Quinta, 13 de Agosto de 2020 - 00:00

Esquema em Barra do Mendes desviou mais de R$ 372 mil em contratações fantasmas

por Lula Bonfim / Lucas Arraz

Esquema em Barra do Mendes desviou mais de R$ 372 mil em contratações fantasmas
Cadeirante, Jefferson foi contratado como pedreiro | Foto: Arquivo Pessoal

Jefferson dos Anjos Santos é morador de Barra do Mendes, cadeirante, possui atrofia das mãos e recebe auxílio previdenciário há mais de 10 anos, por impossibilidade de trabalhar. Entretanto, aparece como contratado pela prefeitura, para atuar como pedreiro em obras de recuperação do calçamento no povoado de Antari. Como isso é possível? A prefeitura do município tem muito o que explicar. Segundo documentos adquiridos e relatos recebidos pelo Bahia Notícias, ele integra, desde 2016, uma lista de pelo menos 39 funcionários fantasmas contratados pela prefeitura barramendense. Um levantamento inicial aponta que mais de R$ 372 mil podem ter sido desviados dos cofres públicos do município.

 

Por conta disso, Jefferson precisa lidar diariamente com piadinhas de outros moradores da cidade. “Trabalhei em 2004 para a prefeitura, mas nunca para essa gestão. Nunca nem fui ao prédio da prefeitura. Meu irmão entrou no portal da transparência e descobriu pagamentos de até R$ 3 mil. É uma situação constrangedora. Na rua, fazem gozação comigo. Pedem para eu construir algo ou pintar uma parede. Essa situação ainda pode prejudicar o recebimento do meu INSS”, declarou ao Bahia Notícias.

 

Entre os laranjas utilizados no esquema de funcionários fantasmas, há também pessoas que já morreram. Filadelfo Alexandrino da Silva foi vereador de Barra do Mendes, mas faleceu em 18 de agosto de 2018. Apesar disso, seu nome consta como recebedor de diversos valores da prefeitura em 2019 e 2020, referente a contratos de prestação de serviço como pedreiro, em obras de recuperação do calçamento no povoado de Antari. O mesmo ocorreu com Joaquim Mendes de Oliveira, que também está morto e não pode se defender.

 

No momento que algumas pessoas perceberam que estavam sendo utilizadas como laranjas para desvio de dinheiro público, começaram a denunciar a fraude através das redes sociais. As vítimas das fraudes encontraram em Juan Pereira, dono de uma página no Facebook sobre Barra do Mendes, um importante apoio nas denúncias. Há ainda o advogado Israel Ferreira Martins, que representa juridicamente o grupo de moradores utilizados no esquema. Por isso, tanto influenciador local quanto o defensor passaram a receber ameaças por telefone.

 

Em áudio recebido pelo BN, é possível ouvir um interlocutor não identificado jurando de morte o advogado das vítimas. “Eu sou o cara que lhe vende pó, para você vender. Só que você está mexendo com a minha família. Eu vou lhe matar. A casa caiu. Eu sei que é você que está fazendo isso aí. E sei que você está gravando”, disse o criminoso, que insinua estar acompanhando o dia-a-dia de Israel. “Eu já lhe vi duas vezes aí esta semana. Não vai ser agora. Vai ser após a eleição. Fique tranquilo. Está dado o recado. Se você aparecer de hoje em diante, eu lhe mato”, ameaçou o interlocutor, antes de desligar o telefone.

 

A subseção de Irecê da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) emitiu, na tarde desta quarta-feira (12), uma nota de preocupação e repúdio acerca do caso. Segundo a Ordem, uma ocorrência policial foi registrada na delegacia de Barra do Mendes na última segunda-feira (10) acerca da ameaça recebida por Israel. Na terça (11), a Seccional Bahia, com sede em Salvador, foi chamada para colaborar com o caso e acompanhar as investigações. A OAB de Irecê disse ainda que não vai tolerar que tais atos tentem intimidar ou dificultar a atuação profissional dos advogados. “A advocacia não se acovardará com a ameaça de criminosos”, declarou a subseção.

 

DEFESA

Em nota, a prefeitura de Barra do Mendes se disse “surpreendida” com as notícias de “supostos pagamentos irregulares realizados pelo município”. A gestão municipal afirmou ter determinado a imediata autuação de um processo administrativo de auditoria, bem como a instauração de uma sindicância para elucidar os fatos. “A apuração dos fatos será dotada de ampla publicidade e transparência, observando as normas e os ditames do Direito Administrativo e Contabilidade Pública, assegurando o direito constitucional de ampla defesa das pessoas que tiverem os nomes envolvidos em pagamentos irregulares”, disse a administração.

 

O prefeito Armênio Sodré Nunes, mais conhecido como Galego (MDB), está no seu segundo mandato e não pode mais se candidatar. Procurado pelo Bahia Notícias, ele também se disse surpreso pelas denúncias, mas afirmou que contratará uma empresa de auditoria para apurar o caso. “Vamos apurar e, identificados os envolvidos, puniremos, com certeza. Nesses anos de gestão, eu não tive uma prestação de contas reprovada. Fomos eleitos por grande vantagem em 2012 e, em 2016, aumentamos essa vantagem. Não duvido que essas acusações tenham a ver com a proximidade das eleições”, disse.

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