O RETORNO DA 'HERANÇA MALDITA'
Samuel Celestino
A condescendência do governo Lula com a corrupção, que abalou seu período em diversos momentos, especialmente no primeiro mandato marcado pelos escândalos do “mensalão” e dos “aloprados”, dentre muitos, é fator determinante para o que acontece no governo Dilma: é o mesmo lamaçal com efeito retardado. A presidente paga o preço pela impunidade do passado e pela herança recebida do governo anterior. Lula indicou ministros vinculados a circunstâncias nebulosas, como Antônio Palocci, derrubado do seu ministério da Fazenda, e Alfredo Nascimento, presidente de honra do PR, comandado pelo mensaleiro Valdemar da Costa Neto, que seria cassado pela Câmara se não tivesse, à época, renunciado ao mandato.
O que está acontecer neste governo atado pelas adversidades é que, para superá-las, Dilma terá que dar demonstrações que o outro não deu, porque não via, não sabia, nem escutava os ruídos da indecência e da roubalheira espraiadas pelos quatro cantos. O caminho é a punição. Enquanto a corrupção for crime sem castigo, os trilhos serão os mesmos.
Ocorre agora exatamente o que o governo Lula lançou sobre a era FHC ao rotulá-la de “herança maldita”. Como no popularíssimo ditado, o feitiço está a virar sobre o feiticeiro. A tal “herança maldita” voltou enodoando o governo Dilma, que em seis meses despejou dois ministros, por supostas práticas de corrupção. Um caiu pela estranha competência de conhecer os caminhos do enriquecimento galopante. O segundo, Alfredo Nascimento, por dar sequência às práticas do governo anterior, superfaturando obras em todos os setores do MT, especialmente no Denit e na Valec.
O caso do MT, como se sabe, explodiu pela ação da própria presidente que, mesmo na ausência de Alfredo Nascimento cortou a cabeça de quatros diretores do ministério, depois de dizer que, para bancar as obras superfaturadas no esquema das empreiteiras, em troca de pagamento de propinas, “teria que dobrar a carga tributária do País.”
Aprisionada à coalizão aliada que, no governo dela, tem mais força do que o presidencialismo, Dilma ainda relutou para despejar Nascimento. Ele só saiu diante da última denúncia da imprensa sobre o enriquecimento em 76.800% do seu jovem filho, um arquiteto de 27 anos, que começou a enriquecer aos 21.
Às vezes, percebe-se que a presidente quer furar a grande bolha da corrupção que sufoca a República, com a punição da gatunagem; em outras parece temer a revolta dos aliados. A verdade é que a República petista está fatiada em feudos comandados pelos partidos amigos. O Ministério dos Transportes tem dono. É do PR e de Valdemar da Costa Neto. À presidente cabe aceitar a indicação ou exercer o direito do veto. O circo será o mesmo.
Enquanto esse sistema republicaníssimo não tiver fim, Brasília continuará a capital da República Corrupta do Brasil. Para isso, a presidente terá que se definir como passar para a história: se como uma gestora fiel ao passado, quase silenciosa, ou como uma presidente dona vontade própria. No caso de Palocci, Lula ainda apareceu tentando contornar a crise e salvar a cabeça do amigo. No caso de Nascimento os fatos se precipitaram em quatro dias. Ele não conseguiu intervir.
Sem desprezar os avanços obtidos no governo anterior, a “herança maldita” recebida por Dilma não se registra apenas na visibilidade da corrupção. O fato é que o governo não começou. O que conseguiu nesses seis meses foi tentar arrumar a casa e pagar os restos a pagar deixados por Lula; mudar o processo os gastos com obras, tornando-os sigilosos e pouca coisa mais. Espera-se que a nova forma não leve ao superfaturamento das obras. O PAC, do qual é ou era mãe é tocado a passos de tartaruga.
A economia brasileira passou a estar na berlinda, depois de enaltecida aos quatro cantos do mundo. Dilma recebeu o governo com a inflação despontando celeremente. As exportações brasileiras sofrem com o ataque do dólar ao real. O real se aprecia, numa valorização que só faz bem ao turismo de consumo. O exemplo de uma economia que se recuperava após a crise mundial de 2008 está, agora, sob suspeição. Necessita de reformas. Começaram a surgir vozes divergentes alertando sobre possíveis estouros de bolhas que levariam a uma desaceleração no País. No final da semana, o analista Neil Shering, economista sênior para mercados emergentes da conceituada consultoria britânica Capital Economics, disse que “As pessoas estão subestimando os problemas da economia. Fundamentalmente, o ritmo e a natureza do crescimento brasileiro não são sustentáveis”, afirmou à BBC Brasil.
Diz mais: “Dentre os pontos de vulnerabilidade da economia brasileira apontados por analistas em relatórios recentes estão questões como a expansão do crédito com juros altos, a sobrevalorização do real, os riscos de inflação, o alto preço das commodities e a valorização excessiva no mercado imobiliário nas grandes cidades brasileiras.”
Os juros aumentam, as famílias brasileiras estão endividadas e pode haver um grave estouro da bolha do crédito. Enfim, tomara que não. Mas é fato que o País voltou, na semana que passou, a ser preocupação do FMI. Cumpre a Dilma descascar mais este abacaxi, fazendo a economia retornar aos trilhos. É outra conseqüência do retorno da “herança maldita”.