RECOMEÇO PARA DILMA
Samuel Celestino
Mesmo deixando-se dominar pela emoção, o que transferiu o desnecessário clima de choro e vela aos atos de saída e posse dos chefes da Casa Civil, a presidente Dilma Rousseff apenas afastou um problema, e grave, que levou o desgaste público do seu governo. Na sexta-feira, ela concluiu a cirurgia afastando o ministro de articulação, que não demonstrou aptidão, colocando em seu lugar a difícil Ideli Salvatti. Na verdade, Ideli trocou o seu cargo de ministra da pesca com Luiz Sérgio, que agora terá que tomar conta dos anzóis republicanos. O cargo é inexpressivo.
Dilma tem pela frente o desafio de recomeçar tudo para recuperar suas perdas na enxurrada do escândalo, bem ao estilo PT de governar. Mas não é só o PT o causador das agruras, porque o partido não pode carregar, sozinho, a carga gerada pelo marajá Palocci.
O PT apenas acentuou, ao chegar ao poder, a marca indelével da corrupção que acompanha a trajetória deste País, situação que se vem agravando na neodemocracia pós-ditadura. Antes, não era bem assim. Durante o período militar restou uma grande nebulosa na medida em que o regime fechado impedia a existência de uma imprensa livre e democrática, capaz de denunciar as mazelas e a gatunagem oficiais.
Antes do golpe de 1964 havia corrupção, mas em escala menor. Isso em termos relativos porque, de igual modo, a economia brasileira era também muitíssimo menor e o capitalismo verde-amarelo apenas engatinhava. Vivia-se num mundo marcado pela dicotomia Leste-Oeste, numa guerra ideológica marcada pelas economias centralizadas do leste europeu, comandada pela União Soviética que projetava sonhos de mudanças e igualdade (falsos) para diversos países do mundo Ocidental, acentuadamente ao hemisfério sul do planeta onde estavam - e infelizmente ainda estão - as nações terceiro-mundistas. Era a luta do capitalismo versus o comunismo.
Experimentava-se plenamente a guerra ideológica que invadia as universidades e arrebatava os jovens de todo o mundo, embalados pelo romantismo dos guerrilheiros da Sierra Maestra, que tinha no Che Guevara um dos seus símbolos. Irromperam-se ainda grandes movimentos transformadores nos anos 60, mudando idéias e forma de enxergar o mundo através da revolução nos costumes, basicamente com o advento da pílula anticoncepcional que libertou a mulher; na música que arrebentou paradigmas; na contracultura; nas grandes passeatas, enfim estávamos diante de um mundo novo.
Retornando ao início, a presidente Dilma Rousseff, com os acontecimentos da Casa Civil, terá que rever o que esquadrinhou para ser rumo do seu governo, a começar revendo a forma de se comunicar com a opinião pública e com a sua base aliada. A Folha de S.Paulo, em pesquisa que realizou para consumo interno, detectou que a maioria dos senadores e deputados do PMDB, principal partido aliado, “afirma que a presidente não é aberta ao diálogo e que isso teria causado uma piora na articulação do governo com aliados.”
O jornal, que denunciou o galopante enriquecimento de Antônio Palocci, segundo informou, ouviu, na última semana, 95 dos 98 congressistas do PMDB sobre a atual situação política. De acordo com a publicação, 55 deles disseram que “a interlocução do Executivo com o Congresso piorou em relação ao governo Lula; para 10, não mudou; e apenas 7 dizem que está melhor.Vinte e três peemedebistas não quiserem opinar.”
Diz mais que “a insatisfação do PMDB é um dos fatores da crise política que culminou com a demissão do ministro Antonio Palocci e obrigou Dilma a alterar a articulação política com o Congresso.” Agora tem pela frente o desafio de estabelecer uma nova ponte de diálogo com os congressistas. A senadora, Salvatti, que perdeu a eleição, semeou antipatias diante da forma agressiva de liderar a bancada petista no Senado. Rousseff precisaria, talvez, de um político suave, com fácil penetração na base governista e na oposição, enfim um articulador que possa pacificar ânimos e estabelecer pactos, encontrando saídas políticas para crises eventuais.
Na nova democracia brasileira quem está pontuando para derrubar o índice de corrupção no Brasil é a imprensa, principal e único veículo de denúncia. Encontra-se apoio no Ministério Público, mas dificuldades quase intransponíveis no Poder Judiciário. Este poder está a exigir uma reforma, porque além de estar sendo contaminado, não distribui a justiça exigida pela cidadania num estado democrático de direito. É lenta, os processos tramitam de forma irritantemente vagarosa e as sentenças chegam como se fossem partos feitos a fórceps. Lamenta-se.
De outro modo, foi a imprensa que detonou Fernando Collor, apeando-o do poder a partir do movimento cidadão dos caras-pintadas. Antes, comandou, à revelia da ditadura, já nos seus estertores, o movimento das Diretas Já, abrindo espaços para divulgá-lo.A partir de Collor houve uma sucessão de denúncias com o aprimoramento do jornalismo investigativo.
Para ficar apenas nos casos recentes, balançou o governo Lula como a corrupção que azeitava a Casa Civil; o transporte de dólares nas cuecas; as figuras que funcionavam à sombra e a serviço do poder; os mensaleiros do PT e seus esquemas corruptos (até agora sem julgamento); derrubou José Dirceu, empurrou Roberto Jefferson para a cassação; denunciou o mensalão de Brasília no esquema do governador banido José Roberto Arruda; dizimou mandatos; mandou Joaquim Roriz para as trevas onde provavelmente tenha a companhia da sua filha, a deputada Jaqueline; detonou inúmeros parlamentares envolvidos em corrupção; derrubou Palocci no caso de Francenildo; derrubou-o pela segunda vez com a história do enriquecimento; desmoralizou falsas reputações e esquemas; mandou governadores de estados para sarjeta. São muitos os casos denunciados. Paro por aqui. O espaço é exíguo para enumerar as realizações da imprensa em defesa de um Brasil mais ético e menos corrupto.