'Movimento Amplia': Rede conecta pessoas para pagar inscrição de estudantes negros no Enem
Por Ailma Teixeira
Diante da informação de que, às vésperas do fim do prazo, cerca de 300 estudantes ainda não havia efetuado o pagamento de R$ 85 para concluir a inscrição no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), diversas iniciativas de grupos independentes e também individuais surgiram para ajudar a diminuir essa conta. Uma delas é o "Movimento Amplia", criado pelo professor de inglês Cristiano Ferraz.
Ele conta que viu a mobilização de algumas pessoas nas redes sociais e, então, pensou: "vou replicar isso!”. “Tenho rede de amigos muito privilegiada pra fazer uma ação nesse sentido e a coisa viralizou".
Como relatado por ele ao Bahia Notícias, tudo aconteceu muito rápido: a campanha foi montada na quarta à tarde (3), teve grande repercussão, depois ele juntou amigos ativistas de várias áreas e, no final da tarde de quinta (4), lançou a página do movimento (@movimento_amplia no Instagram). "No sábado, a gente tinha 70 mil curtidas num post, mais de 12 mil comentários, e-mails de 50 mil pessoas inscritas querendo pagar boletos do Enem para pessoas negras que ainda não tinham finalizado a inscrição por não terem sido contempladas com a isenção. (...) E aí começou a aparecer no Instagram da Tábata [Amaral, deputada federal por São Paulo], do Bruno Gagliasso e foi muito orgânico", celebra o professor.
O Movimento Amplia já soma 12,7 mil seguidores no Instagram e o número de apoiadores foi tamanho que eles precisaram interromper a inscrição para dar conta de viabilizar a base de dados. Quanto aos estudantes, o processo permanecerá aberto até as 23h59 desta segunda-feira (8) para que a equipe dê conta de receber as inscrições, fazer o "match" com os padrinhos e madrinhas e garantir a efetivação do pagamento até quarta (10), prazo final.
Mas a ação não termina por aí. Ao perceber que havia muita gente disposta a ajudar e outros tantos ainda carentes de apoio, o grupo decidiu expandir a iniciativa. "Abrimos pra sugestões [nos formulários de inscrição] e tem gente dizendo que não quer só pagar o boleto, mas oferecendo um programa de tutoria, doação de computador. Então, esse movimento pode transbordar para outras ações que garantam não só a inscrição, mas esse processo de como o aluno vai estudar para o Enem, alunos que não têm acesso à internet de qualidade", destaca Ferraz. Portanto, viabilizar a extensão do projeto será o próximo passo do Movimento Amplia.
MOVIMENTOS ANTIRRACISTAS
Não é por acaso a decisão de priorizar estudantes pretos. Nas últimas semanas, o racismo entrou no centro dos debates nas redes sociais após episódios como a morte do jovem João Pedro, que estava dentro de casa quando foi atingido pela polícia e depois levado de helicóptero, deixando a família por horas sem informação (saiba mais aqui), e do americano George Floyd, assassinado por um policial branco enquanto dizia que "não conseguia respirar". Esse último caso, em especial, tem reverberado em protestos de rua em diversos países do mundo, inclusive o Brasil.
Com isso, Ferraz afirma que o objetivo foi criar uma plataforma antirracista, dando oportunidade à parcela mais desfavorecida da população. "A gente tem que falar muito sobre a conjuntura do Brasil e do mundo. O caso do João Pedro, no Brasil, do George Floyd, nos Estados Unidos... E acho que no bojo desse debate, que é extremamente importante, sinto que as pessoas estão num lugar que não sabem o que fazer", pontua o professor.
Dessa forma, o projeto prioriza beneficiar estudantes pretos, pardos, indígenas e, caso já tenha abarcado esses jovens, o apoio é repassado a estudantes de baixa renda pertencentes a outros grupos sociais em situação de vulnerabilidade. "O formulário pergunta: 'caso a gente não faça o match com um estudante negro, você aceita apoiar outros?' E a maior parte da base falou 'sim'", destaca Ferraz.
MATCH MANUAL
Por ora, as inscrições para apoiadores foram encerradas. Mas os padrinhos e madrinhas do projeto passam por um processo simples. Basta responder um formulário, informando como pode ajudar e deixando uma forma de contato.
Para os estudantes, o processo não é muito diferente. Eles respondem outro formulário e aguardam o contato da equipe do Movimento Amplia. Os ativistas, então, fazem o "match", como chamam a correspondência entre padrinhos e assistidos, levando em conta critérios como necessidades do aluno, possibilidade de ajuda do apoiador e ainda algumas preferências. Por exemplo, os padrinhos e madrinhas podem escolher se preferem apoiar estudantes de uma determinada região do país.
Extratos feitos até o momento mostram que o Sudeste concentra 51,3% dos estudantes beneficiados e 69,8% dos apoiadores. O Nordeste é a segunda região com mais pessoas beneficiadas, 24%, e a terceira em número de apoiadores, 9,9%.
Os dados completos, com o número total de estudantes agraciados, devem ser divulgados até o fim da semana. Ferraz explica que eles vão contabilizar os números somente após a garantia de que todos os boletos foram pagos.
