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Chamas apagam o passado, enquanto políticos insistem em se omitir sobre o futuro

Por Fernando Duarte

Chamas apagam o passado, enquanto políticos insistem em se omitir sobre o futuro
Meteorito Bendegó é símbolo de resistência | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

As chamas que consumiram o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, destruíram muito da história do Brasil e do mundo. O valor do acervo dele era inestimável e, ainda assim, sobraram oportunistas para tentar capitalizar politicamente uma tragédia há tempos anunciada pela imprensa. Infelizmente, o museu do tempo do império não é o único registro da história que tende a ser apagado pela inoperância de governantes.

 

Vejamos alguns exemplos recentes na Bahia. No final de julho, o prédio principal da Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA) foi atingido por um incêndio. Felizmente, o foco foi controlado e destruiu apenas um trecho do terceiro andar do prédio, que não chega aos pés da importância da unidade carioca, mas uma tragédia era considerada iminente. O próprio presidente do Legislativo, Angelo Coronel (PSD), pouco depois de assumir em fevereiro de 2017, admitiu que era preciso rever as estruturas elétricas o quanto antes para evitar um desastre. Pareceu prever o que aconteceu tempos depois e, mesmo tendo iniciado intervenções, não conseguiu evitar as chamas.

 

Outra situação que mostra que precisamos rediscutir as políticas públicas de incentivo à cultura é o acervo do artista plástico Mário Cravo Jr. Morto no último mês de julho, o baiano parou de ver a deterioração do Espaço Mário Cravo e do Parque das Esculturas, ambos no Parque Metropolitano de Pituaçu e esquecidos pelas autoridades públicas na Bahia. Em vida, Cravo Jr. não pôde ver sua arte sendo valorizada pelo estado brasileiro como deveria.

 

Há mais tempo, mas não tão distante, o prédio histórico do Solar da Boa Vista, no Engelho Velho de Brotas, também acabou incendiado. À época, a Secretaria Municipal de Educação funcionava no casarão e, após o fogo tomar o prédio em janeiro de 2013, nada foi feito. A construção histórica segue até hoje sem manutenção e com marcas daquelas chamas que consumiram uma parte do local.

 

Esses são apenas alguns exemplos de como a falta de empenho das autoridades públicas pode resultar em sucessivos apagões históricos. Felizmente, no caso dos exemplos baianos, não houve uma perda tão expressiva como aconteceu com o Museu Nacional. E ainda é possível reverter o quadro delicado encontrado em prédios e espaços públicos no estado. Mas há interesse no assunto?

 

Entre os candidatos ao governo da Bahia, apenas Zé Ronaldo (DEM), Rui Costa (PT) e Célia Sacramento (Rede) citam a palavra museu em seus programas de governo. E o democrata é o único a falar sobre “cconservação do patrimônio histórico e arquitetônico da Bahia”. Já Marcos Mendes (PSOL), João Santana (MDB) e João Henrique (PRTB) sequer falam sobre o tema.

 

A omissão dos candidatos ao falar sobre preservação de museus é apenas um dos diversos problemas que enfrentamos sobre a conservação da nossa história. Como está arraigado no imaginário popular que “quem vive de passado é museu”, é preciso rever nossos conceitos sobre o que esperar do futuro. Ou então sequer vai sobrar história para tentar nos ensinar.

 

Este texto integra o comentário desta terça-feira (4) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM, Clube FM e RB FM.