Entidades acionam MPE para investigar desempenho "atípico" de Nikolas Ferreira no Instagram
Por Redação
As organizações de direitos digitais Sleeping Giants Brasil, Artigo 19 e CTRL+Z protocolaram uma representação no Ministério Público Eleitoral (MPE) solicitando a investigação de um suposto favorecimento algorítmico nos perfis do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) no Instagram. A ação aponta para uma performance que extrapola o padrão de grandes perfis e questiona a amplificação de conteúdo político durante o período eleitoral.
O levantamento comparou dez vídeos no formato Reels de 30 perfis de alto alcance na plataforma, abrangendo deputados federais, influenciadores brasileiros e celebridades internacionais. Os dez conteúdos analisados de Nikolas Ferreira somaram 410,5 milhões de visualizações. O volume equivale a quase três vezes os 137,3 milhões de visualizações registrados, em conjunto, pelos 90 vídeos dos outros nove parlamentares da amostra, grupo que possuía 1,6 vezeses a base de seguidores do deputado mineiro.
Com cerca de 23 milhões de seguidores, o parlamentar registrou uma mediana de 38,25 milhões de visualizações por Reel. O indicador, calculado para reduzir a distorção de publicações isoladamente virais, superou as medianas de estrelas mundiais cujas bases de seguidores variam de 12 a 17 vezes a do deputado.
Selena Gomez: mediana de 34,45 milhões;
Kylie Jenner: mediana de 25,8 milhões;
Justin Bieber: mediana de 16,6 milhões;
Kim Kardashian: mediana de 13,9 milhões;
Beyoncé: mediana de 11,7 milhões;
No universo dos 30 perfis examinados, a mediana do parlamentar ficou atrás apenas dos jogadores Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. Além disso, todos os dez Reels analisados do deputado superaram a sua própria quantidade de seguidores. Entre os 300 vídeos da amostra total, apenas 23 conseguiram ultrapassar a base de seguidores da respectiva conta, sendo dez deles do próprio Nikolas. A taxa de visualizações por seguidor do deputado atingiu 166,3%. Esse índice representa 17,2 vezes a mediana dos deputados analisados, 29,3 vezes a dos maiores perfis do Brasil e 33,7 vezes a das maiores contas globais.
Paralelamente à representação no MPE, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que a Meta informe, no prazo de 48 horas, as medidas aplicadas ao perfil de Nikolas Ferreira desde 16 de agosto de 2026. Procurada para comentar o estudo e a ação no MPE, a Meta declarou que não vai comentar o caso.
O pedido enviado ao MPE solicita que a empresa seja requisitada a fornecer, também em 48 horas, o histórico detalhado de distribuição das publicações do deputado a partir de janeiro de 2026. A solicitação exige detalhamento de métricas por vídeo, fontes de tráfego, registros de promoção paga e esclarecimentos sobre eventuais intervenções humanas ou mecanismos extraordinários de recomendação.
Os autores do estudo ressaltam que visualizações públicas não equivalem diretamente ao número de pessoas únicas alcançadas, nem revelam isoladamente se a audiência decorreu de recomendação da rede. O levantamento não afirma conclusivamente que a Meta tenha atuado com dolo para favorecer o parlamentar.
Entre as explicações possíveis listadas no documento estão o engajamento orgânico diferenciado dos vídeos, a distribuição externa por compartilhamentos em outros canais, o uso de impulsionamento pago e o privilégio no sistema de recomendação do Instagram.
A representação indaga se o alcance é compatível com as regras eleitorais do TSE (Resolução nº 23.610/2019, atualizada pela Resolução nº 23.732/2024), lembrando que a Meta anunciou em 2024 que deixaria de recomendar conteúdo político a usuários que não seguissem os perfis criadores.
"Um dos princípios que regem o processo eleitoral é a paridade de armas. Se o Nikolas possuiu algum grau de privilégio, como isso pode ter afetado as eleições proporcionais em MG?", argumentou Humberto Ribeiro, diretor jurídico do Sleeping Giants Brasil. "Isso produziu algum desequilíbrio? Ele elegeu outros 13 deputados. E a gente tem indícios para que O MPE faça uma investigação para entendermos o que aconteceu", concluiu.
O processo segue sob análise do Ministério Público Eleitoral para avaliação de medidas judiciais e preservação dos dados técnicos da plataforma.
