Ricardo Machado, prefeito de Santo Amaro
Foto: Milena Abreu / Bahia Notícias
Candidato a presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), Ricardo Machado (PT) joga todas as fichas para se eleger presidente da entidade nesta quarta-feira (14). Oposição à atual mandatária da UPB e candidata à reeleição, a prefeita de Cardeal da Silva, Maria Quitéria, Machado tem reforçado o marketing com apelo à amizade com o governador, Rui Costa, e à família do chefe do executivo estadual. Mesmo com a neutralidade de Rui que não apoia nenhum dos lados. Para o santamarense, a proximidade com o governador incomoda a adversária. “Eu não tenho culpa de ter bons amigos, como a gente não tem culpa de os irmãos do governador serem meus amigos também”, disse ao Bahia Notícias. As principais propostas de Ricardo Machado são a valorização do setor de projetos, que para ele tem uma estrutura “acanhada” e o que chama de “previdência jurídica”, uma espécie de socorro a ex-prefeitos que respondem a processos administrativos (sem dolo) e que já estejam fora da estrutura política. Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Porque o senhor está concorrendo à UPB e o que o senhor acha que pode lhe levar a ser presidente da entidade?
Primeiro, acho que a gente consegue chegar à vitória por conta das adesões que tem recebido. De prefeitos amigos, deputados da base do governo, deputados que conhecem o nosso trabalho, deputados que eu, de certa forma, contribuí para eles chegarem aos seus pleitos. E depois tem a alternância do poder, na UPB nunca houve reeleição. A nossa chapa está combatendo isso. Está na nossa plataforma de proposta acabar com a reeleição na UPB. Queremos dar transparência à Casa. Hoje, a UPB é administrada como se fosse uma empresa de sociedade mista. A UPB é uma empresa pública. Até porque os recursos que chegam à UPB são oriundos da contribuição dos Municípios, que são entidades públicas. Além disso, tenho uma vontade muito grande de investir no setor de projetos. Acho que o viés principal para que a gente possa trabalhar para ajudar os municípios é levar recursos e você só consegue atraí-los através de projetos. O formato que está dentro da UPB é muito acanhado do ponto de vista do setor de projetos. A gente precisa dar uma ampliada nesse núcleo, aumentando significativamente o número de funcionários. São duas metas, uma de curto e outra de longo prazo: a primeira é fazer projetos genéricos, que você possa chegar nos municípios e alocar em qualquer terreno.
Exemplifique.
É o caso de uma creche, uma escola, um posto de saúde, uma UPA [Unidade de Pronto Atendimento], uma praça, reformas. Então, você prepara um cesto de projetos genéricos, e com isso coloca em municípios que estão preparados para ter esses projetos. Você já coloca dinheiro extra para esses municípios em 2015. Já os projetos de longo prazo são aqueles que o prefeito terá de discutir com setores específicos, tipo uma ponte, uma rua. Então, isso já será uma primeira marca de nossa administração que é colocar recursos esse ano nos municípios.
E a proposta de auxílio jurídico para ex-prefeitos? Como será isso?
Nós iremos criar a previdência jurídica para ex-prefeitos. A partir de janeiro de 2017, nós prefeitos – principalmente os que foram reeleitos como é o meu caso e o da minha adversária – e a UPB ficará responsável pelos processos que nós vamos herdar. Ou seja, nós não vamos nos preocupar de voltar para a nossa vida privada e ter que pagar para poder se defender, além de custos de processos, diárias de viagens, etc. A gente batizou esse projeto de “Previdência Jurídica”. Isso só vai valer a partir de janeiro de 2017. Isso vai fazer também que os municípios que estão fora da UPB passem a se tornar associados e comecem a regularizar sua situação.

Mas isso vai criar gastos, não?
Não vai criar gastos porque só vai valer para ex-prefeitos que estiverem fora do mandato e que não sejam convocados para trabalhar no estado ou até por uma prefeitura da sua cidade. Vai valer para um prefeito que esteja desempregado ou que volta para ser professor, jornalista, bancário. O que acontece hoje com os políticos do Poder Executivo? Quando você deixa o mandato, ele herda uma centena de processos. E esses processos na maioria não tem dolo. Aquele em que for comprovado a inexistência de dolo, a UPB vai cuidar. Ou seja, só vai valer para ex-prefeitos que estejam fora de mandato eletivo ou de nomeação.
O senhor tem usado na campanha a amizade com o governador Rui Costa como fator importante. No entanto, Rui até o momento não se pronunciou abertamente a favor da sua candidatura. Como o senhor vê isso?
Isso aí faz parte de uma campanha. Todo político que tem relação com líder maior, usa isso. Agora, a minha amizade é pessoal, como tem prefeito aqui na Bahia que tem relação com outros políticos. Eu não vou esconder isso porque de fato ele é meu amigo, mas não vou usar isso como bandeira de campanha, até porque ele não vai se posicionar, ele fica em uma situação delicada. Foram 377 prefeitos que apoiaram o candidato e agora governador Rui, e os dois que estão disputando a UPB o apoiam. Agora, eu tenho uma relação com ele e isso incomoda alguns políticos.
Incomoda Quitéria?
Acredito que sim. Apesar de ela também ser amiga de Rui. Agora, você não mede a amizade. Infelizmente, as pessoas tentam distorcer isso para me prejudicar, e eu não tenho culpa de ter bons amigos, como a gente não tem culpa de os irmãos do governador serem meus amigos.

