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Terça, 22 de Fevereiro de 2022 - 11:10

João Gualberto, prefeito de Mata de São João

por Anderson Ramos / Francis Juliano

João Gualberto, prefeito de Mata de São João
Foto: Marina Nadal / Bahia Notícias

O prefeito de Mata de São João, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), João Gualberto (PSDB), aguarda a definição da chapa de ACM Neto com a expectativa de sentar na janela. Para ele, não importa se o lugar é de postulante a vice-governador ou de senador.

 

"Pode ser vice, pode ser senador [...] desde 2002, estamos juntos, em todas as circunstâncias", disse em entrevista ao Bahia Notícias. Para este ano, o também empresário declarou que mantém a fé no crescimento da chamada terceira via. "Eu rezo todo dia para que nós brasileiros não fiquemos na opção de ter de votar em um e outro, Bolsonaro e Lula", se queixou.

 

Na entrevista ao BN, Gualberto especulou também sobre as chances eleitorais do PSDB baiano, desconfiou da federação partidária, criticou o PT, lembrou de uma “ajuda” aérea a Jaques Wagner (PT) e passou por temas como educação, Marcelo Nilo (PSB), Covid-19, entre outros. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

 

Foto: Marina Nadal / Bahia Notícias

 

Mata de São João recebeu destaque nacional recentemente sobre o uso de câmeras de reconhecimento facial no acompanhamento dos estudantes. Como surgiu essa ideia?

A educação sempre foi minha prioridade. Desde 2005, no meu primeiro mandato, quando encontrei o município, ele era o último colocado no Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] da região metropolitana. A educação quase não existia. A gente teve muito desafio no início. Para você ter ideia, todas as escolas do município, a partir de 2005, foram construídas 90% por mim e 10% por Marcelo [Oliveira]. Neste mandado novo, o grande desafio é não fazer mais do mesmo. E o reconhecimento facial é nada mais nada menos do que uma ferramenta para dar mais agilidade aos professores. Quando o aluno entra, ele já é logo reconhecido. O reconhecimento facial também dá segurança aos pais, porque é emitido um SMS, então ele sabe se o aluno está na escola, se atrasou, se teve alguma coisa, e os pais podem entrar em contato com a escola. Toda a estrutura da escola e da secretaria fica sabendo quando os alunos estão presentes, para preparar, por exemplo, a merenda.

 

O retorno às aulas em Mata de São João teve algum impacto na saúde local?

Foi tranquilo. O maior impacto foi no ano passado. Tinha uma pressão maior da sociedade. Eu acho que os políticos cometeram alguns erros, e muitos deles até intencionais, querendo se respaldar apenas em pesquisas. Agora, nesse momento, tem município que não retornou as aulas ainda. É um absurdo. Ano passado, nós começamos com 40% dos alunos em abril e terminamos o ano com 90%. 

 

A adesão dos pais foi positiva?

Neste ano foi muito positiva. Nós começamos desde o dia 24 de janeiro, com movimento na cidade, carreata, bandeiras. Fizemos jornada pedagógica com os professores, encontro com os pais na Casa da Cultura, mostrando a importância da ação. Movimentamos a cidade para acordar as famílias. As aulas começaram com a distribuição de material escolar. E foi um sucesso. Voltamos no dia 31 de janeiro, quando historicamente os colégios voltam em fevereiro. A adesão dos pais, surpreendentemente, foi muito grande. E agora, as pessoas já não estão muito preocupadas com a Covid-19. As pessoas estão entendendo que é como se fosse gripe. Teve aquele pico, já começou a cair, agora quase ninguém foi internado. E o mundo todo está assimilando que a doença passa a ser uma gripe.

 

O senhor anunciou um reajuste na semana passada para os servidores. Com esse reajuste, o município pode fechar o ano no vermelho?

