Com 16 agentes baleados, cenário na Bahia reflete vitimização policial, diz pesquisador
Por Liz Barretto
Uma soldado da Polícia Militar atirou contra uma major dentro de uma unidade no Centro Administrativo da Bahia (CAB), em Salvador, na última segunda-feira (25). Durante a ocorrência, um tenente-coronel interveio e efetuou disparos para conter a atiradora. As duas policiais foram baleadas e socorridas para uma unidade de saúde.
A major, identificada como Caroline Ferreira Souza, foi atingida no rosto e no peito. Já a soldado Ana Beatriz de Jesus Alves Santos também ficou ferida após a ação de contenção. O caso teria sido motivado pela abertura de um inquérito disciplinar contra a soldado, relacionado a uma discussão ocorrida durante o Carnaval. A defesa afirma que ela vinha relatando perseguição no ambiente de trabalho.
O episódio, ocorrido dentro de uma unidade policial, chama atenção não apenas pela gravidade, mas por expor tensões internas na corporação. Com este caso, sobe para 16 o número de agentes de segurança baleados em Salvador e na Região Metropolitana em 2026, segundo levantamento do Instituto Fogo Cruzado. Desses, 14 são policiais militares.
Os registros envolvem diferentes contextos, desde operações até situações fora de serviço e conflitos pessoais. Esse conjunto de ocorrências está relacionado a um fenômeno conhecido como vitimização policial, que engloba danos físicos, psicológicos e morais sofridos por agentes de segurança no exercício da função ou em decorrência dela.
Além da exposição constante à violência, estudiosos apontam que fatores internos, como pressão hierárquica, má remuneração e sobrecarga de trabalho também contribuem para o adoecimento desses profissionais.
Na Bahia, o poder público já reconhece o problema. O dia 9 de junho foi instituído como o Dia de Conscientização, Combate à Intolerância e à Vitimização Policial. Em nível nacional, tramita na Câmara dos Deputados um projeto que prevê a criação de um banco de dados sobre o tema. Além disso, membros do Ministério Público de diferentes estados elaboraram um protocolo para investigar casos de letalidade e vitimização policial.
Para o pesquisador Cleiton Lima, pesquisador do Instituto de Ensino e Pesquisa da Polícia Militar da Bahia (IEP-PMBA), o cenário reflete uma pressão crescente sobre os agentes de segurança pública, amplificada pelo crescimento da criminalidade.
“A sociedade brasileira hoje é mais punitivista e transfere às forças de segurança a responsabilidade direta por essa resposta. Por serem responsáveis pela ação ostensiva, os policiais militares acabam na linha de frente dessa cobrança, o que amplia o nível de estresse e risco”, avalia.
O pesquisador também destaca a necessidade de mudanças na atuação policial, com maior investimento em inteligência e planejamento, como forma de reduzir confrontos e preservar vidas — tanto de civis quanto de agentes.
Com relação a proteção de seus profissionais, a Secretaria de Segurança Pública informou em nota que investiu cerca de R$ 1,2 bilhão de reais em equipamentos de proteção, como viaturas semiblindadas, armamentos e coletes balísticos, além de cursos que qualificam o combate ao crime organizado e atendimento da população.
Procurada, a Polícia Militar não respondeu até a última atualização desta reportagem sobre medidas voltadas à proteção da saúde física e mental dos seus profissionais.
