Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias
Você está em:
/
Notícia
/
Geral

Notícia

O MINISTRO BUDISTA-REPUBLICANO

Samuel Celestino

    O ministro Antônio Palocci tem a curiosa forma suave de falar e o tom  de voz que mais se assemelham ao gestual de um monge budista do que a de um pecador republicano. Em relação ao monge, suponho apenas a semelhança. Estranhamente, consegue demonstrar competência pública nas atividades que exerce, mas desaba quando as mistura com a sua vida mundana e as suas finanças pessoais que se multiplicam como coelhos.

    Seus erros são cumulativos. Na prefeitura do interior de São Paulo que geriu; na mansão alugada em Brasília para encontros eventuais, a chamada “República de Ribeirão Preto,” e, até, na absurda quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Agora, na Casa Civil, puxa os tremores sísmicos do novo escândalo do governo Dilma.

    Ele conseguiu o notável feito de multiplicar o seu patrimônio por 20, em apenas quatro anos. Mais: ainda conseguiu dar uma ajudazinha maior para enxovalhar o novo governo apontando, indiretamente (quem denunciou foi a imprensa, no rastro do seu procedimento), mais cinco ministros que controlam –fato não negado- empresas de consultoria.

    Já de forma direta, apontou, o que acabou vazando para a mídia, outros ministros, estes do passado, da era FHC, como praticantes do mesmo suposto desvio de comportamento. Erra em relação a alguns, acerta sobre outros, mas o que fica a valer é uma questão que desmonta definitivamente o lula-petismo, se é que a máscara ainda se equilibrava em rostos sujos.

    Ao comparar o atual lamaçal com o passado, Palocci dá um grito tipo “laissez-faire”, ou de uma espécie distorcida de “egalité e fraternité” (sem o “liberté”)  da Revolução Francesa ou, ainda se quiserem, com o sotaque bem apropriado ao do MEC de hoje,  proclamando: “agente todos  inútel”.

    O karma de Antonio Palocci é mesmo pesado e incomparável. No seu jeito budista de ser transmite a humildade do monge. Já seu outro lado obscuro que a imprensa projeta holofotes é republicaníssimo e sempre segue o mesmo roteiro. Assim como no escândalo envolvendo o caseiro Francenildo Costa, que o obrigou desembarcar do Ministério da Fazenda do governo Lula, ele começa negando tudo e, depois, tenta explicar. É o mesmo roteiro. Só que Palocci não consegue se sair bem, porque assim como no caso anterior como nesse, surgem nos caminhos das suas explicações embaraços que o fazem tropeçar.

    O que o leva às manchetes dos jornais e aos noticiários das redes nacionais de televisão não se trata de crime tipificado em lei, mas sim de comportamento que não condiz com a atividade de homem público se outro, naturalmente, fosse o país. Como entre uma atividade e outra não se exige quarentena, quem ocupa cargos importantes sempre utiliza conhecimentos adquiridos ou informações privilegiadas para transformá-las em dinheiro, muito dinheiro, daí as consultorias.

    O próprio Antônio Palocci reconhece que é mesmo assim, daí ter dito que certos cargos públicos “valorizam” os ocupantes e foi por aí que apontou os ex-ministros de FHC, errando em relação a muitos, como foram os casos de Pedro Malan e Armindo Fraga, ambos conceituados em atividades desenvolvidas nos Estados Unidos, portanto atividades que antecederam o exercício de postos ministeriais no Brasil.

    O que poderá vir a acontecer com Antônio Palocci? Supostamente nada, mas nunca se sabe. Como chefe da Casa Civil ele fica “valorizadíssimo” no mercado de consultorias feitas para grandes grupos econômicos e empresariais. A Casa Civil é o coração do governo por onde passam, praticamente, informações privilegiadas, especialíssimas.

    O problema do ministro é que o escândalo, se assim se pode chamar, explodiu domingo passado e não saiu do noticiário a partir daí, sempre adornado por um fato novo, sistematicamente contabilizado como prejuízo para ele. Desse modo, é possível que a situação de Palocci fique insustentável e ele tenha que deixar o cargo na medida em que a presidente Dilma Rousseff fica refém dos acontecimentos que envolvem o seu ministério que, aliás, começou antes da sua posse.

    Foi quando pipocou a notícia de que o ministro do Turismo, que não havia tomado posse, demonstrou a sua autoridade de macho nordestino do alto dos seus 80 anos e cobrou ressarcimento de notas fiscais à Câmara de Deputados de orgias realizada em motel com algumas “meninas” (no plural). Ele devolveu o dinheiro e não perdeu o cargo. Mais recentemente, houve o caso das diárias embolsadas por diversos ministros, inclusive um baianos, em viagens para as suas capitais em final de semana. Quem pagou o preço mais amargo foi a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, que trava uma queda-de-braço dentro da sua pasta, infestada de carrapatos-intelectuais.

    Presume-se que esta semana possa ser decisiva para o ministro-chefe da Casa Civil, na medida em que vazam informações sobre 20 clientes pesos-pesados da sua empresa de consultoria, cujo comando já havia passado adiante. Assim, ou tudo fica definitivamente esclarecido ou sepultado, ou as luzes continuarão sobre o monge, mais republicano do que budista; mais pecador do que dado às meditações transcendentais.