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Exército Brasileiro defende reciprocidade e cita navio retido no Paraguai em debate sobre devolução do canhão 'El Cristiano'

Por Daniel Araújo

Exército Brasileiro defende reciprocidade e cita navio retido no Paraguai em debate sobre devolução do canhão 'El Cristiano'
Fotos: Reprodução

O recente acerto do governo brasileiro para devolver ao Paraguai o canhão "El Cristiano" reaqueceu o debate sobre a preservação do patrimônio histórico da Guerra do Paraguai (1864-1870). A decisão, alinhada em julho entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ministros e comandantes militares, atende a um pleito de mais de 15 anos da diplomacia paraguaia. No entanto há um contraponto documentado pelo próprio Exército Brasileiro, que impõe ressalvas à devolução do canhão 'El Cristiano'.

 

Um documento oficial emitido em 2010 pelo Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx) ao qual o Bahia Notícias teve acesso, expõe um parecer desfavorável da instituição militar quanto à devolução da peça de 12 toneladas. O "El Cristiano", forjado a partir de sinos de igrejas paraguaias, e atualmente guardado pelo Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

 

A BATALHA DO CURUPAITI

Pintura de Candido Lopez (1893)

 

O parecer do Exército recorda que o canhão foi utilizado diretamente contra a tropa aliada na Batalha de Curupaiti (22 de setembro de 1866). O embate representou uma das maiores derrotas para os aliados, resultando na morte de mais de 4.000 homens, em sua maioria brasileiros. Para o Exército, a manutenção do canhão e de outras peças capturadas serve para que "o esforço e sacrifícios desses homens não fossem esquecidos pelas futuras gerações".

 

A argumentação central do documento militar, contudo, reside no princípio da reciprocidade. Segundo o historiador que compartilhou o ofício e pediu reserva da fonte, "poucos sabem desse contraponto". O texto do DECEx ressalta que é prática comum em todo o mundo que museus e parques abriguem acervos de outros países. O próprio Paraguai, destaca o documento, mantém em exposição permanente patrimônio militar brasileiro.

 

O caso mais emblemático é o do Anhambahy (ou Anhambaí), um navio a vapor da Marinha do Brasil que foi capturado pelas tropas de Solano López durante a invasão do Mato Grosso, em 6 de janeiro de 1865. A embarcação encontra-se exposta até hoje no Parque Nacional Vapor Cué, localizado no Departamento de Cordilheira, a cerca de 98 km da capital Assunção.

 


Veleiro Anhambahy - Foto: Reprodução / Redes Sociais


Com o avanço das negociações pelo governo brasileiro para a entrega do 'El Cristiano', o documento militar de 2010 adiciona uma nova variável ao cenário. O parecer levanta a questão de que a devolução poderia vir acompanhada de um pedido para que o Paraguai também restitua o acervo brasileiro que abriga. Ainda não se sabe se essa sugestão de reciprocidade será incorporada ao acordo oficial ou se o canhão retornará sem outras exigências. O formato final dessa entrega e como essas diferentes visões serão equilibradas permanecem, por enquanto, em aberto

 

A reportagem entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores e com o Exército Brasileiro solicitando um posicionamento oficial sobre o documento e o andamento das negociações, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.