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PF intercepta mensagens que revelam suposta articulação entre chefe do CV e aliado de Flávio Bolsonaro

Por Redação

PF intercepta mensagens que revelam suposta articulação entre chefe do CV e aliado de Flávio Bolsonaro
Fotos: Reprodução / Agência Brasil / Redes Sociais

Relatórios da Polícia Federal (PF) revelam que Gabriel Dias de Oliveira, apontado como "Índio do Lixão", uma das lideranças da facção criminosa Comando Vermelho (CV), manteve interlocução frequente para tratar de encontros, troca de favores e cobrança de nomeações com o círculo de aliados do empresário Gutemberg Fonseca. 

 

Ex-secretário de Defesa do Consumidor do Rio de Janeiro, Fonseca foi indicado ao cargo em 2023 pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) e permaneceu no posto até abril de 2026, de onde saiu para se lançar pré-candidato à Câmara dos Deputados pelo PL. Esse caso foi revelado pelo portal Metrópoles. 

 

Gutemberg Fonseca e Flávio Bolsonaro lado a lado | Foto: Reprodução / Redes Sociais 

 

Segundo as investigações da Polícia Federal, as trocas de mensagens ocorreram entre maio e agosto de 2025. O intermediário das conversas com Índio do Lixão era Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o "Dudu", então assessor do ex-deputado TH Joias.

 

O primeiro registro de aproximação data de 13 de maio de 2025. Na ocasião, o suposto membro do CV, que ainda não possuía mandado de prisão ativo contra si, enviou uma mensagem a Dudu demonstrando insatisfação com sua ausência.

 

 "Cadê você? Assim eu vou ficar fraco. Tá geral aqui, Guto e todos. Cadê vocês?". De acordo com a PF, "Guto" é a forma como o grupo se referia a Gutemberg Fonseca, aliado do pré-candidato Flávio Bolsonaro.

 

No dia seguinte, Índio e Dudu conversaram por chamada telefônica durante 39 minutos. Logo após o término da ligação, o suspeito do CV orientou o assessor a perguntar a Gutemberg o que ele havia achado de sua "atitude" para resolver um problema de forma célere.

 

Em junho de 2025, o traficante enviou a Dudu um vídeo institucional da Secretaria de Defesa do Consumidor detalhando uma reunião oficial com o Procon e a concessionária de energia Enel. Junto ao vídeo, Índio escreveu: "Mérito que ganha quando eu resolvo algo. Aí, reunião Enel, Procon e Sedcon". O assessor Dudu respondeu em seguida afirmando ter enviado o registro para "Menezes", sugerindo que teria sido positivo levar o traficante à reunião.

 

NOMEAÇÕES NO RIO
As investigações da PF também detalham tentativas de nomeação de indicados pelo Comando Vermelho na estrutura do Procon estadual, autarquia subordinada à secretaria chefiada por Gutemberg Fonseca. O elo para essas movimentações seria Marcos José Menezes, ex-servidor municipal e do Procon, apontado pela PF como interlocutor frequente de Dudu.

 

Em julho de 2025, Índio do Lixão cobrou o andamento de um cargo: "Pergunta da nomeação. Se ele não for, eu vou em outro caminho já certo". Pouco depois, Dudu solicitou os dados de identificação civil do criminoso para agilizar o processo de nomeação.

 

Diante de supostas dificuldades de Menezes para concretizar o ato, Índio do Lixão sugeriu, em agosto de 2025, que o próprio secretário Gutemberg Fonseca intercedesse diretamente. Dias depois, o assessor Dudu chegou a enviar ao traficante o endereço da sede do Procon para uma reunião agendada por Menezes, que contaria com a presença do secretário.

 

A PF ressalta que, devido à falta de retorno telefônico de Menezes nos registros daquele dia, não foi possível confirmar se a reunião presencial de fato ocorreu.

 

SUBSECRETÁRIO ENVOLVIDO?
As investigações apontam ainda que o chefe do Comando Vermelho possuía linha direta com o advogado Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário de Esportes do Rio e ex-subsecretário de Defesa do Consumidor na gestão de Gutemberg Fonseca. Carracena foi preso em setembro de 2025 sob a acusação de receber vantagens financeiras para atender demandas de lideranças da facção criminosa.[

 

Mesmo exonerado do cargo público desde janeiro de 2025, Carracena continuava recebendo valores e mantendo contato com Índio do Lixão. Em maio de 2025, após a primeira reunião relatada pela PF, Índio enviou uma mensagem ao advogado afirmando que havia se reunido com Fonseca e oferecido apoio político. Segundo o relato do traficante, o secretário teria elogiado Carracena na conversa.

 

Posteriormente, em junho, o traficante enviou o mesmo vídeo da reunião institucional com a Enel para Carracena, afirmando que a posição de Fonseca estava forte. O advogado respondeu: "Muito é por causa de você". Índio do Lixão, contudo, desabafou.

 

Ainda sobre a falta de contrapartida do secretário: "Não vou mais incomodar ele não, doutor. Não posso ficar forçando ele a me ajudar se o coração dele não quer me ajudar [...]. Se ele quisesse, já teria feito. Ainda mais depois do que eu fiz". Conforme a Polícia Federal, Gutemberg Fonseca aparentemente não atendeu às expectativas do traficante após as tratativas.

 

Gutemberg Fonseca e Flávio Bolsonaro dialogando em mesa | Foto: Reprodução / Redes Sociais 

 

FONSECA RESPONDE
Procurado pela imprensa, Gutemberg Fonseca rebateu categoricamente qualquer ligação ou reunião com Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão. O ex-secretário argumentou que, na qualidade de homem público, conversa com diversas pessoas cotidianamente e destacou que, na época mencionada, o investigado não tinha mandados de prisão pendentes.

 

Ele declarou também não compreender por que seu nome foi citado nas conversas interceptadas. Sobre o relacionamento com Marcos José Menezes, Fonseca confirmou que mantém contato pessoal e profissional com o ex-servidor, que atuou como coordenador de sua campanha eleitoral em 2022 e desempenha a mesma função nas eleições deste ano.

 

O pré-candidato do PL reafirmou que sua trajetória pública sempre foi pautada pelo combate sistemático ao crime organizado e pela defesa das instituições de segurança pública.