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Empresário baiano vive aventura na Ucrânia em meio à guerra após perder passaporte durante pesquisa sobre dinheiro digital

Por Daniel Araújo

Fotos: Acervo pessoal
Fotos: Acervo pessoal

O que começou como uma viagem de pesquisa sobre o uso de moedas digitais em um país em guerra acabou se transformando em uma verdadeira aventura para o empresário baiano Gustavo Kelsch Ramos, fundador da fintech Klipbit. Morando em Paris há mais de dez anos, ele desembarcou na Ucrânia em junho de 2026 para entender de perto como a população e o mercado financeiro têm utilizado criptomoedas durante o conflito. Mas, após perder o passaporte, precisou enfrentar uma longa e tensa jornada por três países até conseguir voltar ao Brasil.

 

A experiência acabou sendo muito mais do que uma viagem de negócios. Além de conhecer uma realidade marcada pela guerra, Gustavo precisou lidar com fronteiras, imigração, novos documentos e uma corrida contra o tempo para evitar problemas legais durante o retorno.

 

UMA VIAGEM DE PESQUISA
A motivação da viagem estava ligada ao trabalho desenvolvido pela Klipbit, plataforma criada por Gustavo que permite conectar a moeda digital USDC ao sistema de pagamentos PIX. O objetivo era observar como um país em guerra conseguiu adaptar seu sistema financeiro utilizando ativos digitais.

 

Segundo o empresário, a Ucrânia precisou flexibilizar as regras para o uso de criptomoedas diante das dificuldades enfrentadas pelos bancos durante o conflito. "Eu sabia, porque eu vim acompanhando as notícias, que o governo ucraniano, por conta do sistema bancário estar pressionado pela situação de guerra que eles estão vivendo, resolveu facilitar um pouco a adoção e tornou criptomoedas um método oficial, legal de realizar pagamentos e transferências", explicou.

 

A intenção era comparar essa realidade com outros mercados. "Eu queria ter essa experiência em campo, ver como é que está se estruturando lá para poder comparar com o Brasil, com a Europa, e ver se eu conseguiria tirar daí informações importantes para poder estruturar o meu negócio."

 

AS RUAS DE LVIV
Durante a viagem, Gustavo esteve em Lviv, cidade localizada no oeste da Ucrânia, próxima da fronteira com a Polônia. Lá, decidiu testar pessoalmente como funcionava a troca de criptomoedas por dinheiro local. Em vez de procurar empresas especializadas em tecnologia, entrou em uma casa de câmbio comum, como qualquer turista faria.

 

O processo chamou sua atenção pela simplicidade. "Eu simplesmente entrei na agência, perguntei qual é a taxa, se eles estavam aceitando USDT e tal, e consegui trocar 100 dólares pela moeda local, que é a Rivnia, com a taxa de 1,20%, que eu achei bem justa."

 

A experiência também revelou diferenças importantes entre os mercados. Gustavo percebeu que, embora sua empresa utilize principalmente a rede Solana para realizar transações, na Ucrânia a maior parte das operações acontece por meio da rede Tron. Isso o obrigou a converter seus recursos para conseguir sacar dinheiro, mostrando na prática a importância de integrar diferentes tecnologias em soluções financeiras.

 

O SUMIÇO DO PASSAPORTE
A viagem, porém, tomou um rumo inesperado quando Gustavo perdeu seu passaporte no banheiro de um restaurante em Lviv.  O problema era ainda maior porque seu visto no Espaço Schengen já havia expirado. Isso significava que ele não poderia simplesmente retornar pela Polônia ou por outro país da Europa Ocidental, sob risco de enfrentar punições migratórias.

 

Foi nesse momento que ele precisou redesenhar completamente sua volta ao Brasil. "Eu entrei na Ucrânia sabendo que eu não poderia voltar pela Polônia. Eu falei: 'bom, agora eu tenho que voltar pela Moldávia e da Moldávia ou pela Inglaterra ou pela Turquia. Só que eu estou sem passaporte'."

 

Sem muitas alternativas, embarcou em uma viagem de aproximadamente dez horas de trem até Kyiv, capital da Ucrânia, utilizando antigos vagões de estilo soviético. Na capital, conseguiu atendimento rápido na Embaixada do Brasil e teve um novo passaporte emitido em tempo recorde. Mas os desafios estavam longe de terminar.

 

MADRUGADA NA FRONTEIRA
Com o novo documento em mãos, Gustavo seguiu viagem até a fronteira com a Moldávia. A travessia aconteceu durante a madrugada, por volta das três horas da manhã, em um ônibus lotado.

 

O novo passaporte, emitido poucas horas antes e sem qualquer carimbo de entrada ou saída, despertou desconfiança das autoridades migratórias moldavas. "O pessoal do controle de fronteira da Moldávia falou: 'não, você não vai passar, cadê sua passagem? Você vai embora daqui quando? Você não pode ficar aqui não, você vai ter que ir embora hoje, senão você não entra'."

 

Sem outra opção e correndo o risco de ser impedido de entrar no país ou até mesmo devolvido para a Ucrânia, Gustavo precisou comprar, ali mesmo no posto de imigração, uma passagem aérea de emergência. Somente após apresentar o bilhete de saída conseguiu autorização para seguir viagem. Da capital moldava, Chisinau, embarcou para Istambul, na Turquia. Depois seguiu para o Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, até finalmente desembarcar em Salvador, encerrando uma viagem marcada por imprevistos e tensão.

 

COTIDIANO EM UMA ZONA DE GUERRA
Mesmo diante dos desafios pessoais, Gustavo afirma que o que mais o marcou foi observar como a população tenta manter a rotina apesar do conflito.

 

Durante sua permanência, chegou a ser abordado por militares ucranianos que verificavam a situação de recrutamento obrigatório de homens nas ruas, algo comum no país desde o início da guerra.

 

Ao mesmo tempo, viu cidades tentando preservar a normalidade. Em Lviv, por exemplo, participou de um festival de cerveja que reuniu milhares de pessoas. "A vida está retomando. Eles vivem um lugar afastado da zona de conflito, mas é legal de ver que eles estão sendo muito resilientes."

 

Para Gustavo, a viagem acabou reunindo dois aprendizados importantes. De um lado, mostrou como tecnologias financeiras podem se tornar essenciais quando bancos e fronteiras deixam de funcionar normalmente. Do outro, revelou de perto a capacidade de adaptação de um povo que continua vivendo, trabalhando e reconstruindo a rotina mesmo em meio aos impactos da guerra.