Historiador explica razão para ausência de manifestações políticas no Dia de Iemanjá e associa a “desinteresse da elite”
Por Leonardo Almeida
O caráter predominantemente vinculado ao Candomblé e o histórico desinteresse das elites soteropolitanas explicam por que o Dia de Iemanjá, celebrado no bairro do Rio Vermelho, ainda resiste às intensas manifestações político-partidárias que marcam outras datas do calendário baiano. Diferente da Lavagem do Bonfim (15 de janeiro) ou da Independência do Brasil na Bahia (2 de Julho), o 2 de fevereiro preserva uma essência religiosa que o distancia das articulações de palanque. Em entrevista ao podcast Projeto Prisma, do Bahia Notícias, nesta segunda-feira (2), o historiador Marcos Rezende detalhou que essa ausência política tem raízes na origem da festa, que nasceu como um culto de base e demorou a ser "abraçado" pelas classes dominantes de Salvador.
Para Rezende, a Lavagem do Bonfim possui uma simbiose natural com a política devido à sua forte ligação com a Igreja Católica, instituição que historicamente caminha lado a lado com as instâncias de poder. Em contrapartida, o Dia de Iemanjá é descrito como a única grande festa popular de Salvador com características intrínsecas ao Candomblé, o que limitou a interferência externa por décadas.
“Quando a gente pensa na Lavagem do Bonfim, é uma festa que tinha uma característica das pessoas do Candomblé, então é o casal perfeito. De repente, como é uma perspectiva mais católica, e tem aquela coisa na igreja e desde todo sempre a igreja e a política caminham de mãos dadas. Eu acho que como ela [Dia de Iemanjá] é a única festa que tem uma característica de Candomblé, sua ‘contaminação’ foi menor. Primeiro porque há 100 anos o pessoal estava cuidando da festa católica, não tava cuidando dessa festa. Os pescadores da Colônia do Rio Vermelho até inicialmente botaram essa data, que é o dia de Nossa Senhora das Candeias, como uma data que eles iam para a igreja e depois iam colocar os presentes”, disse o historiador.
Outro fator determinante apontado pelo historiador foi o preconceito da elite baiana, que durante muito tempo classificou os festejos de Iemanjá como uma manifestação menor ou de pouca relevância social. Esse desinteresse inicial permitiu que a festa se desenvolvesse sem a carga de "abertura de calendário político" que define o Bonfim ou o tom cívico de libertação do 2 de Julho. Contudo, Marcos Rezende observou que esse isolamento está diminuindo; atualmente, já existe um movimento crescente de políticos que alugam casas no Rio Vermelho para promover feijoadas e encontros, sinalizando que a participação política começa a cercar a celebração da Rainha do Mar.
“A elite baiana começou a dizer que era uma coisa menor, menos importante. Acho que por isso, acabou ganhando essas características de não ter uma participação muito grande dos políticos, que estavam preocupados com coisas ‘maiores’ naquela época. Em que pese hoje, uma série de festas já está acontecendo, com alguns políticos locando algumas casas no Rio Vermelho par fazer feijoada e encontros. Já está acontecendo esse movimento também. Mas inicialmente não tinha tanta importância política para as elites da cidade da cidade. Se a gente pensar na Lavagem tem importância, abertura de calendário. Se pensar no 2 de Julho aquela coisa da Bahia que consegue transformar o Brasil e o liberta das libertações de Portugal”, explicou Rezende.
