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'Não disse o que disse': Líder do governo criticou deputados 'cedo demais'

Por Fernando Duarte

'Não disse o que disse': Líder do governo criticou deputados 'cedo demais'
Foto: Lucas Arraz / Bahia Notícias

“Tem deputados que não querem trabalhar, querem só atrapalhar”. Parece uma declaração de senso comum, porém veio do líder da maioria na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA), Rosemberg Pinto, após a oposição derrubar a sessão em que o governo esperava votar um dos projetos que ajudou a pôr fim à greve dos professores das universidades estaduais. O tom acima do padrão quando parlamentares falam dos próprios pares pode até ter sido um arroubo de Rosemberg. No entanto resume bem a avaliação que a população tem de alguns membros do parlamento e, cá entre nós, dá gosto de ver quando a crítica parte de um deputado.

 

Pena que Rosemberg não tenha sido completamente sincero. Afinal, quando no passado os veículos de imprensa questionaram a baixa produtividade da Assembleia, o líder do governo buscou ensinar como se faz jornalismo. Os deputados estavam trabalhando muito, com as comissões funcionando e com as atividades a pleno vapor para garantir que os números da atual legislatura sejam melhores que o da antecessora. Sim, ele estava certo. Há muito tempo não se via um engajamento tão grande de parlamentares, com participação ativa em debates e em discussões sobre o dia a dia da sociedade. Porém, desde pouco antes do recesso não dá para se empolgar, e o retorno segue a mesma linha.

 

A sessão desta terça caiu por falta de quórum. A oposição, que quase não tem meios para conter o rolo compressor governista, conseguiu a proeza de derrubá-la ainda nos expedientes regulares. A articulação política de Rui Costa na AL-BA, como ironizou Alan Sanches, dormiu no ponto e não conseguiu colocar 19 dos 45 deputados no plenário. O resultado foi o adiamento da votação do projeto de reestruturação de cargos nas universidades estaduais e uma “faca no pescoço” com o risco de uma nova paralisação de professores e servidores. Nada que uma conversa não resolva – e isso tende a acontecer até esta quarta.

 

O engraçado na fala de Rosemberg é que uma declaração de que deputados eventualmente não “querem trabalhar, só atrapalhar” é que pode inviabilizar uma negociação com os parlamentares que se ausentaram no plenário. Ele, como líder do governo e tradutor das tensões dos pares junto ao Executivo, sabe que qualquer “melindre” pode gerar um efeito manada e diminuir a força governista na aprovação de projetos. Além de apostar na paciência dos deputados, a liderança também se beneficia de algo bem comum no Brasil pós-2018: o “não disse aquilo que eu disse”.

 

Caso a Assembleia vote hoje, sem percalços, o projeto relacionado aos professores, é certo que Rosemberg vai negar ter sugerido que os sacrossantos parlamentares poderiam eventualmente se ausentar por não quererem trabalhar. Discentes e servidores vão pressionar para que a matéria seja aprovada rapidamente e talvez isso amoleça o coração dos deputados. Mesmo que o líder do governo negue o que disse, ninguém vai querer atrapalhar a votação, não é mesmo? Nem os deputados, muito menos a imprensa...

 

Este texto integra o comentário desta quarta-feira (7) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30.