Folião processa Bloco Eva após sofrer agressões homofóbicas de seguranças; veja vídeo
Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação / Bahia Notícias

O fisioterapeuta Roberto Santos estava curtindo o Carnaval de Salvador no Bloco Eva, circuito Barra/Ondina, quando teve seu abadá rasgado, sofreu agressões verbais, teve seu dedo polegar quebrado e foi expulso por seguranças do trio por estar beijando outro rapaz durante o desfile. 

 

O caso, que aconteceu na folia deste ano, foi registrado na polícia e motivou um processo judicial de Roberto contra a Estrada Velha Produções LTDA, empresa que organiza o desfile do trio. A vítima dos ataques pede R$ 20 mil de indenização por danos morais e restituição dos valores gastos com atendimento médico, medicamentos e da compra de um novo celular, já que o levado para o Carnaval teria sido quebrado pelos seguranças em uma tentativa de abafar a repercussão da história.

 

Sem conseguir identificar os agressores, Santos processa o grupo por danos materiais e morais. O caso ainda não foi a julgamento. Uma audiência conciliatória está marcada com advogados da empresa para o fim da primeira quinzena de setembro. Em contato com o Bahia Notícias, o grupo Eva afirmou desconhecer qualquer informação sobre o processo e diz que não teve tempo hábil de consultar o setor jurídico da empresa até a publicação desta reportagem.

 

ENTENDA O CASO:
Sem incomodar ninguém, Roberto estava beijando uma pessoa do mesmo sexo quando foi abordado por um segurança do Bloco Eva que verbalizou um “nossa, que nojo” para o casal. 

 

Sem entender o motivo do ataque, o folião que estava com amigos dentro da corda, naquele 9 de fevereiro, chegou a indagar o funcionário do trio sobre a frase. “Eu prontamente olhei para o lado e perguntei ao segurança se era comigo. ‘Porque o nojo’?”, narra Santos na petição inicial do processo. A resposta obtida pelo fisioterapeuta foi: “tenho nojo de vocês gays”. Roberto indagou novamente o funcionário, perguntando se ele tinha conhecimento que aquela ação poderia ser classificada como criminosa. A resposta do funcionário foi: “Crime é ser criado um homem e uma mulher e vocês ficarem nessa viadagem”.

 


Agressões deixaram marcas no corpo da vítima | Foto: Bahia Notícias

Ao comunicar que iria chamar o responsável do bloco após as declarações, o autor da ação teria sido imediatamente agredido pelo segurança. Segundo Roberto, foram socos, chutes, pontapés, empurrões e tapas no rosto desferidos pelo agressor e outros 9 funcionários que se aproximaram da situação. 

 

Os amigos de Roberto, que filmavam o ocorrido, tiveram seus aparelhos celulares tomados à força, assim como a vítima. “Eu estava curtindo o meu bloco. Expliquei o motivo que me fez gravar a situação e ele torceu o meu polegar para pegar o celular que estava na minha mão. Ela se abriu automaticamente”, contou Roberto. Ao não conseguir desbloquear o celular, o agressor ainda teria quebrado o aparelho. 

 

No meio da confusão, Roberto ainda foi obrigado pelos seguranças a tirar seu abadá . A camisa foi rasgada e o fisioterapeuta foi expulso do bloco. Uma mulher que acompanhava a situação de um camarote conseguiu registrar parte das agressões e encaminhou as filmagens para Roberto após ele ser posto para fora das cordas. O vídeo, compartilhado pelo BN com exclusividade, servirá de prova durante o processo: 

 

As imagens mostram algumas das agressões físicas sofridas pela vítima, como também o momento em que o segurança pega o celular de Roberto. “As maiores violências não são as físicas. São as verbais, que podem ficar com a gente durante meses e anos, diferente de qualquer machucado”, comentou. 

 

ATENÇÃO DO BLOCO
Além das agressões, Roberto Santos reclama que foi desassistido pela organização do bloco após a situação. “Fui até o carro de apoio onde a única medida tomada pelo bloco foi de passar álcool nas minhas feridas”, falou. “O Bloco Eva precisa ter mais cuidado com os seus foliões. Espero que a partir desse processo, eles saibam, no mínimo, indicar melhor e instruir os seus funcionários. O Carnaval de Salvador é múltiplo e plural. Uma coisa dessas não pode acontecer”, completou. 

 

 

 


Abadá de Roberto foi rasgado pelos agressores | Foto: Bahia Notícias

INDENIZAÇÃO
O fisioterapeuta contou ao BN que procurou a Justiça pela atitude “desumanizada que recebeu no bloco”. “A gente paga um bloco caro achando que esse tipo de coisa nunca poderia acontecer”, comentou.

 

Ana Amélia Moreira, advogada da Ramos & Moreira Advocacia e Consultoria, que cuida do caso, explicou que o bloco é responsável pelos bens, pertences e integridade física do folião que comprar o abadá. “Existe uma relação consumerista entre o folião e o grupo Eva, visto que há uma prestação que gera o vínculo obrigacional e a responsabilidade civil por conseguinte”, comentou. “Vale lembrar que o fornecedor de serviços tem responsabilidade objetiva, ou seja, independente de culpa. Assim, o consumidor não precisará sequer provar a culpa do fornecedor, bastando demonstrar apenas a ocorrência do dano”, completou. 

 

Em contato com o Bahia Notícias, o grupo Eva afirmou desconhecer qualquer informação sobre o processo e que, em tempo hábil, irá apurar as informações com o setor jurídico da empresa.

 

Pelos acontecimentos do caso, a Moreira escreve na petição que, sem dúvidas, o episódio foi um caso de homofobia. No processo, Roberto pede R$ 20 mil de indenização por danos morais e restituição dos valores gastos no Abadá (R$ 280), tratamento psicoterapêutico (R$ 3 mil), do celular quebrado (R$ 1.319 mil) e de medicações usadas nas feridas causadas pelo segurança (R$ 100). 

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