifestações culturais e artísticas, como o cinema, a dança, o teatro a produção de games, às novelas e as séries de Tv.

 

Na Bahia, por sua vez, também se liga à capoeira, aos blocos de carnaval, aos grupos folclóricos, às atividades escolares. Não há uma cidade nesse Estado que não possua uma  filarmonica, uma banda de forró ou um grupo de pagode.

 

E a única estrutura pública da qual dispõe a música na Bahia é a Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Uma área de exclusiva exibição e relativamente pequena.

 

A música emprega milhares de pessoas. Professores, compositores, instrumentistas, cantores, arranjadores e luthiers. Além é claro dos correlatos profissionais, do palco com os cenógrafos, figurinistas, técnicos em iluminação e em som. E no setor empresarial, os produtores culturais, gravadoras, agentes, distribuidores, desenhistas publicitários. E atualmente as empresas e pessoas que operam o streaming, no spotify e nas redes digitais

 

Já em 1997 o primeiro ministro britânico, o trabalhista Tony Blair, declarou que o rock and roll havia gerado mais divisas para a Inglaterra do que as suas indústrias siderúrgicas.

 

Blair se referia aos Beatles,  Rolling Stones, Pink Floyd, Queen, Led Zeppelin, como nós poderíamos nos referir a Dorival Caymmi, Assis Valente, João Gilberto, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Gal Costa, Betânia, Luiz Caldas, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Armandinho, Baby Consuelo, Luiz Galvão, Margareth Menezes, como protagonistas da formação do capital cultural e turístico da Bahia.

 

E mais ainda, no Carnaval da Bahia, Claudia Leite, Carlinhos Brown,  os blocos de carnaval Olodum, Ilê Aiyê, Cortejo Afro, Araketu, Malê de Balé, Filhos de Ghandy, Alerta Geral, Amor e Paixão, Alvorada, Vem Sambar, Mulherada, Bell Marques e o Chiclete Com Banana.

 

Pode-se dizer que a Bahia possui patrimônio musical incomensurável. Um patrimônio formado ao longo de quase um século. Um patamar consolidado em quase todas as linguagens musicais.

 

A música clássica baiana, como nos ensina o compositor Paulo Costa Lima, desde a década de 60 com Ernest Widmer vem se afirmando no cenário nacional e internacional. E depois dos anos 70 com Lindemberg Cardoso, Jamary Oliveira, Milton Gomes, Rinaldo Rossi. Chegando aos dias de hoje com a Orquestra Sinfônica da Bahia e a Neojibá.

 

Vinicius de Moraes disse que “ o samba nasceu foi na Bahia”. Podemos dizer também que temos um samba baiano que vem desde Samba de Roda e da Chula de Cachoeira e Santo Amaro, como dizem os compositores Roberto Mendes e Jorge Portugal. E a partir daí com Dorival Caymmi e Assis Valente, chegando até aos anos mais recentes com Oscar da Penha (Batatinha), Riachão, Ederaldo Gentil, Edil Pacheco, Nelson Rufino, Raimundo Sodré, Valmir Lima, Roque Ferreira, Tião Motorista, Chocolate da Bahia, Paulinho Camafeu,Neguinho do Samba nas vozes de Mariene de Castro, Aloisio Meneses, Juliana Ribeiro, Claudia Cunha, Gal do Beco, Ana Mameto, Larissa Luz, Marcia Short, e outros. O poeta tinha razão.

 

E  não somos só samba e axé. O rock baiano já tem um lugar na cena musical brasileira desde Raul Seixas, Pitty, Waldir Serrão, Novos Baianos, Camisa de Vênus, Mil Milhas, Casca Dura e as mais recentes como Vivendo do Ócio. Uma centena de bandas no interior e na capital baiana. Festivais de rock ocorreram em Feira de Santana como Feira Noise, a Suíça Baiana em Conquista, e os Ruídos de Sertão em Poções e outros.

 

A Banda do Companheiro Mágico talvez tenha sido o marco fundador do que se pode chamar de Jazz da Bahia. Formada por Tony Costa, Tuzé de Abreu, Ari Dias, Zeca Freitas, Sérgio Santo e Guilherme Maia essa banda marcou os anos 70. Depois vieram Fred Dantas, Lula Nascimento, Aderbal Duarte com o sexteto do Beco e depois no início da década de 80 o grupo Garagem, depois o Jam  no MAM com Ivan  Huol e Ronnew Scott à frente. E ainda a espetacular formação da Rumpilezz do maestro Letieres que realizou a síntese perfeita dos ritmos jazzísticos e baianos, assegurando uma grande dignidade a percussão. O trompetista Joatan Nascimento é alagoano, mas, como músico, é o resultado de uma Bahia musical.

 

A Bahia musical, aliás, mistura ritmos, sons e melodias em fusões encantadoras como as realizadas pelas bandas Bahiana System, a mais famosa, a Attoxa, Afrocidade, o Quadro, a banda de Lídia Neri, a Bagum e outras.

 

E até no pagode temos expressões baianas como Harmonia do Samba, Psirico de Marcio Vitor, Fantasmão, Parangolé de Leo Santana que se associam ao arrocha de Thierri compositor baiano de grande sucesso no Brasil.

 

Por último, mas não menos importante, o forró da Bahia que se iniciou com Gordurinha, com o Trio Nordestino e com Lindu e Cobrinha em parceria com o compositor J. Luna. Continuou depois, com depois com o próprio Gilberto Gil, Carlos Pita, Adelmário Coelho, Zelito Miranda, Estakazero, Del Feliz, Virgílio, Gereba, Targino Gondim que embora pernambucano situa-se no universo musical baiano. Além das participações essenciais para o São João da Bahia, de Walter Queiroz (Fogaréu), Gal Costa, Moraes Moreira (Forró do ABC), Luiz Caldas e o próprio Bell Marques.

 

Esses são apenas alguns exemplos, tomados de minha fraca memória, do grande patrimônio musical da Bahia que apesar de sua grandeza, não contou com nenhuma iniciativa pública do porte do Sambódromo e da Cidade do Samba (galpões de fabricação),no Rio de Janeiro, o Centro Cultural de Parintins, no Amazonas, o Sambódromo de São Paulo e o centro Cais do Sertão em Recife. Essas estruturas são muito mais do que áreas de exibição de espetáculos, são centro de produção de cultura e negócios musicais em estados que não possuem a mesma riqueza musical da Bahia.

 

Passei às mãos do Governador Rui Costa ainda no início do seu governo, o anteprojeto da Cidade da Música no Parque de Exposições. Talvez fosse importante um pouco mais de reflexão por parte do Governador antes de se desfazer desse importante bem público.

 

*Domingos Leonelli é presidente do Instituto Pensar

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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