Alberto Viana, pesquisador em turismo comunitário
Fotos: Luana Ribeiro / Bahia Notícias
“Quando começamos esse trabalho, há 10 anos, uma ONG de turismo era vista como pirataria”, conta o professor Alberto Viana, turismólogo e pesquisador em turismo comunitário e solidário em comunidades urbanas e rurais. Membro da Associação Nacional e Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo (ANPTUR), Alberto Viana fala sobre a situação do turismo alternativo aos destinos comerciais na Bahia e no Brasil, e explica a diferença entre turismo ‘na’ comunidade e turismo ‘da’ comunidade. Para o pesquisador, há uma tendência que o poder público passe a auxiliar de forma mais efetiva o turismo de base comunitária, já que, segundo dados da Organização Mundial de Turismo, a prática cresce 20% ao ano. "O Brasil já assinou até pactos internacionais – embora não tenha cumprido – reconhecendo essa importância e se comprometendo a dar apoio", explica. Entre as comunidades mais visitadas no estado, estão localidades na Chapada Diamantina e no Recôncavo Baiano.

Qual é o conceito de turismo sustentável?
Esse turismo, do ponto de vista acadêmico, é visto por nós como alternativo ao turismo convencional. Há várias nomenclaturas que variam de país para país, já levantamos 116 nomes para coisas muito parecidas, como turismo responsável, solidário, sustentável e de base comunitária. O que está por trás disso é o protagonismo de comunidades urbanas e rurais, que praticamente nunca foram chamados para fazer parte das rotas do turismo convencional. É um turismo construído passo a passo pelas comunidades, que desenvolveram um jeito de receber próprio, e que nós das academias, dos institutos técnicos, vamos beber dessa fonte e aprender com eles. Há uma diferença entre turismo ‘na’ comunidade e turismo ‘da’ comunidade. No primeiro, as pessoas visitam o local, tiram fotos e vão embora, e o dinheiro fica todo para alguma agência de turismo. No turismo ‘da’ comunidade, há uma troca de experiências entre o visitante e a população local.
Como e quando começou essa forma de fazer turismo alternativo?
As comunidades urbanas começaram a receber visitantes a partir da elaboração de projetos sociais: na área de cultura, meio ambiente, sexualidade e infância. Dessa forma, doadores internacionais começaram a vir conhecer a comunidade. Esse tipo de turismo é normalmente praticado por visitantes de outros países. Há muitas coisas da nossa própria cidade que não conhecemos e eles já conhecem – e na zona rural também. No meio rural, há também as comunidades quilombolas que tem um grande atrativo natural, que passaram a ser geridas pelas próprias comunidades. Por exemplo: o Poço Azul na Chapada Diamantina recebe o número de 12 mil pessoas por ano, e poucos sabem que é gerida por uma família de agricultores.
Turistas argentinas no Poço Azul, Assentamento Andaraí, Nova Redenção / Foto: Divulgação
Como os turistas estrangeiros ficam sabendo que existem esses lugares na Bahia?
A partir do turismo solidário e de voluntariado, em que as pessoas ou se doam ou doam recursos – materiais ou financeiros. Geralmente, essas comunidades são apoiadas por Organizações Não Governamentais (ONGs), algo que é impossível de acontecer no turismo convencional. Quando começamos esse trabalho aqui na Bahia, há 10 anos, uma ONG na área de turismo era vista como pirataria, então a gente era convidado a sair de sala e ouvir que ‘essa reunião não foi feita para vocês, foi feita para empresários’. E na verdade existem diversas formas de fazer turismo que fujam dessa visão econômica e empresarial. As pessoas que vivem nas comunidades não deixam de serem agricultoras ou quilombolas para serem empresárias de turismo. Elas continuam sendo o que são, vivem na comunidade, e a atividade turística ajuda a complementar a renda.
Há alguma ajuda governamental para a realização de turismo sustentável?
Muito pouca. Em nível nacional, o Ministério do Turismo fez um edital em 2008, mas de lá para cá, nada aconteceu. Há muita conversa, muita palestra, muita promessa, muita vontade de fazer, mas política pública, federal ou estadual, hoje não há. Primeiro porque os governos são eleitos por grande parte da população, então a relação de forças é muito desproporcional. Então, existe um predomínio de uma visão puramente empresarial, só de mercado. E nós viemos com toda a filosofia de economia solidária, de outra forma de gerir esses empreedimentos, que muitas vezes entra em choque com o turismo comercial, principalmente no litoral.
Na Bahia, quais são os principais pontos em que ocorre o turismo alternativo?
