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Além de reféns dos caminhoneiros, brasileiros se tornaram vítimas do próprio egoísmo

Por Fernando Duarte

Além de reféns dos caminhoneiros, brasileiros se tornaram vítimas do próprio egoísmo
Salvador voltou a viver dias com ruas vazias | Foto: Renata Farias/ BN

A greve dos caminhoneiros chegou ao nono dia com ligeiros sinais de arrefecimento. Porém a mobilização não está mais sob controle das associações e sindicatos. As manifestações estão sendo coordenadas, basicamente, por grupos de WhatsApp que não seguem indicações de um poder central. O governo federal subestimou o movimento e se viu obrigado a ceder, às custas do bolso do contribuinte, a reivindicações dos grupos que ainda interrompem o tráfego nas estradas. Entretanto, a iminência do caos mostrou que uma parcela expressiva da população brasileira manteve adormecido o fantasma da hiperinflação da década de 1980 e aproveitou a má fase para libertar medos escondidos. Desde a última quinta-feira (24), quando a eventual crise de desabastecimento foi sinalizada em Salvador, por exemplo, houve uma verdadeira corrida aos postos de combustíveis e a indicação para que as pessoas armazenassem comida e gêneros básicos para evitar um cenário de terra arrasada. O WhatsApp, que ajudou os caminhoneiros a se mobilizarem, foi o mensageiro do caos e, ao longo dos últimos dias, um número inestimável de correntes e informações falsas passaram a circular com intensidade típica de momentos de crise. O suposto áudio do ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, chegou algumas dezenas de vezes. A informação de que os caminhoneiros eram agentes infiltrados da CIA planejamento um novo golpe militar outras centenas. E a defesa da intervenção militar como única saída viável para o Brasil deixar o buraco? Impossível contar quantas mensagens assim chegaram e saíram dos celulares de milhões de brasileiros espalhados por todo o país. O desabastecimento de combustível virou real após a busca intensificada dos motoristas – uma parte deles, no entanto, por uma questão de necessidade, admitamos. Parcela dos gêneros que sumiram dos supermercados deixaram as prateleiras pela falsa necessidade de estocar comida e água para a invasão zumbi que o Brasil estava prestes a ser vítima – podemos até ser presididos por um mordomo de filme de terror, porém desse mal da ficção não padecemos. Fora perecíveis, que realmente se tornaram um problema, há estoque de outros itens da cesta básica. Esse cenário lembra uma anedota familiar que mostra bem como os interesses pessoais se sobrepujam ao coletivo. No almoço de domingo, ao pedir para alguém passar um dos itens da mesa, um tio pegava primeiro um pouco e, em seguida, entregava a travessa. Aos risos, ele falava: “Não sei se volta, então deixa eu pegar o meu”. Se os caminhoneiros fizeram o país de refém, nos tornamos reféns do nosso próprio egoísmo. Este texto integra o comentário desta terça-feira (29) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior FM, Clube FM e Irecê Líder FM.