"A gente encontrou o país aos escombros", define Vilma Reis, integrante do GT de Mulheres na transição
Por Bruno Leite
A socióloga e suplente de deputada federal Vilma Reis (PT) elencou, nesta quinta-feira (15), algumas descobertas do grupo temático de trabalho de Mulheres na transição do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo ela, a situação encontrada foi de desmonte, principalmente de políticas públicas de proteção à violência contra as mulheres.
"Nós já estávamos fazendo essa avaliação. Sou uma das mulheres que construiu o Levante Feminista contra o Feminicídio e olhar para os dados por dentro da transição foi muito forte. A gente encontrou o país aos escombros", disse Reis.
Serviços decisivos para a vida das mulheres e das meninas como o Disque 180, apontou a ativista da luta antirracista, "foram encontrados destruídos, jogados num lugar que as pessoas nem conseguiam identificar mais o impacto da política".
"Encontramos um desmonte que, quando você olha a ponta, vê que as mulheres não têm orçamento para projetos muito definidos", emendou, citando uma perseguição institucional a dispositivos de apoio às vítimas de violência sexual, o que inclui as ferramentas de proteção a crianças.
De acordo com ela, a própria Casa da Mulher Brasileira, estrutura que oferece atendimento de órgãos como a Defensoria Público, o Ministério Público, o Tribunal de Justiça e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que antes tinha R$ 360 milhões de orçamento, viu os recursos serem reduzidos a R$ 23 milhões.
"Isso é muito difícil", classificou Vilma Reis, que disse compreender que, diante do "cenário de destruição" observado na gestão do atual presidente, Jair Bolsonaro (PL), houve uma política de "não fazer" e de "destruir".
A constatação da pesquisadora baiana reforça a gravidade relatada pelo coordenador da equipe de transição e vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), que relatou ao seu entorno que ficou chocado com o resultado dos relatórios finais apresentados pelo grupo que liderou. Nas palavras do ex-governador de São Paulo, a gestão do liberal é um desastre.
"Desde que entrei na vida pública, nunca vi nada parecido", teria afirmado Alckmin, segundo informações divulgadas pela imprensa. "A impressão que se tinha é de que não havia gestão e que tudo era decidido aleatoriamente", pontuou.
Os problemas identificados e publicados pela mídia seria apenas uma parte do que foi observado pelos membros da transição. "Há documentos desaparecidos, há apagões de dados que sempre existiram em governos anteriores e há rombos financeiros inexplicáveis", disse Alckmin aos interlocutores.
ANIELLE FRANCO NA IGUALDADE RACIAL
Junto com Vilma Reis, no mesmo grupo de trabalho na transição, atuou Anielle Franco, jornalista e diretora executiva do Instituto Marielle Franco. Ela é irmã da vereadora carioca que dá nome a organização - assassinada em março de 2018 por motivações políticas - e tem sido ventilada como um dos nomes para assumir o Ministério da Igualdade Racial.
Perguntada sobre o assunto, Reis disse ver com bons olhos a possível nomeação e acredita que esta "seria uma grande mensagem do presidente Lula ao mundo". "A cara do movimento negro no Brasil hoje é de mulher negra, de uma turma que se estudou e se preparou muito. Anielle tem essa energia. Ela chega nos lugares e todo mundo quer falar com ela. As pessoas sentem nela a presença, a força e a coragem de Marielle", defendeu.
Apesar de enfrentar uma pressão de setores de legendas aliadas e do próprio Partido dos Trabalhadores, o presidente eleito assumiu durante a campanha o compromisso de montar uma Esplanada dos Ministérios com paridade de gênero. Após o anúncio dos cinco primeiros ministros, Lula enfrentou críticas de setores progressistas que reclamavam da falta de diversidade na próxima gestão.
Mais do que uma mensagem, o acréscimo de Anielle ao ministeriado seria um aceno do futuro governo às alas feministas e antirrascistas da frente ampla, que tem corrido contra o tempo para cumprir a promessa - feita na época da chegada do apoio da senadora e candidata derrotada ao Planalto, Simone Tebet (MDB). Dentro desse contexto, na última segunda-feira (12), a cantora e agitadora cultural Margareth Menezes foi confirmada no comando do Ministério da Cultura (MinC), a ser refundado.