Não, não. Tudo que a gente faz é calculado. Nós fizemos uma revisão geral de salário. Isso vai gerar um aumento da folha de pagamento, mas o que eu entendi é que como o ano passado não teve aumento, a inflação foi de 5% em 2020 e 2021, então, o mínimo que eu podia dar era 10% de aumento para todos os servidores. Lógico que tem um impacto grande na folha, e ainda vai ter o pagamento do piso dos professores, mas nós fizemos todo um trabalho de gestão do município, de economizar o máximo possível, fazer cada vez mais com menos. Isso sempre foi o meu lema. É o que sempre pratico nas minhas empresas. Nós fizemos todos os cálculos e assim foi possível fazer essa revisão geral nos salários.

Foto: Marina Nadal / Bahia Notícias

 

Falando sobre turismo, Salvador registrou um aumento considerável em janeiro. Em Mata de São João como tem sido a procura e qual a expectativa da prefeitura para esse verão já em curso?

No ano passado, nós fomos na contramão de alguns municípios da região metropolitana, em função do governador querer fechar todo o comércio, mas a gente percebia que tinha duas coisas a fazer, observar a ciência e o emprego também. Então, o ano passado, os comerciantes de Mata de São João sofreram menos, principalmente os de turismo. Os restaurantes não ficaram fechados. A gente foi muito mais tolerante, e acompanhava a quantidade de pessoas contaminadas na cidade proporcionalmente às cidades vizinhas, como Lauro de Freitas e Camaçari, que fecharam quase tudo. A gente não estava pior do que ninguém. E esse ano, o verão tem sido ótimo. Aliás, o turismo no Brasil esse ano, como um todo, foi bom. As pessoas deixaram de viajar para fora por conta da dificuldade da Covid-19 e também do dólar alto e fizeram o turismo interno muito forte neste ano.

 

Voltando à questão dos salários, o senhor falou que vai cumprir essa semana o piso dos professores. 

Vai ser pago já em fevereiro o reajuste, os 33%.

 

Qual a sua visão sobre isso?

Foi uma determinação federal política. É um momento de eleição e Bolsonaro se aproveitou disso, porque de fato aumentou o repasse do governo federal para os municípios. Mas a deficiência da educação no Brasil e na Bahia, que é uma das piores do país, é muito grande em todos os aspectos. Em tecnologia, em prédios, estrutura física, e parte desse dinheiro deveria ser gasto de outra maneira. Então, os municípios vão ficar sufocados. Vão dizer: ‘vou pegar esse recurso e investir todo na folha’. Eu acho que salário tem que ser sempre compatível com o mercado. Eu sempre digo para os servidores, ‘aqui ninguém vai ganhar nem menos nem mais de que a média do mercado’. Não pode deixar o setor público muito diferente do setor privado. Mas o presidente quis fazer essa demagogia, paciência. 

 

Falando de política, no caso eleição, o senhor está sendo cotado para participar da chapa majoritária de ACM Neto. Como estão as conversas e qual vaga o senhor ocuparia em uma provável composição?

Essa conversa tem acontecido desde o ano passado, mais até em função do tamanho do PSDB, da relação do PSDB com ACM Neto. Desde 2002, estamos juntos, em todas as circunstâncias. A pessoa que encabeça a chapa majoritária leva em conta várias variáveis para escolher os nomes dos candidatos a senador e vice-governador. Eu acho que até o final de março, início de abril, vai ser definido. Tem alguns nomes, a imprensa mesmo está falando. A gente está conversando. Bom, eu participei de cinco campanhas majoritárias em Mata de São João, três como prefeito e duas com Marcelo, que foi meu vice-prefeito. Eu participei na composição da chapa, e sempre no meu caso, cada pessoa pensa diferente, eu via meu vice como uma pessoa da minha relação, uma pessoa que sempre estava comigo, que ajudava na gestão pelo mérito. A politicagem miúda, isso não faz parte do meu dia a dia. Isso eu não faço. Eu acho que estou na politica para melhorar a vida das pessoas. Tem político que muitas vezes pensa muito na reeleição. Eu não penso nada disso, honestamente. 

Foto: Marina Nadal / Bahia Notícias

 

Mas qual vaga na chapa o senhor gostaria de ocupar: vice ou senador?

