Quarta, 12 de Agosto de 2020 - 08:00

83 anos da UNE

por Ícaro Jorge

83 anos da UNE
Foto: Acervo pessoal

Inicio este artigo opinativo tratando de silêncios. Esta é uma palavra constantemente utilizada para garantia da disciplina, o bom senso ou até a submissão. Mas o silêncio, como afirma Michel Pechaux, nada mais é que uma ferramenta produtora de discurso, a ausência. O silêncio pode dizer muitas coisas, mas entender as ausências que nele existe é um grande caminho. Nestes 83 anos de União Nacional dos Estudantes (UNE), os silêncios de um massa de estudantes cansados de mordaças deixou de ser uma realidade. Como expresso nas próprias palavras de ordem “A UNE somos nós, nossa força e nossa voz.”

 

Em 1937, pós a inauguração do 1º Congresso Nacional dos Estudantes no Rio de Janeiro, surgia a UNE. Junto com a entidade, um ciclo de agendas a ser pautadas pela defesa da educação e dos estudantes. Desde o início da sua fundação, a UNE teve a tarefa de quebrar silêncios, no que tange a defesa dos estudantes, e pautar qual a educação os estudantes brasileiros defendia. Uma das pautas centrais foi a defesa da soberania brasileira com a campanha “Petróleo é nosso!”, evidenciando que a educação está diretamente ligada a democracia do nosso país.

 

Com a guinada antidemocrática, fruto do golpe militar, a entidade se manteve em pé, mesmo com sua sede incendiada em 1950 e empurrada para a ilegalidade pelo Ministro da Educação daquela época. Mas é sempre importante lembrar, que as ruas não precisam de estatuto/papel/assinatura para exercer o que é seu por direito, na realidade, o direito só é direito porque alguém(leia-se, alguéns) fez ele ser. Indignados com o amordaçar, o movimento estudantil através da UNE foi protagonista das grandes reviravoltas das décadas de 60 e 80, como afirma líderes de outros movimentos, como Lélia Gonzales, militante do MNU, no texto do livro “Lugar do Negro”. O movimento estudantil dava a linha para muitas das nossas lutas pela democracia, soberania, equidade racial e direitos humanos.

 

Na década de 90, a entidade se colocou as ruas junto ao Movimento Caras Pintadas, na luta pelo Fora Collor e pela defesa da democracia, buscando romper com o desgoverno apresentado na época. Várias lideranças surgiram deste processo, como o Paraibano Lindberg Farias, o baiano Nelson Pellegrino, entre outros que marcaram, e marcam, a história do nosso país. Nos anos 2000, as lutas continuaram e o início das pautas afirmativas e democráticas começam a surgir: a luta pelas ações afirmativas, interiorização das universidades, defesa de bolsas e políticas publicas de acesso e permanência, entre outras.

 

Pós 2002, com a eleição do primeiro Trabalhador, de família pobre e com o sobrenome Silva, o sentimento no Brasil mudou, os Movimentos Sociais ganharam vozes e a intervenção política pôde ser maior, gerando com isso, diversas políticas públicas. A luta da UNE se manteve na busca da garantia de direitos e defesa da educação, construindo amplo diálogo com o Governo, e pautando grandes reformas no nosso país. Filho de trabalhador agora tinha onde estudar, tinha livro para ir para a escola/universidade, tinha comida na mesa e se alimentava 3 vezes ao dia, tinha faculdade no nordeste e a ciência era valorizada, até ir para o exterior podia porque ela era SEM FRONTEIRA. Mais recente, com o Governo Dilma, a luta da UNE, unindo-se as pautas dos Movimentos Negro pautou a entrada da juventude negra na Universidade, defendeu as cotas raciais, ampliando a democracia e o acesso à educação.

 

Pós 2016, com o golpe da Presidenta eleita, Dilma, a realidade mudou. A União Nacional dos estudantes alocou a sua agenda com uma estratégia: negar a retirada de políticas públicas, lutar contra o silenciamento e continuar defendendo a educação. O rompimento democrático atingiu em cheio a educação pública, surgiu em conjunto uma agenda de retirada de direitos, como as ideias de privatização das universidades públicas, a criação de dificuldades para a permanência, o sucateamento de universidades, o desrespeito a autonomia universitária e a mais recente intervenção do Governo Bolsonaro, com o ensaio de intervenção nas políticas afirmativas. Neste 83 anos, a UNE assume mais uma vez a responsabilidade que deve ter pelo seu tamanho e pela sua história: a agenda de defesa da educação pública, defesa das ações afirmativas, defesa de um Plano de Inclusão Nacional de acesso à internet, defesa da permanência, e a mais importante de todas as agendas da União Nacional dos Estudantes, A DEFESA DA VIDA.

 

Não nos silenciaremos aos ataques, aos desmandos e a política de morte deste governo Bolsonaro. Nós nascemos pelo rompimento dos silêncios, e rompendo os mesmos, continuaremos. Viva a União Nacional dos Estudantes!

 

*Ícaro Jorge é baiano, diretor de Direitos Humanos da UNE, conselheiro universitário na Ufba, estudante de Direito e Bacharel Interdisciplinar em Humanidades, ambos pela Ufba

 

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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