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Machismo na trilha: Guias mulheres da Chapada Diamantina relatam assédio e enfrentam boicote profissional

Por Amanda Cruz, de Seabra

Machismo na trilha: Guias mulheres da Chapada Diamantina relatam assédio e enfrentam boicote profissional
Foto: Acervo pessoal/ Joana Vilarinhos

A Chapada Diamantina, referência em turismo de aventura, revela um cenário complexo para as mulheres que atuam na linha de frente do ecoturismo. Longe da narrativa da aventura perfeita, a realidade das guias é marcada pelo silenciamento sistêmico, onde o assédio, o boicote profissional e a descredibilização técnica formam uma barreira que muitas vezes torna invisível o trabalho daquelas que conduzem visitantes por trilhas, travessias e até mesmo em situações de combate a incêndios.  

 

A guia de ecoturismo Patrícia Ferreira relata que existem regras informais, impostas pela sociedade, que tentam limitar a presença feminina no setor. "Quando conseguimos superar barreiras e ocupar espaços, ainda nos é exigida uma feminilidade performática. Existe uma preferência nítida das agências por guias homens, especialmente em travessias longas, sob a justificativa de que exigem maior esforço físico. Quando adoto uma postura firme e direta, sou rotulada como agressiva ou problemática; o interesse é que eu mantenha o silêncio e não apresente senso crítico". A profissional acrescenta que a desigualdade reflete na remuneração: "Frequentemente, temos que provar o dobro da competência para receber a metade da remuneração".  

 


Patrícia Ferreira relata desigualdade no tratamento entre homens e mulheres | Foto: Acervo pessoal

 

O peso dessa descredibilização também é sentido pela guia de ecoturismo Joana Vilarinhos. "Existe uma preferência das agências por guias homens para liderar grandes grupos e travessias longas, baseada em uma visão de força braçal. Essa percepção associa a capacidade de liderança a um visual imponente, com homens altos e fortes. Já presenciei turistas ficarem desorientados ao descobrirem que uma mulher lideraria a expedição, como se a capacidade técnica fosse relativa à aparência física ou à massa muscular". Além das dificuldades técnicas, Joana descreve um ambiente onde o silêncio é uma moeda de troca: "Há um esforço visível por parte de alguns setores para camuflar denúncias de assédio. Já fui abordada com o argumento de que falar sobre feminismo ou assédio no ecoturismo 'assusta o turista' e prejudica o setor. Minha posição é a de que o que afasta o turismo não é a denúncia, mas a falta de controle de profissionais que desrespeitam as normas de conduta".  

 


Patrícia Ferreira denuncia preferência de agências por guias homens | Foto: Acervo pessoal

 

Nas sombras desse cenário, o silêncio ecoa com a mesma intensidade das vozes que conseguimos registrar. A recusa de diversas profissionais em falar abertamente sobre o tema, revela que não estamos diante de uma lacuna de conteúdo, mas por uma barreira imposta pelo medo. Esse silêncio forçado ilustra um ambiente de censura e retaliação, onde a pressão exercida por operadoras e colegas de profissão atua como uma engrenagem de controle, punindo quem ousa questionar a estrutura vigente e tornando a denúncia um ato de rara coragem. 

 

A ausência de segurança em territórios remotos é outra faceta dessa jornada solitária das mulheres na Chapada. A guia de ecoturismo Izabelle Brandão aponta que, diante da falta de protocolos formais de proteção, a estratégia de defesa acaba sendo individual. "Até o momento, não conseguimos estruturar um protocolo de segurança coletivo para enfrentar situações de invasão ou assédio. Atualmente, a estratégia mais eficaz que adotamos é o registro em vídeo, que serve como uma garantia de direito em casos de desrespeito ou comportamento inadequado". Izabelle ainda pontua como o preconceito se infiltra até nos espaços que deveriam ser de apoio:

 

 "Já fui questionada em minha autoridade técnica, não apenas no trekking, mas também no combate a incêndios, partindo de outras mulheres. Infelizmente, faço parte de uma associação cujo estatuto inclui cláusulas de proteção que eu mesma solicitei, mas as mulheres preferem pedir ajuda aos homens e às brigadas masculinas do que dar ênfase ao conhecimento que possuo desde 2012 em combate a incêndios".  

 

Apesar dos obstáculos e do estigma de serem vistas como "problemáticas" por não se submeterem ao status quo, essas mulheres seguem ocupando os caminhos da Chapada Diamantina. O trabalho delas, que une a condução de grupos ao enfrentamento diário de um machismo estrutural, desenha um cenário onde a beleza das trilhas contrasta com a dura realidade de quem, para guiar o caminho dos outros, precisa primeiro abrir o seu próprio espaço no mercado.