Pode ser vice, pode ser senador. Quando eu deixei de ser deputado, eu disse que não voltaria mais para Brasília e tal, mas não voltaria para ser deputado. Acho que o senador tem um papel, faz parte de um grupo menor, 81 pessoas, e assim dá para fazer mais. Na Câmara, são 513 deputados. É difícil expor suas ideias. Ser vice de ACM Neto seria ótimo também. Ele mostrou como prefeito e antes como deputado o que é capaz, e o que ele fez em Salvador foi surpreendente. Ele entrou em um momento de crise, sem apoio do governo federal e estadual, e fez um bom governo da cidade, e o povo sabe exatamente como ele pegou Salvador e como ele deixou a cidade.

 

Um fato político que tem movimentado este início de ano na Bahia é a situação do deputado federal Marcelo Nilo. Como o senhor enxerga a chegada dele na base de Neto, e se ele teria algum lugar na composição majoritária?

Eu não gosto muito de falar do nome de outras pessoas. Ele deve ter seus motivos para deixar a base onde ele estava. Talvez ele achou que cansou ou ficou frustrado, decepcionado, com a turma. Espero que seja por isso, que não seja por oportunismo. Acredito, realmente, que cansou e percebeu tardiamente que a turma lá não é boa de trabalho.

 

O senhor acha que ele tem cacife para se garantir em uma vaga na majoritária de Neto?

Isso quem vai decidir é Neto. Eu pouco o conheço. Para ser muito honesto, eu nunca tive trato com ele. Ele sempre foi oposição por outro lado. Então, honestamente, eu não posso falar muito sobre ele. Ele não administrou, não foi prefeito, não foi govenador, sempre foi deputado. 

 

Na eleição de 2018, se falou que o senhor chegou a oferecer seu jatinho a ACM Neto caso ele fosse candidato ao governo. Neste ano, o senhor vai colocar à disposição dele o uso da aeronave? Outra coisa: o senhor acha que a campanha dessa eleição vai ser mais cara?

Eu desconheço essa oferta de jatinho, mas na verdade quem viajou quase um ano com meu avião foi Wagner. Em 2006, Wagner fez a campanha toda com meu avião. Um amigo comum me pediu o avião e, mesmo apoiando e sendo amigo de Paulo Souto, eu entendi que ele [Wagner] ia perder feio, ia ter 20% dos votos, então meu avião não ia fazer nenhuma diferença. Emprestei o avião por um ano, sem ter nenhuma relação com ele. Eu, na minha inocência daquele momento, achei que podia equilibrar mais a eleição. É um arrependimento que eu tenho. A gente achava que Paulo Souto ia ganhar no primeiro turno, disparado. Infelizmente, o resultado foi diferente. Até o dia que ele ganhou a eleição, ele viajou para Palmeiras com meu avião. E ele, Wagner, já falou isso que começou a campanha em meu avião. Eu emprestaria meu avião a qualquer pessoa, mas tem que ter um motivo. Naquele momento, em 2006, o motivo seria equilibrar a eleição, mesmo apoiando Paulo Souto.

 

O senhor se arrepende mesmo de ter emprestado o avião a Wagner?

Não me arrependendo de nada que faço. Não mudei a história. Se fosse decisivo para ele ganhar a eleição, eu me arrependeria.

 

Hoje, o PSDB baiano só tem um representante na Câmara dos Deputados, e o senhor já falou que não pretende voltar para a Câmara. Então, como aumentar a bancada do PSDB na Câmara Federal?

Tenho certeza que nessa eleição, a gente deve fazer três deputados. Nosso pensamento é que Adolfo [Viana] vai ser o puxador de voto, mas vai ter várias pessoas que querem se eleger com 30, 40 mil votos. Com isso, dá para sair da forma que estamos conversando. Com o fim da coligação, as pessoas vão se juntar em algum partido com esperança de se eleger com 30, 40, 50 mil votos.

 

O senhor acha que com as federações partidárias, as disputas podem se tornar mais competitivas dentro do próprio PSDB?

