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Aliado de Flávio Bolsonaro chama jornalistas de "prostitutas" e diz que Miriam Leitão "não merece ser estuprada"

Por Edu Mota, de Brasília

Flávio Bolsonaro com Trump, Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro
Foto: Reprodução Rede X

Associações que representam jornalistas e veículos de imprensa divulgaram notas nesta quinta-feira (29) em repúdio às declarações dadas pelo influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, em especial ataques misóginos dirigidos a Miriam Leitão. Durante uma live no Youtube na noite da última terça (28), Figueiredo, que é conselheiro do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), afirmou que jornalistas seriam “putas pagas” com recursos públicos de publicidade estatal e “prostitutas de alma”.

 

Ao longo da transmissão, o influenciador, que atua nos Estados Unidos junto a Eduardo Bolsonaro para que Donald Trump aplique sanções a autoridades brasileiras, sugeriu que veículos e jornalistas dependeriam de verbas de publicidade estatal para existir. Ele citou nominalmente empresas de comunicação como Globo, Folha de S.Paulo e Poder360, e afirmou que, sem esse financiamento, profissionais estariam fora do mercado.

 

Em uma outra fala, Paulo Figueiredo elogiou declaração do ex-presidente Jair Bolsonaro, quando disse que a deputada Maria do Rosário (PT-RS) não merecia ser estuprada por ser feia. O influenciador bolsonarista adaptou a declaração à jornalista Míriam Leitão, ao chamá-la de “Míriam Leitoa”.

 

“Não fossem esse dinheiro do governo Lula, elas estariam desempregadas, elas estariam catando lixo na rua, ou se prostituindo, algumas talvez tenham até aparência para se prostituir, outras não, não vou citar aqui nomes, mas tenho dificuldade de imaginar se, por exemplo, a Miriam Leitoa, caso não tivesse uma teta pra mamar na Globo, tenho dúvidas se haveria demanda caso se prostituísse. É mais uma que não merece ser estuprada, como todas as outras não merecem, mas essas talvez um pouco mais. Eu tenho desprezo por essas pessoas”, disse. 

 

Em nota, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) disse repudiar os ataques proferidos por Paulo Figueiredo contra jornalistas e veículos de comunicação. A associação destaca que as ofensas ultrapassam os limites da liberdade de expressão e configuram grave incitação ao ódio e à intimidade de jornalistas.

 

“As ofensas, que incluem insultos e a banalização da violência sexual contra uma profissional da imprensa, ultrapassam os limites da liberdade de expressão e configuram grave incitação ao ódio e à intimidação de jornalistas. É inadmissível que profissionais da comunicação sejam alvo de discursos que buscam constrangê-los, desqualificá-los e estimular a violência em razão do exercício de sua atividade. Ataques dessa natureza representam uma afronta à liberdade de imprensa, à dignidade da pessoa humana e ao direito da sociedade de receber informação livre, plural e independente”, diz a nota.

 

A entidade também manifestou solidariedade à jornalista Miriam Leitão e aos demais profissionais atingidos e disse esperar que as autoridades competentes adotem medidas cabíveis para a apuração dos fatos e a responsabilização dos envolvidos. A Abert reafirmou ainda seu compromisso permanente com a defesa da liberdade de expressão, do livre exercício do jornalismo e da integridade de todos os profissionais da comunicação.

 

Outra entidade que se manifestou foi a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que igualmente repudiou as declarações de Paulo Figueiredo. Em nota, a Abraji destacou que há frases do influenciar que guardam alta similaridade com ofensas pelas quais Jair Bolsonaro foi condenado a pagar indenização por danos morais. 

 

“A escolha das falas indica que o objetivo da mensagem, além do ataque gratuito a jornalistas, é produzir engajamento e atenção”, afirma a entidade.

 

A Abraji também manifestou sua solidariedade com a jornalista Miriam Leitão e a todas as profissionais atingidas pelas declarações, e exigiu a responsabilização de Paulo Figueiredo nas instâncias cabíveis, considerando o uso de discurso de ódio e incitação à violência. 

 

“Aproveitamos o episódio para cobrar também o compromisso de toda a sociedade, e em especial daqueles que disputam mandatos públicos, com a proteção de jornalistas — sobretudo mulheres — contra ataques que buscam silenciar a cobertura crítica por meio da violência simbólica e da ameaça. Este não é um episódio isolado. Há anos, jornalistas mulheres são alvo de violência por seu trabalho na imprensa brasileira. Em junho, Figueiredo já havia atacado a jornalista Andréia Sadi, e a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) acionou a Procuradoria-Geral da República contra ele por declarações misóginas anteriores”, coloca a entidade em sua nota. 

 

“Repudiamos veementemente qualquer tentativa de normalizar a violência de gênero como instrumento de intimidação contra a imprensa, e, em especial, nossas colegas jornalistas. Ataques digitais como esses contribuem para a estigmatização e descredibilização do trabalho jornalístico e servem de impulso para formas de violência ainda mais graves que têm se multiplicado no último período”, concluiu a Abraji no texto divulgado na noite desta quarta.

 

Além das entidades, deputadas federais também reagiram em suas redes sociais às declarações. Para as deputadas Maria do Rosário (PT-RS) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ), o conteúdo divulgado por Figueiredo incentiva o ódio contra as mulheres e reforça a necessidade de aprovação do PL da Misoginia.