Como nós trabalhamos com pesquisa, fizemos um levantamento de comunidades urbanas e rurais envolvidas com essa temática, não necessariamente que já praticam: hoje são mais de 80 na Bahia. E os locais que recebem visitantes, apesar do levantamento estar desatualizado – a última vez em que fizemos foi em 2010 –, nós acreditamos que são entre 20 e 25 que recebem visitantes periodicamente, tanto na cidade quanto no campo. Aqui na Bahia, os principais pontos de visita são no Recôncavo e na Chapada Diamantina, mas há também locais indígenas e reserva extrativista no extremo sul e comunidades quilombolas na região nordeste do estado. Mas a concentração maior mesmo é na Chapada Diamantina, pelo apelo visual e pela questão comunitária, e Recôncavo baiano, pelo turismo solidário. O assentamento Andarí, na região da Chapada, recebe 12 mil pessoas por ano.
Como é a infraestrutura dos locais visitados? Onde e como os turistas ficam hospedados?
Qualquer pessoa pode ser um visitante solidário e comunitário em algum momento da vida. Nós vemos vários grupos que vêm visitar o Pelourinho, o Farol da Barra, o carnaval, mas também querem conhecer uma comunidade, querem visitar um projeto social. Por exemplo, eu acompanhei lá no Haiti um grupo que estava indo na época do terremoto. Há agências especializadas que têm acesso a um banco de dados para buscar pessoas que querem se doar naquele momento, que pagam para viajar para poder ajudar essas comunidades. O turista pode passar uma noite na casa de um agricultor, aprender como se gere uma casa de farinha, uma agroindústria, dar uma aula de como montar uma escola, fazer um mutirão para construção de casas, entre outras coisas.
Qual o tempo de estadia em que os turistas geralmente passam nesses locais?
No recôncavo nós tivemos uma experiência interessante com italianos que passaram de um dia a cinco meses no local. Há um projeto nos Estados Unidos em que as pessoas antes de decidirem a profissão que irão seguir, de escolherem que curso irão fazer na universidade, passam um ano viajando pelo mundo. Eles convivem no dia-a-dia da comunidade, dando auxílio financeiro. Podem trabalhar, por exemplo, em um assentamento ligado ao Movimento dos Sem Terra (MST) no setor de educação, de saúde, de gênero, trabalhar com atividades lúdicas com crianças e participar do grupo de teatro comunitário.
Quais os principais benefícios do turismo sustentável para as comunidades?
Nós vemos duas formas de benefícios: tem os monetários, que são ligados a renda e a entrada de recursos financeiros, e os benefícios não monetários, que às vezes são até maiores. Tem comunidades que nem querem saber de receber remuneração direta, tanto no Brasil como fora. Eu tive uma experiência com um grupo de mexicanos que se organizam na forma de receber o grupo de turistas, e querem apenas que o grupo faça uma doação para a comunidade: seja na área de energia, de meio ambiente ou recuperação de estradas, mas não entra nenhum recurso para remunerar alguém. No caso aqui do Brasil e especificamente daqui da Bahia, as pessoas geralmente são condutoras de visitantes, passam por um curso de capacitação, e cobram uma taxa para acompanhar os turistas e demonstrar como é o dia-a-dia na comunidade. Assim, é possível agregar o serviço de condução de visitante, hospedagem, alimentação, a apresentação de um grupo de teatro comunitário, uma apresentação musical, uma festa gastronômica. E para o turismo convencional, isso não existe.
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Turistas dos Estados Unidos na comunidade do Calafate, em Salvador / Foto: Divulgação
Qual é o perfil dos visitantes que vêm fazer turismo comunitário na Bahia?
Tem de todos os tipos. Eu já acompanhei grupos de idosos a jovens entre 14 e 17 anos. Aqui no Calafate, em Salvador, que para nós é uma comunidade desconhecida, acompanhamos, em janeiro, um grupo de estudantes de psicologia e geologia que vieram dos Estados Unidos trabalhar em um mutirão de reforma do coletivo de mulheres local. Os estudantes passaram cinco dias pintando e ajudando na reforma e trocando experiências. É por essa característica solidária que a gente vincula esse turismo mais à economia solidária do que à economia de mercado. E por isso talvez não tenha tanto espaço, o governo ainda não percebe que esse turista usa um avião para chegar aqui, aluga carro, dorme em hotel em Salvador, mas depois vai viver em uma comunidade durante um período. O turista deixa renda lá e consume produtos do local. Beneficia diretamente a comunidade. Quando o turismo está bem organizado, a troca cultural é muito grande.
Há uma expectativas em o poder público reconhecer e auxiliar o funcionamento do turismo comunitário?
Tem um dado da Organização Mundial de Turismo que mostra que esse tipo de turismo cresce em uma média de 20% ao ano. O Brasil já assinou até pactos internacionais – embora não tenha cumprido – reconhecendo essa importância e se comprometendo a dar apoio. Em termos de América Latina, praticamente o único país que não tem uma articulação e política nacional é o Brasil. O assessor do ministro do Turismo se comprometeu a voltar a abrir um espaço dentro do ministério. Nós estamos preparando uma conferência nacional para o segundo semestre em Brasília, para que possamos voltar a ter um diálogo direto com o poder público. A ideia é também que as próprias comunidades participem disso e ajudem a articular uma parceria com o governo.