O PSDB tem conversado sobre federação partidária com o próprio MDB, Cidadania, então pode existir. E agora com a prorrogação até 31 de maio, dá mais tempo de as coisas se arrumarem. Na verdade, vai ocorrer um arranjo. Não deveria ter as federações, porque na verdade a quantidade de partidos que tem aqui é anormal. Não tem sentido. Não temos 30 ideologias. É impossível ter isso. Na verdade, tem partido para servir ao grupo ou ao coronel daquele núcleo político. Com a cláusula de barreira, feita na reforma eleitoral de que participei em 2017, eu acho que melhorou muito. As federações não prejudicam tanto. Você vê que todo mundo está tendo dificuldade para fazer federação, porque tem que valer pelos próximos quatro anos, mas tem gente já de olho na eleição de daqui a dois anos, para prefeito e vereadores, que vão ter que estar juntos. As federações vão servir como uma prévia de uma fusão. 

 

O senador Aloysio Nunes disse recentemente que foi um erro o antipetismo de 2018. A gente sabe que parte da direita apoiou Bolsonaro. O senhor considera também isso um erro e, caso o senhor tenha votado em Bolsonaro, se arrepende desse voto?

Eu respeito muito Aloysio, mas se ele foi antipetista, eu não fui. Você tinha a situação de um partido que criou uma organização criminosa muito grande, e eu não banalizo a corrupção. Eu participei de várias CPIs, a da Petrobras, a da JBS etc, quando fui deputado, e eu percebi o estrago que foi, no caso, o PT. Quer dizer, se ele foi antipetista, eu não fui porque não vou banalizar a corrupção. Então, a situação do Brasil é difícil porque você tem um presidente que criou e formou uma organização criminosa. Foram milhões e milhões devolvidos aos cofres públicos frutos de corrupção. E hoje, o presidente é fora do normal. Um cara que realmente é muito difícil. Eu rezo todo dia para que nós brasileiros não fiquemos na opção de ter de votar em um e outro. Ainda acredito muito na terceira via. Tem muito tempo ainda pela frente. Nós temos alguns candidatos prontos, como Ciro [Gomes], [João] Dória, Simone Tebet, [Sérgio] Moro. E eu acho que esses quatro são muito melhores que os outros dois. E espero que eles, mais na frente, com as pesquisas avançando e a época da eleição chegando, eles se juntem em uma pessoa. Eu creio muito que vai ter mudança. 

Foto: Marina Nadal / Bahia Notícias

 

O cenário político nacional pode influenciar nas eleições na Bahia? Neto demonstra que não pretende dar palanque a ninguém. Isso pode prejudicar a campanha dele?

O PT tem falado muito nisso, mas uma coisa era a eleição de 2012, que ele estava sozinho, não tinha apoio, e que diziam que não conseguiria andar com as próprias pernas. Mesmo que agora tenha uma eleição casada com a de presidente, as pessoas estão preocupadas com a Bahia e vão votar em Neto, em Ciro, em Moro, em Dória ou votar em outros candidatos. Até alguns que votam em Bolsonaro ou em Lula, vão votar em Neto. Eu acho que o sentimento que vejo é esse. As pessoas querem decidir quem vai ser o governador, independente de quem vai ser o presidente. Eu acho que a gente vai conseguir passar essa eleição que vai ser diferente das outras, até pelo perfil do candidato Neto, pela competitividade que ele mostra, pesquisa, pelo que ele fez, eu acho que vai ser diferente um pouquinho das outras eleições. 

 

O que Neto deveria adotar para vencer essa eleição de 2022?

Eu acho que ninguém ganha nem perde eleição por um fato, mas por um conjunto de fatores. Eu acho ele uma pessoa muito preparada, não só na gestão pelo que ele fez na cidade, como politicamente pela habilidade que ele tem. Ele é a segunda pessoa do maior partido do Brasil, que é o União Brasil. Eu acho que ele está no caminho certo. Ele quer focar na eleição da Bahia. Acho que essa é a grande questão. Enquanto alguns querem andar na garupa de um candidato a presidente, Neto quer andar sozinho como candidato a governador. E em relação a presidente, ele não tem ninguém como amuleto para ele. Então, ele tem que focar na Bahia e é a Bahia que interessa aos baianos.

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