Quarta, 19 de Fevereiro de 2020 - 18:00

Tempo de cada um

por Valdir Barbosa

Tempo de cada um
Foto: Reprodução/ Blog do Anderson

Pus-me, ao lado de Roberta, a correr de Salvador, da forma como tenho feito nos derradeiros anos, depois que passamos a residir no Campo Grande, afinal, um dos principais palcos da folia momesca soteropolitana, se situa bem em frente ao prédio onde moramos. 

 

O circuito Osmar inicia seu périplo, justo naquele ponto, destarte, todo o fogo que derrama energia capaz de conduzir os foliões em êxtase, dali, até a Praça Castro Alves expõe  suas primeiras  brasas incandescentes,  exatamente na nossa porta. 

 

Para os que vivem naquelas paragens, apenas duas opções: ou incorporar ao espírito carnavalesco, se deixando embalar pelos sons e agitos das ivetes, dos chicletes,  browns, blocos afro e outras tantas entidades que agitam e colorem a festa, agora durando quase uma semana, a começar na quinta feira, quando rei momo desfila, também no mesmo trajeto, para receber as chaves da cidade e colocá-la em polvorosa indo à quarta feira  de cinzas; ou capitular.

 

Impossível, estando em casa, aos pés da efervescência ler, escrever, dormir, entrar e sair, pois, tudo no período se torna refém da onda vibrante que consome e contagia.

 

Acordo cedo, um tanto contrariado, depois de tentativas por negociar a ida de João Gabriel conosco, como ocorria em tempos anteriores, ele, nosso garoto invadindo a casa dos vinte e hum anos, mas, perco a queda de braço. 

 

Sua insistência, em nos deixar ir sem sua companhia ocorre, muito menos pela efeméride em si, na verdade, inebriado por paixão avassaladora resiste por nos acompanhar. Sua atenção está agora, totalmente voltada ao amor primeiro, então, como disse Ghiaroni, "o vejo seguir pela neblina" ... dos hormônios... "porque a sina das mães" ... e pais ... "é  esta sina, amar, cuidar  criar e depois perder".

 

Embalado neste desconforto da perda, mera justificativa fundada na vaidade e egoísmo, próprios dos que imaginam serem filhos propriedade permanente de si mesmos chego ao aeroporto de Salvador e me deparo, no saguão principal do embarque, com a fobica que transformou a história do carnaval baiano, nesta explosão de sons ensurdecedores que brotam dos caminhões sofisticados atuais, com toda a estrutura  possível para abrigar bandas, artistas famosos e convidados espargindo no ar a eloquência de seus milhões de decibéis. 

 

Ao ver aquele carro onde tudo começou, memória atávica e lembranças de resenhas a mim contadas ativam em mim recordações  emocionantes.

 

No apagar das luzes de 1949, D. Walneide e Seu Gomes, enredados pelos laços de enorme bem querer deixam para trás tudo e todos que até ali compunham suas vidas, para viver uma vida a dois em terras estranhas. Começa trajetória que lhes faria um só, cúmplices em tudo, parceiros inseparáveis, até quando a morte levou o velho e a bordo dessa nave amorosa viemos nós, eu, bem como meus irmãos, nascidos nesta capital da Bahia.

 

Estas palavras, agora derramadas enquanto voamos numa velocidade espantosa, dez mil pés acima da terra, não  vão dizer dos êxitos que aquele casal empreendeu, dos sacrifícios que envidaram para prosperar e, principalmente, fazer deste seu filho e filhas, personagens realizados,  graças aos seus exemplos e ensinamentos.

 

Ao ver o carro enfeitado,  com seu autofalante antigo, que subiu no domingo do carnaval de 1950, a Ladeira da Montanha tendo Adolfo e Osmar por executar músicas, com seus paus elétricos viajei numa multidão  que se deixou arrastar em frenesi, por conta daquela invenção tresloucada.

 

Mais do que isto, mesmo sem ter nascido ainda, pois chegaria outra vez, neste plano, no ano 1952, pude ver dois jovens, ela no esplendor dos vinte anos, ele pouco mais de trinta, egressos que foram da terra do frevo integrando a plêiade de pessoas que se deixava levar pela mágica dos inventores deste novo carnaval baiano.

 

Tempos depois, assim como eles, bailei atrás dos trios: Tapajós, Fratelli Vita, Saborosa, mas, quarenta e quatro atrás, me tornei polícia, desde então, meus carnavais foram no exercício dos interesses da segurança pública, até quando foi preciso.

 

Nos primórdios da minha relação com Roberta, desviado de função, atuando no TCE, enquanto João pequeno chegamos a curtir, nas sacadas do Monte Pascoal, de meu amigo Lemos, o circuito Dodô, Barra/Ondina, posto, as características da farra, antes factível de ser enfrentada de frente sugeria nova postura; desfilar nos blocos de cordas; assistir em segurança, nos camarotes cada vez mais sofisticados e pontos como aquele onde estivemos algumas vezes.

 

Como dito, no alvorecer destes rabiscos, finalmente, nestas épocas recentes decidimos buscar outras opções: ano passado, por exemplo, navegamos num cruzeiro pelo Atlântico e Rio da Prata, nosso menino ali estava, ano vindouro, só Deus pode saber onde estaremos, rogamos ao Pai o privilégio de continuar com saúde para curtir, cada um no seu tempo e espaço boas emoções. 

 

Seu Gomes e Dona Walneide,  em 1950, fizeram sua historia de carnaval, depois deixamos nossa marca, agora é sua vez meu filho.

 

Que Deus lhe proteja.

 

* Valdir Gomes Barbosa é ex-delegado-chefe da Polícia Civil e assessor do Tribunal de Contas do Estado (TCE)

 

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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