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Carvalho, Carneiro e Narciso: não é feio o que é espelho

Por Fernando Duarte

Carvalho, Carneiro e Narciso: não é feio o que é espelho
Foto: Reprodução/ Decor Fácil

Jornalismo é instigante e, ao mesmo tempo, intrigante. Por obrigação profissional, um jornalista precisa estar aberto a acompanhar as mais diversas formas de pensamento, inclusive a diametralmente oposta a suas crenças e formas de pensar. É um exercício incessante e os bons jornalistas sabem que, por mais que tentem, não serão tão isentos quanto se gostaria. No entanto, nessa busca desenfreada, conseguimos perceber que os leitores têm uma característica muito clara: todos são narcisos e tudo o que for diferente de si não vale a pena.

 

Não é novidade a formação de bolhas de informação. É natural que semelhantes convivam apenas com semelhantes e as redes sociais amplificaram esse aspecto da construção social. As eleições recentes mostram que essas bolhas provocam muito mais reflexos do que no mero convívio e passam a ter papel preponderante na sociedade. São diversos exemplos recentes, porém vou me ater a dois simbólicos que vieram a público durante o feriado de Páscoa.

 

O primeiro deles é o vídeo publicado nas redes sociais do presidente Jair Bolsonaro e removido horas depois, envolvendo o “guru” Olavo de Carvalho. Nele, o autointitulado filósofo critica a esquerda, o sistema educacional brasileiro (o clássico complexo de vira-lata) e dispara petardos contra os militares. É, em parte, coerente a observação de que os responsáveis pela educação não fizeram nenhuma transformação significativa. E isso engaja pessoas que acreditam que o mal do universo é o outro e não a si próprio. A crítica, porém, é vazia e seria inócua se fosse feita por qualquer pessoa normal. A condição de guru aumenta a reverberação e aqueles que pensam sem tanta reflexão acabam endossando a fala. Com direito a ser replicado pela maior autoridade do país – ainda que Bolsonaro tenha apagado na sequência.

 

No mesmo patamar de incoerências, é possível citar o candidato a presidente do Esporte Clube Vitória, Paulo Carneiro. Em duas entrevistas recentes, o ex-dirigente que tenta voltar ao posto vociferou palavras contra a presença do futebol feminino no Barradão. Carneiro segue o estilo xerife, tal qual Olavo, e, mesmo que haja exigência legal para que clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro mantenham equipes femininas, é melhor recorrer ao vazio onde é possível encontrar eco ao invés de, efetivamente, ter opinião mais respeitosa. No entanto, o candidato a presidente do Vitória não só é aplaudido, como também é citado como um forte nome na disputa eleitoral do Rubro-Negro.

 

Para quem pensa como Olavo de Carvalho ou Paulo Carneiro, as falas de ambos são músicas para os ouvidos. O mesmo vale para tantos outros exemplos de isolamento na bolha. Fala-se o que se quer, para ser ouvido por quem tem interesse e não há nenhuma consequência prática por isso. Como bem disse Caetano Veloso, “Narciso acha feio o que não é espelho”. Pena que, nesses casos, esses reflexos não atinjam apenas aqueles que se olham.

 

Este texto integra o comentário desta terça-feira (23) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM, Clube FM e RB FM.