Museus preservam memória histórica e contam como cultura africana e afrodescendente se perpetuam em Salvador
Por Eduarda Pinto
Com mais de 11 milhões de habitantes, cerca de 80% da população baiana é considerada negra, entre pretos e pardos. É o que diz o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base em dados de 2023. Essa negritude, visível nas ruas, na culinária, na arte e na linguagem, transforma a dinâmica social da Bahia e de Salvador de maneira indissociável, mas ainda é relativamente pouco explorada nas narrativas culturais e históricas do país.
No dia 24 de janeiro, em que se celebra o Dia Mundial da Cultura Africana e Afrodescendente, o Bahia Notícias visitou dois espaços da capital baiana que preservam a memória histórica e cultural da diáspora africana na Bahia e incentivam a criação de artísticas e estudiosos negros a partir disso.
MEMÓRIAS DO BENIN
A rota cultural do BN teve início na Baixa dos Sapateiros, localidade no Centro Histórico de Salvador, narrada por Ary Barroso nos anos 50, no que um dia foi um dos mais importantes centros culturais e comerciais da capital baiana. Em uma imensidão de casarões na região, um deles, na rua Padre Agostinho Gomes, exibe, de portas e janelas abertas, uma diversidade de telas, esculturas e artefatos que celebram a conexão entre Salvador e o continente africano: a Casa do Benin.
Dados divulgados pelo estudo The Trans-Atlantic Slave Trade Database, do site Slave Voyages, em 2025 destacam que cerca de metade dos africanos escravizados no Brasil entre 1574 a 1856 foi embarcou em portos de Angola e da região da Costa da Mina, que corresponde ao território atual de Gana, Togo, Benin e Nigéria, na África. A migração forçada do que seria mais de 1,5 milhão de pessoas gerou marcas visíveis e invisíveis nos modos de vida em território brasileiro, em especial na Bahia.
Fundada em 1988, sob a gestão de Gilberto Gil na Fundação Gregório de Mattos, vinculada a Secretária Municipal de Cultura, a Casa do Benin exibe estas marcas de um jeito diferente. O espaço mescla um acervo composto por cerca de 200 peças colecionadas pelo fotógrafo francês Pierre Verger, vindas diretamente do Golfo do Benin, e exposições rotativas de artistas negros contemporâneos, a Casa do Benin traça paralelos entre o passado emergente e o futuro inalcançado.

Igor Tiago, gestor cultural da Casa do Benin. Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
É o que explica o gestor Igor Tiago, produtor cultural e curador da Casa do Benin. Em entrevista ao Bahia Notícias, ele conta que “a casa do Benin nasce de a partir dessa publicação, ‘Fluxos e Refluxos’ do Pierre Verger, onde ele traz um pouco desses trânsitos atlânticos percorridos por pessoas escravizadas no processo de escravização que atormentou parte do mundo”.
Tiago relata que a criação deste equipamento é paralela a fundação de uma Casa do Brasil, na cidade de Ouidah, no Benin, promovendo um intercâmbio cultural entre os países. “Paralelo a isso, esse projeto é um projeto que tem dois grandes braços, a criação da Casa do Benin aqui em Salvador e a criação da Casa do Brasil lá no Benin. A ideia era que fossem espaços de intercâmbio. Então, que houvesse trocas culturais, artísticas, que viessem os estudantes habitar a Casa do Benin e estudantes brasileiros indo para o Benin para habitar também a Casa [do Brasil]. [A ideia era] Que fossem em espaços de troca, de diálogo, de conexões.”
Ao BN, ele conta que por ser público, um dos grandes pilares da Casa do Benin é a democratização de seus acessos. “A gente tem feito um trabalho curatorial e de dinamização desse espaço, abrindo mesmo as portas para que os artistas interessados possam ocupar”, garante. “A maioria dos eventos que acontecem na casa do Benin são gratuitos, tanto para quem faz, quanto para quem vem prestigiar os eventos”, disse o gestor.
No que diz respeito à curadoria da Casa do Benin, o produtor cultural destacou que “a Casa do Benin é criada dentro desse desse momento efusivo da das questões negras afro-diaspóricas”.
Assim, a prioridade é para artistas negros, brasileiros ou não. “Eu acho que o trabalho que a gente tem feito, tem reacendido na memória afetiva das pessoas a existência desse espaço e a potência desse espaço. Então, a gente tá muito feliz assim porque a Casa do Benin tá em movimento. A gente tem feito um trabalho super interessante, trazendo muitas perspectivas em torno das artes negras no mundo”, sucinta.

