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O conto do vigário da votação de projetos sobre mulheres na Assembleia

Por Fernando Duarte

O conto do vigário da votação de projetos sobre mulheres na Assembleia
Foto: Divulgação / AL-BA

Está certo que, para ser político, é necessário acreditar na “arte do diálogo”. Porém as deputadas estaduais caíram em um “conto do vigário” no começo do mês de março, quando ficou prometido que a Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA) daria prioridade a projetos relacionados a elas, numa alusão ao Dia Internacional da Mulher celebrado no último dia 8. Março está prestes a terminar, e, como protestado na sessão desta terça-feira (26), não terá a votação de qualquer matéria tendo mulheres como temática.

 

A desculpa perfeita é a burocracia do próprio parlamento. A justificativa veio do líder do governo, Rosemberg Pinto (PT), que sugeriu que o processo de desarquivamento de projetos e até mesmo a passagem pela Mesa Diretora foram preponderantes para que a promessa feita no começo de março não fosse concretizada. No entanto, o próprio Rosemberg resumiu de uma maneira bem distinta a razão pela qual as matérias sobre mulheres ficaram para trás: “por falta de vontade”.

 

Só em um realismo fantástico a priorização de projetos de parlamentares aconteceria na Assembleia Legislativa. Porém não dá para pegar a Casa do Povo baiana como mártir. É um padrão observado na maioria dos Legislativos brasileiros e esse é apenas mais um exemplo em um no universo gigantesco da falta de prioridade às matérias de autoria dos próprios parlamentares.

 

A iniciativa de votar projetos temáticos é salutar. Os méritos vão tanto para Paulo Câmara (PSDB), que propôs inicialmente a ideia, quanto para Ivana Bastos (PSD), que encampou a “briga”. Todavia, ficaram para trás na ordem de importância definida pela própria Assembleia. Apesar de ser possível associar ao machismo estrutural, nesse caso específico nem chega a ser exclusivamente isso. E talvez seja um recado de que micro revoluções não são necessariamente bem-vindas no parlamento estadual – como fez o tucano ao votar textos sobre temas específicos quando estava no comando da Câmara de Vereadores de Salvador.

 

No começo da tarde de ontem, Ivana até ponderou de maneira otimista que poderia haver dispensa de formalidades para que os projetos fossem apreciados de maneira mais célere. Acabou frustrada tempos depois com a declaração de que a prioridade para matérias relacionadas ao tema só será dada nas primeiras sessões de abril, após o marco inicial do Mês da Mulher.

 

Em um momento em que se debate muito questões relacionadas ao feminicídio, ao assédio e à importunação sexual, a Assembleia Legislativa deixou passar o momento para discutir temas tão relevantes. É triste, mas é uma realidade à qual já estamos até acostumados. Parece, todavia, que nem todos os deputados estão nesse mesmo ritmo. Ou então apenas gostam de se enganar para parecerem vítimas daquilo que eles mesmos alimentam.

 

Este texto integra o comentário desta quarta-feira (27) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM, Clube FM e RB FM.