Acordo de cavalheiros na Assembleia deve gerar conta difícil de ser quitada
Por Fernando Duarte
A eleição da Assembleia Legislativa da Bahia foi definida por um acordo de cavalheiros entre o PP e o PSD, com a mão pesada do governador Rui Costa ditando as regras para que o entendimento acontecesse. No entanto, publicamente, coube aos deputados candidatos chegarem ao denominador comum da candidatura de Nelson Leal (PP) à presidência do Legislativo, sob a promessa de que, em 2021, o mandato caberá a outro aliado – inicialmente Adolfo Menezes (PSD).
Leal levou vantagem na articulação enquanto Rui esteve em viagem internacional. O progressista apresentou um número expressivo de apoios e sufocou a tentativa de crescimento dos adversários. A jogada foi arriscada e, pelos corredores, ficou implícito que o governador não gostou da postura dos aliados. Quando Rui chegou, bateu na mesa e disse que não pretendia ter a base rachada, obrigando eventuais insurgentes a engolirem a seco a preferência do petista. O resultado é que, antes do prazo dado pelo chefe do Executivo, Leal foi alçado à condição de candidato único.
Pelo caminho, além de Adolfo Menezes, ficaram as candidaturas de Rosemberg Pinto (PT) e Alex Lima (PSB). Os dois, todavia, foram contemplados de maneiras distintas: o petista vai liderar a bancada do governo e o socialista deve herdar um espaço de destaque na mesa diretora. Para ambos, o prêmio de consolação foi útil, principalmente quando se analisa o acesso a cargos que devem dispor a partir de agora. Entre nada e um naco de poder, não há dúvidas de qual caminho seria escolhido.
O entendimento, inclusive, sinalizou que Rui recuou do tom de que a Assembleia contaria como uma pasta na divisão de espaços no Executivo. Apesar de sempre ser levado em consideração, o Legislativo nunca tinha sito tratado tão explicitamente como um apêndice da governadoria. A mudança de postura serve também para preservar o mínimo de respeito entre os poderes da República baiana.
Com a confirmação de Nelson Leal, o PSD perde um importante posto do jogo político local, porém conta com a promessa de que, em dois anos, voltará a controlar a Assembleia. É uma aposta de longo prazo, especialmente com o contexto de que, em 2022, Rui não será novamente candidato e haverá uma intensa disputa dentro do grupo político dele para ver quem deve sucedê-lo. O Legislativo será um bom campo para uma eventual candidatura do PSD.
A conta dessa vitória do PP também deve ser cobrada, ainda que o acordo pela direção do Legislativo seja mantido daqui a dois anos. Os social-democratas são fortes o suficiente para estipular um preço mínimo a ser pago por progressistas, petistas e até mesmo socialistas, que foram os avalistas desse aperto de mãos. E, caso não haja cumprimento do prometido, aí o valor será estratosférico. Algo que nenhum dos envolvidos parece estar disposto a pagar.
Este texto integra o comentário desta quarta-feira (5) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM, Clube FM e RB FM.
