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Quinta, 30 de Julho de 2015 - 10:50

Eures Ribeiro, prefeito de Bom Jesus da Lapa

por Francis Juliano

Eures Ribeiro, prefeito de Bom Jesus da Lapa
Foto: Dilvulgação
Na pior estiagem do São Francisco em 70 anos, o prefeito de Bom Jesus da Lapa, Eures Ribeiro (PV), não faz outra coisa senão clamar pelo rio. “É a maior seca”, lamenta em entrevista ao Bahia Notícias. A bronca dele é que ninguém deu ainda a devida atenção ao problema, no caso os governos estadual e federal. “Não há nenhuma política do governo para resolver isso”, critica. Se nada for feito, na visão do gestor, o rio pode virar riacho e comprometer a economia regional. A pressa de Eures tem a ver também com a proximidade da estação seca, que está em cima. Os meses de agosto e setembro podem piorar o que já é realidade e ocasionar um quadro mais aterrador para a região. “Eu diria que 70% de nossa economia é ligada direta e indiretamente ao rio. A morte dele será uma catástrofe generalizada”, vaticina. Veja abaixo a entrevista na íntegra:

Qual é a atual realidade do Rio São Francisco e o que está em jogo neste momento? Parece que há coisa de 70 anos o rio não chegava ao nível de hoje?
É a maior seca que nós registramos. E olha que nem chegou o momento mais seco da região, ou seja, os meses de agosto e setembro, em que o nível do rio baixa muito. Hoje, já está muito baixo. Imagina quando chegar nesses meses. Tem cidades vizinhas já com muitas dificuldades para captar água do rio. No local que captava antes, não tem mais água. Tem que abrir vala onde era o rio para poder conseguir água. Isso ocorre em Bom Jesus da Lapa, Paratinga, Serra do Ramalho. Todas vivem essa realidade. E não há nenhuma política do governo para resolver isso.
 
Mas não existe nenhum ensaio em tentar resolver esse problema?
Nada. Para você ter uma ideia, dentro do projeto de transposição, o governo tem este ano em torno de R$ 110 milhões, mas para a revitalização do São Francisco não conseguiu executar R$ 1 real sequer. 
 
O senador Otto Alencar apresentou um projeto no Senado para a revitalização do rio. Como o senhor tem acompanhado essa iniciativa? O projeto é mesmo satisfatório?
Nós estamos articulando uma sessão no Congresso Nacional para poder discutir a questão do São Francisco com as autoridades. Porque ninguém fala mais do rio. Eu pedi ao senador Otto para articular essa sessão especial, junto com prefeitos e demais autoridades, para poder encontrar um norte. A morte do rio é uma catástrofe para as cidades que dependem dele.
 
Qual o impacto da piora do nível do São Francisco na economia dos municípios, principalmente em Bom Jesus da Lapa?
Olha, impacta não só no consumo de água, mas na atividade de pesca e irrigação. A Lapa [Bom Jesus da Lapa] hoje é o maior produtor de mamona. Sem o rio, não há como fazer essa irrigação. Eu diria que 70% de nossa economia é ligada direta e indiretamente ao rio São Francisco. Isso também impacta em Carinhanha, Paratinga, Juazeiro, entre outras cidades. É uma catástrofe generalizada.
 


 
A quem o senhor responsabilizaria esse problema?
Eu acho que nós seres humanos, em geral, desrespeitamos muito o meio ambiente e não medimos as consequências. Nós criticamos o governo federal, mas todos nós temos uma co-responsabilidade. Os prefeitos têm responsabilidade em fazer políticas voltadas para o rio e a própria sociedade também tem sua cota de participação. 
 