Uma das peças do acervo da Casa do Benin em exposição. Foto: Eduarda Pinto / Bahia Notícias
Igor define que a prioridade atual também é diversificar o olhar do espaço entre o passado e o futuro. “Atualmente a gente tá com quatro mostras diferentes na Casa do Benin. Então, é cada uma muito diferente da outra e de lugares diferentes também, os artistas de lugares diferentes do mundo. Então, isso mostra o quanto a casa do Benin está em diálogo com essa produção contemporânea negra que a gente tem vivido nesse momento no país e no mundo”.
Ele conta que, nestes moldes, “a casa do Benin, de fato, está tendo uma uma movimentação e uma dinamização onde os artistas, os fazedores de cultura da cidade, como do Brasil, estão entendendo esse espaço como potência”. E isso já tem se refletido na popularidade do espaço.
Segundo o gestor, as solicitações de pauta, ou seja, solicitação para aprovação de mostras e exposições no local tiveram um aumento de 100% em três anos. “Nos últimos anos a casa tem passado por um grande aumento de visitação, de visitação de escolas e instituições de ensino. A casa do Benin é um espaço de produção de conhecimento. É um espaço de difusão e produção de conhecimento”, sucinta.
TESOURO NEGRO
No meio de algumas ruas - e ladeiras - da Baixa do Sapateiros, há um segundo espaço cultural que reacendeu a curiosidade e a memória transatlântica da diáspora negra entre baianos e turistas nos últimos dois anos, desde sua reinauguração. O prédio do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, o Muncab, está localizado na rua do Tesouro e relembra que a negritude e seus reflexos na cultura brasileira são o que há de mais valioso no Centro Histórico de Salvador.
O local, que ocupa dois prédios na região, foi inaugurado em 2009 e, após um fechamento em 2020, voltou a se tornar um ponto turístico de referência em 2023, após sua reabertura. Com um acervo composto por obras experimentais, figurativas e abstratas, o Muncab recebe exposições de longa e média duração de diversos artistas brasileiros, africanos e afro-diaspóricos de todo o mundo.
O BN conversou com a diretora geral do museu, a multiartista Cíntia Maria, e diretora artística e curadora, Jamile Coelho, para compreender de que forma o Muncab mantém o "cordão umbilical" com o continente africano enquanto se permite focar no futuro.
Jamile explica porque o equipamento é conhecido como o “museu do processo”. “Neste tempo presente, o propósito do Muncab é dialogar, sobretudo com arte contemporânea. Nós não somos um museu de história. A gente fala do processo dessa diáspora, que existe, ela é viva, e desse contato com essa África também. [O propósito] É tirar um pouco dessa ideia dessa África imaginária”, relata a gestora.

Jamile Coelho, curadora e diretora artística do Muncab. Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
Ela que é curadora e cineasta, explica que “a África imaginária” reside em uma memória coletiva e ancestral, mas que perpetua a imagem de um continente que já não existe mais.
“Acho que todos nós, afrodescendentes, sobretudo nessa diáspora da Bahia, que é uma das maiores diásporas africanas do mundo, a gente tem essa África imaginária que a gente carrega essa ancestralidade para a gente, inclusive, continuar caminhando para o presente. O Muncab tem um papel fundamental nessa ideia dessa arte contemporânea, [de mostrar] o que está sendo produzido no mundo, nesses descendentes, nesses afrodescendentes”, explica.
Enquanto as exposições te levam para uma imersão no universo artístico e contemporâneo, as paredes dos casarões históricos e o entorno do espaço relembram o passado da afrodiáspora. “Salvador nasce aqui, né? Salvador, a cidade alta, nasce aqui, e a gente sabe o quanto a nossa existência, sobretudo no início do processo de colonização dessa cidade, ela foi desumanizada”, contextualiza a curadora.
“Então, a gente reocupar esse espaço, reabrir ele, devolver a sociedade e falar de um processo onde você vê essa ideia de um museu que tá aqui para ressignificar a nossa existência no mundo. Eu acho que o Muncab tem esse papel”, ressalta Jamile. A diretora artística destaca que, portanto, “Emanuel Araújo [mentor do Muncab], sabiamente, quando escolhe o tesouro do Estado para ser o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, ele quer falar que o tesouro brasileiro é a memória africana, é a memória da diáspora africana”.

