Para presidente da OAB, 'militares deveriam ouvir conselho de Gilmar'
O uso do termo “genocídio” para falar sobre a ação do governo Bolsonaro no âmbito da pandemia feita pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, gerou um grave conflito institucional. No entanto, para o presidente da ordem dos Advogados do Brasil (OAB-Brasil), Felipe Santa Cruz, o assunto principal expresso na fala tem ficado em segundo plano.
“O debate é: o excesso de militares, inclusive de militares da ativa, em cargos de confiança, o que demonstra um espírito de aparelhamento. Também a contaminação que isso gera para as Forças Armadas, o que é muito sério para o prestígio dos militares, que demoraram a reconstruir a credibilidade depois da Ditadura, da qual saíram muito mal. Depois disso, conquistaram uma série de avanços, de trabalho técnico, isso tem que ser preservado”, disse o presidente da Ordem, em entrevista ao UOL.
Acrescentou ainda que “o ministro Gilmar está falando do Ministério da Saúde, uma pasta que está acéfala porque o Bolsonaro trabalhou contra o Mandetta , depois trabalhou contra o Nelson Teich e fez uma espécie de intervenção militar na pasta, onde não estão nem os cientistas, nem os médicos”. Para ele, o cenário é grave, assim como “é triste que as Forças Armadas emitam nota a toda hora, como se isso fosse parte do jogo político, além desse saudosismo por instrumentos do passado que nem deveriam ser de boa lembrança para eles, porque fizeram muito mal à imagem das Forças Armadas”.
Sobre o uso de artigos da Lei de Segurança Nacional utilizada pelo Ministério da Defesa ao embasar um pedido de representação contra Gilmar Mendes junto à Procuradoria Geral da República (PGR), Santa Cruz classifica como “maluquice”.
“A gente já teve uma discussão surreal sobre o artigo 142 da Constituição, com gente defendendo o poder moderador das Forças Armadas. É um país que está olhando para o passado, olhando para o retrovisor e vendo os anos 60. O mundo está perplexo com a situação brasileira. Parece que estamos vivendo em um universo paralelo”.
O presidente da Ordem afirmou ainda que somente a “história” poderá definir se há ou não “intenção do presidente em matar pessoas”. “Eu acho que só a história vai poder julgar. Que ele foi muito mal na condução desse problema, foi. Que ele desdenhou do problema, desdenhou. Isso é um fato histórico. Que ele deu péssimo exemplo todos os dias, deu. Quantas pessoas morreram, quantos cadáveres vão ser creditados na conta do Jair Messias Bolsonaro, é algo que os historiadores vão avaliar. Mas que ele vai ter uma parcela grande de responsabilidade por esses milhares de mortos, não tenha dúvida”, disse.