O senhor acredita que os prefeitos da região estão bem articulados para enfrentar essa problemática do rio, para encampar essa defesa do São Francisco?
Estão iniciando de forma lenta por conta da necessidade. Do ano passado para cá, aumentou a preocupação dos prefeitos devido à diminuição do nível do rio, porque baixou bastante o volume. Os prefeitos estão vendo que não era uma profecia quando se falava que o São Francisco iria secar, mas é uma realidade concreta que está muito próxima de nós. Infelizmente, nós, seres humanos, só aprendemos a valorizar quando podemos perder o que temos. Para você ter uma ideia, nós tivemos uma passeata em Lapa em prol do rio que deu oito mil pessoas. No ano anterior, não dava 50 pessoas.
 
O município de Bom Jesus da Lapa já está com a situação de emergência vigente em níveis estadual e federal. Dá para enxergar alguma ação do estado no enfrentamento da estiagem?
Essa questão de situação de emergência, a gente faz de praxe. No ano passado, nós entramos em situação de emergência e não recebemos apoio de ninguém. Nem do governo estadual nem do governo federal.

 


 


Então, esse decreto de situação de emergência é de fachada?
Não existe. Ano passado, todos os prefeitos da região decretaram a situação de emergência e não saiu nada. Nenhum telefonema, eu recebi. A gente faz isso como questão de praxe. Isso nos ajuda no caso de uma emergência, quando a gente precisa fazer uma obra, por exemplo, abrir um poço de água e é feita a dispensa de licitação. Mas no resto, não ajuda em nada.
 
Como o senhor tem acompanhado as obras da transposição do Rio São Francisco? O projeto ainda divide os estados nordestinos?
Eu acho que é um projeto em que o governo está jogando dinheiro fora. Nos países de primeiro mundo, como os Estados Unidos, quando vai se fazer uma transposição, a obra só é realizada depois de o rio ser recuperado. Aqui, fizeram o contrário. Como é que você pega um doente, já está em estado terminal, e quer que ele doe sangue? Eu não seria contra o projeto se ele se preocupasse com a saúde do rio, que o mantivesse preservado e revitalizado. Agora, um rio que já está morrendo, que não tem condição de viver, ainda quer que se tire água? É um projeto muito maluco, louco, de gente que não pensa na questão ambiental antes de fazer um trabalho como esse. Se não houver agora um investimento semelhante ou maior com o da transposição, todo dinheiro gasto vai ser jogado fora, porque não vai ter uma gota de água para poder levar para outro lugar.
 
Qual é hoje o nível da vazão do Rio São Francisco?
No ano passado, era de 1,5 mil centímetros cúbicos por minuto. Hoje, já está em 900 milímetros cúbicos por minuto em relação ao mesmo período do ano passado. 
 
Então, já que vocês estão se sentindo desassistidos pelos governos estadual e federal, o que os prefeitos da região do São Francisco estão fazendo para enfrentar essa seca que já está próxima? Já existe uma articulação dos gestores da região?
Nós, prefeitos, vamos nos reunir nos próximos 15 dias para traçar uma estratégia e buscar uma solução para atender as nossas populações ribeirinhas. Porque, mesmo nós, não temos nenhum projeto emergencial. 
 
O fato de a região está mais afastada da capital interfere no atendimento das demandas dos municípios. O senhor acredita que há certo desleixo, pouca vontade, para atender os interesses da região oeste?
Eu creio que sim. E não é só na questão do rio. As estradas também estão acabadas. Tem pouco investimento na região. Se você ter ideia, de Lapa para Ibotirama, a pista acabou. De Lapa para Malhada, não existe mais. Se você sair de Santa Maria da Vitória para Brasília é um Deus nos acuda. Não tem um quilômetro que preste. E não é só nisso. É no geral.
 
As bancadas de deputados baianos, tanto na Assembleia Legislativa como no Congresso Nacional, têm se sensibilizado com a problemática do São Francisco? 
Olha, para ser sincero, em termos de políticos, só o senador Otto Alencar abraçou esse causa. Nós da região estamos nos articulando com ele para puxar essa caravana. Ele tem dado atenção, está se organizando para criar uma fundação para acompanhar os trabalhos. Então, é o único que está olhando para nós.  


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