Carnaval de São Paulo maior que o de Salvador? Vai precisar de muito axé para isso
Por Fernando Duarte
João Doria é megalomaníaco. Mal entrou na política como prefeito de São Paulo e já quis ser presidente da República. Como o cavalo selado apontava o governo paulista, foi lá que o empresário resolveu estacionar em 2018. Há algum tempo, ele resolveu ampliar seus desejos profundos de transformar São Paulo no maior em tudo. Inclusive no Carnaval. Ontem, quando a capital paulista confirmou o número de blocos inscritos para a Folia de Momo, Salvador resolveu provocar e tem toda a razão. Para se tornar o maior Carnaval do Brasil, São Paulo ainda precisa comer muito feijão. E sim, sobra bairrismo nessa fala.
O Carnaval de Salvador tem problemas, claro. Mas a cidade organiza uma festa para centenas de milhares de pessoas e ainda assim consegue passar por quase 15 dias de festa sem grandes percalços. Por muitos dias, as ruas fedem e turistas e baianos parecem ser zumbis. Caminham de uma festa a outra como se não houvesse amanhã e como se o dia seguinte não fosse acontecer, precisando curtir ao máximo. O resultado é um momento meio que mágico, quando fingimos esquecer os problemas. Não que nos tornemos letárgicos. Apenas congelamos as dificuldades na saúde, na educação, na segurança e em tantos outros temas para sobreviver ao longo e difícil ano que está por vir – afinal, o ano começa após o Carnaval.
São Paulo tem tudo para ter um Carnaval realmente expressivo. Pode ter o maior número de blocos. Pode ter até o maior número de pessoas. Pode até querer ser maior em tudo. Mas não vai ser maior em ter o que Salvador tem de melhor: o axé! Não, não é o objetivo encampar uma defesa escancarada do título “Cidade da Música”, defendido a unhas e dentes pela prefeitura. A ideia é ser ligeiramente ufanista com algo que realmente fazemos bem, uma festa para milhões de pessoas que curtem viver. Então, nesse ponto, é bom os paulistanos pegarem os seus banquinhos... O cinza das ruas da cidade brasileira que nunca dorme sequer combina com o colorido da felicidade do Carnaval.
Até mesmo o Rio de Janeiro, que tem um dos carnavais mais vendidos turisticamente do Brasil, passa por constrangimento ano a ano quando resolve se comparar com Salvador. Ou já esquecemos daquela foliã que, em entrevista ao vivo na televisão, disse que preferia estar na capital baiana ao invés de passar o dia nos bloquinhos cariocas? Se até eles, que gostam de olhar para o próprio umbigo quando se fala do Nordeste, admitem que a qualidade dos dias de Momo por aqui é acima da média deles. Convenhamos, São Paulo pode até ter mais gente nas ruas do que o Rio, mas alguém acha que eles são melhores?
A megalomania de Doria acompanha a lógica do Sudeste, que precisa ser o centro das atenções em todas as situações possíveis e imagináveis. Em se tratando de São Paulo então, não há muito mais o que acrescentar, não? Por isso vamos seguir ufanistas aqui em terras baianas. Para a folia paulista ser o maior Carnaval do país, vai ser preciso muito mais axé do que a mera vontade de um governante. E sobre axé não adianta: nunca haverá outro lugar que conheça mais do que a Bahia.
Este texto integra o comentário desta quinta-feira (3) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM e Valença FM.