Cintia Maria, diretora administrativa do Muncab. Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
No que diz respeito à gestão administrativa do museu, a diretora Cíntia Maria destaca que “o Muncab é um museu que ele é pensado com, para e através da sociedade”. “A gente tem um entendimento da importância desse equipamento e é um compromisso social nosso. É um entendimento sobre a importância desse equipamento, então a gente busca as diferentes formas de que o museu seja acessível.”
A gestora conta que para a garantia dessa democratização do acesso ao equipamento, o museu mantém a visitação gratuita em dois dias da semana, a quarta e o domingo, assim como a tarifa social nos demais dias. “Além disso, escolas públicas, instituições sem fins lucrativos privadas, também podem solicitar a gratuidade da instituição. A gente tem um número gigantesco de visitações cotidianas, a gente tem quatro horários todos os dias, que tá disponível para a população”, garante.
Cíntia completa dizendo que “a gente cobra um valor simbólico para o acesso nos outros dias, mas a gente tem essa série de benefícios que a população pode adquirir, além da minha entrada. Então, pessoas que são residentes de Salvador pagam meia e a gente tem diferentes públicos que também pagam meia”.
Para além da acessibilidade de entrada, Cíntia conta que a acessibilidade física e comunicacional também é prioridade do Muncab. “E quando a gente fala de acessibilidade física, a gente tem uma preocupação muito grande. Existe uma política de acessibilidade do MUCAB. Então, além da acessibilidade física, a gente trabalha a acessibilidade comunicacional”, sustenta.
“Sempre que alguma instituição sinaliza pra gente, a necessidade de algum tipo de acessibilidade, seja intérprete de libras, a gente atende também a isso. A gente tem cadeira de rodas na recepção, se alguém não tiver, né, tiver uma mobilidade reduzida, então ela pode solicitar cadeira de rodas, a gente tem elevador, os nossos banheiros também são acessíveis. Então pra gente, a acessibilidade é um compromisso nosso”, completa.
EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA
No que diz respeito à educação antirracista, os três gestores detalham que a função dos museus é permitir a uma reanálise da história da escravização negra na Bahia em diversos sentidos.
Para Igor Tiago, a Casa do Benin já se consolidou como um espaço de difusão do conhecimento, inclusive entre estudantes e pesquisadores. “Muitas escolas, instituições, grupos de universidade, escolas de todas as idades, a gente recebe crianças, adultos. Isso muito também por conta da lei Lei nº 10.639/2003 [legislação que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação] que institui foi a obrigatoriedade do ensino afro-brasileiro nas escolas”, destaca.
O gestor relata que “muitas aulas acontecem aqui na casa do Benin dentro dessa perspectiva do ensino afrobrasileiro, já entrando também nas questões afro diaspóricas. E a gente tem um núcleo educativo que cuida disso”, conta. Ele ressalta que o conhecimento sobre a cultura negra e sua influência no Brasil permitem que os afrodescendentes estabeleçam uma relação mais profunda com a própria identidade.
“Espaços como esses são de extrema importância dentro da cidade de Salvador, que é uma das cidades mais negras fora do continente africano. Acredito que espaço como esse nos fortalece, acho que a gente tem feito um trabalho também de fortalecimento da autoestima negra”, explica Igor.
Para Jamile, no Muncab, a importância desses equipamentos culturais está na possibilidade de “discutir o legado civilizatório das matrizes africanas e das matrizes que nos compõem”. A curadora destaca que o propósito de sua gestão é “mostrar a diversidade, a riqueza e as potencialidades” da afrodescendência. Citando a autora Conceição Evaristo, Jamile traça um paralelo com a frase: “Eles combinaram de nos matar e a gente combinou de não morrer”.
“O Estado brasileiro durante muito tempo teve uma política num processo de tentativa de assassinato, de genocídio. E nessa ideia, durante muito tempo, a gente foi privado da narrativa de subjetividade, o corpo negro ele sofreu uma tentativa de fragmentação muito forte”, contextualiza. “E eu acho que o Muncab tem esse papel de criar esse diálogo, criar esse diálogo de subjetividade”, conclui.
A diretora artística finaliza dizendo que “eu acho que é fundamental, acho que a gestão traz essa ideia de que a gente pode falar de diversas de diversas formas, a gente pode ter diversas expressões artísticas nos compondo”.
