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Fé ao invés de políticas públicas gera ideias como jogar Paulo Freire no lixo

Por Fernando Duarte

Fé ao invés de políticas públicas gera ideias como jogar Paulo Freire no lixo
Foto: Reprodução/ Nova Escola

A fé não deve produzir políticas públicas. Não, não sou ateu. Sou católico e mantenho simpatia com as mais diversas frentes religiosas. Porém concordo plenamente com uma premissa básica de uma democracia moderna: não devemos transformar a fé em parte do Estado. Sob risco de passarmos a viver sob uma teocracia. Essa questão surgiu após uma conversa com o professor Nelson Pretto sobre a indicação recente do vereador Alexandre Aleluia de colocar “no lixo” a pedagogia desenvolvida por Paulo Freire. Essa visão é mais uma questão de fé do que alguma evidência científica.

 

Aleluia é um mero reprodutor de ideias compartilhadas pelos altos escalões do governo federal. É um peixe pequeno no meio de tubarões do conservadorismo nacional, que ascendeu ao poder com Jair Bolsonaro. Porém, ao reforçar as concepções desse novo movimento, coloca em risco os avanços das políticas públicas, especialmente na área de educação nesse caso. Em sua análise “profunda”, o vereador sugere que Freire não “tem base científica”. Ser o brasileiro mais citado em artigos científicos ao redor do mundo e considerado uma referência na área educacional talvez seja algo que desqualifica Freire, realmente.

 

Não sou especialista em Paulo Freire. Tive contatos esparsos com a obra dele. No entanto, sei que a principal linha do educador é gerar o pensamento crítico naquele que é alfabetizado com a metodologia desenvolvida a partir dele. É exatamente o contrário daquilo que o sistema político mantém há muito tempo no país: uma nação de pessoas incapazes de interpretar aquilo que leem.

 

Nelson Pretto fez uma ponderação relevante. Vivemos em um momento com muito acesso à informação. O que não significa que os brasileiros tenham formação. A internet não “emburrece”. Potencializa a falta de formação de parte expressiva da população, que reproduz conteúdo sem uma leitura crítica em torno daquilo com o que interage. Talvez por isso existam sucessivas tentativas de minar qualquer chance de gerar uma sociedade mais reflexiva sobre o seu entorno. É muito mais cômodo ter uma massa amorfa, sem capacidade de discernimento, para manter o status quo da política. Aquilo que, por muito tempo, a esquerda era acusada e agora a direita é.

 

A diferença de agora para o passado recente é que a educação passou a ser ferozmente atacada por criar “esquerdistas”. Como se esses conservadores não tenham passado por bancos de universidades... Parte disso é culpa de educadores que, ao invés de provocarem reflexões sobre o mundo, ridicularizavam aqueles que pensavam diferente. Mas não foram eles os responsáveis exclusivos por termos lunáticos à frente de debates sobre políticas públicas.

 

Temos aí o resultado de um erro histórico de todos os governantes que passaram pelo Executivo na União, nos estados e municípios. É clichê, mas é preciso falar: educação nunca foi prioridade. E jogar Paulo Freire no lixo, definitivamente, está longe de resolver alguma coisa. Só piorar o que já está ruim.

 

Este texto integra o comentário desta quarta-feira (14) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30.