Sexta, 21 de Dezembro de 2018 - 16:00

Instituto Tecnológico de Piritiba leva curso de Computação Criativa idealizado pela Universidade de Harvard para o sertão da Bahia

por José Amancio Macedo Santos e Thiago A. Barbosa

Instituto Tecnológico de Piritiba leva curso de Computação Criativa idealizado pela Universidade de Harvard para o sertão da Bahia
Foto: Divulgação

O primeiro curso de Computação Criativa realizado na Bahia conta mais de uma história. A primeira história está relacionada ao seu significado dentro do contexto da educação e formação dos jovens, na denominada era da informação. Vivemos uma era caracterizada pela disponibilidade de informação e ampliação da capacidade de comunicação e de processamento de informações. É preciso, portanto, que os jovens sejam preparados para lidar com os desafios complexos que as mudanças dos novos tempos têm imposto à sociedade. O Instituto Tecnológico de Piritiba (ITPi) deu um passo importante neste sentido ao realizar, em sua cidade sede, um curso de Computação Criativa idealizado pela Universidade de Harvard. A computação criativa se baseia na ideia de desenvolver conexões pessoais, utilizando elementos lúdicos para estimular a criatividade, imaginação e interesses através da computação. Além disso, os estudantes são estimulados a compreender o erro como uma oportunidade de aprendizagem, o que aumenta sua autoconfiança.  Com base nestes princípios, o curso de 30 horas promovido pelo ITPi e idealizado por uma das universidades americanas mais importantes do mundo, ocorreu entre setembro e dezembro deste ano e teve 23 concluintes. O curso foi formado majoritariamente por estudantes dos anos finais do ensino fundamental (na faixa etária de 13 anos) da rede municipal de ensino de Piritiba-BA.

 

É senso comum que o impacto do investimento em educação pode levar o tempo de gerações para ser observado. Apesar disso, é inegável o significado de uma ação formativa como essa, ao criar oportunidade para jovens de baixa renda de uma típica cidade do sertão nordestino. E assim, o primeiro curso de Computação Criativa da Bahia conta sua segunda história. Esta história tem a ver com o contexto e a forma como toda a ação foi engendrada na cidade de Piritiba. Piritiba é uma típica cidade do sertão nordestino, no interior da Bahia, com população em torno de 25.000 habitantes e baixos indicadores sociais. Considerando o IDEB, principal indicador utilizado pelo governo federal para avaliar a qualidade do ensino nas escolas do ensino básico e fundamental, em 2017 Piritiba tem um dos piores indicadores entre os 417 municípios do estado da Bahia, para os anos finais do ensino fundamental. E a Bahia está na última colocação entre os estados do Brasil, juntamente com o Rio Grande do Norte e Sergipe.

 

Neste contexto, o curso promovido pelo ITPi pode ser visto como uma força contrária ao histórico de décadas de estagnação sócio-econômico vivenciado em Piritiba, e que é transversal a muitos municípios do país. A relevância do curso, entretanto, é diretamente proporcional ao esforço necessário para sua realização. Muitos agentes estão envolvidos neste projeto. O ITPi atua como agente catalisador envolvendo várias organizações e pessoas. Professores da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) traduziram e adaptaram o material produzido pela Universidade de Harvard, além de realizar treinamento para professores de Piritiba. O poder público local, através da Prefeitura Municipal de Piritiba, Secretaria de Educação e Câmara dos Vereadores, ofereceram as condições para realização do curso, em uma visão que contraria a prática politica comum no Brasil, que é de priorizar apenas projetos que proporcionam resultados visíveis a curto prazo. Esta mobilização envolveu muitas pessoas com formação e habilidades diferentes, que atuaram em condições de trabalho pouco favoráveis, devido à indisponibilidade de recursos que a atual conjuntura do país proporciona. Apesar disso, a história contada demonstra que a capacidade de articulação da sociedade civil organizada, aliando conhecimento acadêmico e boa vontade do poder público, é um caminho viável para atender ao desejo de transformação que só a educação pode proporcionar para o futuro.

 

O encerramento do curso, realizado em 14 de dezembro, foi um evento especial. Estiveram presentes no evento os pais e familiares dos alunos, além de importantes representantes do poder público, como o prefeito da cidade, a secretária de educação do município e representantes da câmara dos vereadores. Pela manhã, representantes do Ramo Estudantil do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (o IEEE) da UEFS realizaram uma oficina com os alunos, que pela primeira vez tiveram contato com a programação de extensões de hardware. Eles programaram um “piano de banana”, baseado nos princípios de eletrônica. Este piano utilizava a resistência do corpo para fazer com que cada banana emitisse uma nota ao ser tocada. Pela tarde os alunos apresentaram seus trabalhos de conclusão de curso. Eram softwares de animações, histórias e jogos de computadores que foram desenvolvidos utilizando o Scratch, um ambiente de programação desenvolvimento pelo Massachusets Institute of Technlogy, o MIT, um dos mais importantes institutos de tecnologia do mundo. Ao final das apresentações, os alunos receberam o certificado de conclusão do curso emitido pelo ITPi.

 

Depois dessa experiência, certamente alguns adolescentes de Piritiba deixaram de ser meros consumidores de conteúdo digital de redes sociais e compreenderam sua capacidade de realização dentro desse universo digital. Foi uma oportunidade ímpar presenciar uma mudança de paradigma sobre a forma de oportunizar uma formação mais alinhada com as demandas do século XXI, buscando igualar as condições para uma parcela da população que esta sempre atrás na caminhada para um futuro de vida mais digno.

 

*José Amancio Macedo Santos é diretor presidentes do Instituto Tecnológico de Piritiba (ITPi) e professor Adjunto da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e Thiago A. Barbosa é presidente do comitê de atividades educacionais do IEEE para a América Latina e Caribe e é também professor Assistente da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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