Então, o senhor recebe com tranquilidade a posição do governador de não apoiá-lo abertamente?
Com certeza. Eu já venho de várias eleições. Inclusive, disputei a eleição na minha cidade contra um político que o Brasil todo conhece, que foi um anão do orçamento [Genebaldo Correia]. As pessoas diziam que eu não iria ganhar porque ele era renomado, muito experiente. Disputei a eleição contra Antônio Carlos Magalhães. Medo de brigar, eu não tenho. Agora, as pessoas tentam rotular a gente pelo que a gente conquistou. Eu digo o seguinte: se você tem inveja, ou está querendo distorcer isso, você deveria procurar me conquistar. Na vida, a gente faz amigos e inimigos. Eu procuro trilhar a minha vida política e pessoal construindo boas amizades. É o caso do ex-governador Jaques Wagner, do senador Otto Alencar, da senadora Lídice da Matta, do senador Walter Pinheiro. Isso, não quer dizer, que eu tenho, e os outros não têm. Agora, essa questão de estar medindo quem tem mais amigos fica parecendo uma queda de braço.
A presidente e candidata Maria Quitéria disse que depois das eleições essas possíveis rusgas vão acabar. O senhor tem alguma briga pessoal com ela?
Sem dúvida. Quitéria é uma colega perfeita também, inclusive, faz parte da base do governo. Eu não tenho rusga nenhuma com ela, nem agora, nem terei depois para poder cicatrizar. O que a gente está fazendo é disputar uma eleição. Acredito que quando acabar a eleição, como em uma disputa de futebol, a gente vai acabar saindo abraçado. Essa disputa não é igual a um vale tudo, que o cara se quebra, dá murro, dá chute, e depois abraça o outro. Não vai ser dessa forma.

Recentemente o senhor foi condenado pelo Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) que lhe puniu por gastar demais em festas. O senhor acredita que isso pode prejudicar sua candidatura? E também como avalia a atuação do TCM?
Olha, o TCM é um colegiado técnico e julga as contas dos municípios de forma muito técnica, o que seria necessário conhecer a realidade de cada lugar. Por exemplo, Santo Amaro é uma cidade que é berço cultural da Bahia. Só para se ter ideia, neste sábado (10) vão ser realizadas cinco festas em minha cidade e se eu deixar de realizar uma, vou criar uma série de problemas com a comunidade. Santo Amaro é a única cidade em que existem duas Santas Casas de Misericórdia, todas duas com mais de 300 anos. Quando se julga uma cidade, é preciso ver as particularidades de cada uma. Eu saio nesse mês de janeiro com aproximadamente oito festas populares. É uma atrás da outra e são festas da Igreja Católica. Sem falar da Festa da Purificação, que são nove dias de festa, que tem um novenário, que tem uma visibilidade muito grande. Além disso, tem a festa do Bembé do Mercado, tem a festa do Porto, que é um campeonato que reúne mais de 500 canoas de pescadores. Na posição que estou é muito difícil cortar algumas coisas. E essa questão de contas rejeitadas, infelizmente aquele tribunal tem muita coisa para poder melhorar. Todos os prefeitos falam disso, e eu também não tenho medo de dizer que ali é a casa dos dois pesos e duas medidas.
Como o senhor está na reeleição, o que pretende fazer quando terminar o mandato na prefeitura de Santo Amaro?
Olhe, quando Rui se elegeu governador foi ventilado que eu seria chamado para alguma secretaria. No entanto, eu tenho um compromisso com o povo de Santo Amaro, eu sou o primeiro prefeito reeleito da cidade, por isso não poderia dar esse desgosto à população. Quero estar à frente da UPB porque a minha cidade cresceu assustadoramente em relação às cidades da Bahia, e por isso eu gostaria de contribuir com essa experiência que adquiri durante esses seis anos, com a amizade que eu tenho no governo, para essas cidades que vivem basicamente do recurso do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
