O conto da perseguição a Léo Prates
Por Fernando Duarte
A semana passada acabou com a formalização do pedido de desfiliação do secretário de Saúde de Salvador, Léo Prates, do Democratas. A medida era esperada, visto a aproximação dele do PDT, com direito a sucessivos encontros com caciques da legenda. O que surpreendeu foi a argumentação que Prates foi “perseguido” dentro do DEM. Foi a desculpa encontrada para tentar, de alguma forma, justificar a saída sem questionamento na Justiça Eleitoral. Porém pareceu bem esfarrapada para quem acompanha a trajetória política dele.
Não que, de alguma forma, José Carlos Aleluia e Alexandre Aleluia não tenham tido a preferência na corrida eleitoral de 2018. O repasse de recursos para Aleluia filho pelo então presidente do DEM na Bahia foi motivo de reclamação durante o processo. Ainda assim, em condições normais de temperatura e pressão, não resultaria num pedido de desfiliação. Léo Prates é “cria” política do partido e nasceu para a política com um cordão umbilical com o prefeito de Salvador, ACM Neto. É impossível dissociar a imagem dele à do gestor da capital baiana. No entanto, ele tenta criar uma distância inexistente para evitar celeumas jurídicas.
É claro que, do ponto de vista judicial, qualquer brecha legal deveria ser usada para atingir o objetivo. É assim que uma boa defesa deve agir. Porém entre uma linha para a justiça e a inteligência geral, a gente precisa colocar um marco de separação. Ninguém é estúpido o suficiente para acreditar piamente nessa narrativa de que houve perseguição e, por isso, Prates deixaria o DEM. É mais um conto da carochinha, mas acredita quem quer.
Uma coisa ficou explícita: o deputado estadual licenciado é um jogador importante para a eleição de 2020 em Salvador. Ele fez uma movimentação arriscada ao se aproximar de partidos como PCdoB e PSB, mais à esquerda, e deve acabar aterrissando no PDT de Félix Mendonça. Apesar da herança brizolista, os pedetistas se tornaram políticos pragmáticos ao longo dos últimos anos e podem ser considerados de centro. A provável filiação de Léo Prates é uma prova de que o partido se afastou da esquerda clássica.
Um detalhe relevante: a troca de partido também sinaliza que o PDT deve deixar a base aliada do governador Rui Costa em breve. A legenda já não é tratada como tal há algum tempo, apesar de ainda controlar a Secretaria Estadual de Agricultura e deter alguns postos no segundo e terceiro escalões do governo. Todavia, enquanto não houver a posição definitiva, é importante manter as aparências.
Com o PDT como uma espécie de “trunfo”, Léo se cacifa para disputar a vaga de vice de Bruno Reis, virtual candidato do DEM e citado como uma das razões para que o secretário de Saúde deixe o ninho onde nasceu. Os pedetistas garantem que só aceitam o deputado estadual para ser postulante ao Palácio Thomé de Souza, mas é uma verdade tão absoluta quanto a perseguição que ele sofreu do DEM. É como acreditar em unicórnios, não?
Só mais uma última observação: para completar com outra situação ligeiramente esdrúxula: após a divulgação do pedido de desfiliação, o ex-democrata fez uma postagem morrendo de amores por ACM Neto. Não parece alguém perseguido...
Este texto integra o comentário desta segunda-feira (9) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM, Valença FM e Alternativa FM de Nazaré.
