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'Cidade de Deus' chega à segunda temporada com milícia e políticos corruptos

Por Alessandra Monterastelli | Folhapress

'Cidade de Deus' chega à segunda temporada com milícia e políticos corruptos
Foto: Divulgação

Em certo momento da segunda temporada de "Cidade de Deus: A Luta Não Para", Berenice, na pele da atriz Roberta Rodrigues, sai pelas ruas da favela para falar com moradores. Ela quer se aproximar de eleitores e disputar terreno com seu oponente, o vereador Israel, envolvido com a milícia e o crime organizado.
 

Ainda que ambientada em 2004, a trama toca em problemas contemporâneos, como a segurança pública e o envolvimento entre políticos e milícias. São assuntos atuais e frescos na memória após o período eleitoral.
 

Com a nova leva de episódios, "Cidade de Deus", da HBO Max, tenta manter seus fãs entretidos dois anos após a estreia. A primeira temporada terminou com o assassinato de Lígia, jornalista que investigava a articulação entre a milícia, políticos e traficantes na comunidade. Seu parceiro Buscapé, vivido por Alexandre Rodrigues, decide desvendar a articulação criminosa para vingar a amiga.
 

Jerusa, vivida por Andréia Horta, procura Israel para começar um novo negócio na Cidade de Deus. A empreitada serve a Reginaldo, secretário de segurança pública corrupto, que quer aumentar sua influência no território. Seus capangas invadem a favela, território disputado pelos traficantes liderados por Geninho.
 

"A série conversa muito com o momento em que estamos vivendo, em relação a golpes e ligações políticas com pessoas erradas. A arte brasileira sempre esteve no lugar de denúncia, de falar sobre o nosso tempo", diz Rodrigues, atriz que interpreta Berenice.
 

Quando estreou há dois anos, o seriado deu continuidade ao filme de 2002, um dos mais importantes para o cinema nacional. O longa de Fernando Meirelles e Kátia Lund atingiu plateias internacionais e popularizou uma imagem do Brasil para os estrangeiros. Com o passar dos anos, críticos apontaram que o filme romantizou a violência e estereotipou as favelas.
 

A série retoma o confronto entre bandidos e policiais, mas se propõe a mostrar outros enredos dentro da favela. Dinâmicas familiares, romances e o enfrentamento do crime sem armas também ganham tempo de tela.
 

A produção estreou já como um título conhecido, atraindo entusiastas do filme. Por outro lado, é preciso lidar com a comparação árdua em relação ao antecessor, um fenômeno cultural.
 

"O impacto de uma obra hoje está mais pulverizado", diz Matheus Nachtergaele. O ator encarnou o traficante Sandro Cenoura no longa de Meirelles. O personagem retorna na segunda temporada da série.
 

"Aquilo que acontecia com os filmes há 20 anos nem tem mais como acontecer. Hoje temos uma explosão de telas. Talvez os filmes eternos da vida serão os filmes que vêm antes dessa digitalização massiva", afirma, sobre a competição pela atenção entre celulares, tablets e televisores. "Acho que isso não tira o valor artístico."
 

"Cidade de Deus", a série, enfrenta a tensão instaurada após o cancelamento de "Cangaço Novo" pelo Prime Video, em setembro. A produção foi considerada um marco para o audiovisual brasileiro por criar um faroeste nordestino autêntico e com personagens complexos. Seu fim foi justificado pela plataforma por falta de audiência.
 

"Precisamos efetivamente comunicar com um número considerável de espectadores para que uma próxima temporada aconteça", diz Aly Muritiba, sobre a negociação com as plataformas de streaming. O diretor de "Cidade de Deus" também trabalhou na primeira temporada de "Cangaço Novo". Ele avalia que o tempo longo entre uma temporada e outra pode enfraquecer o interesse do público.
 

Silvia Fu, uma das produtoras da O2 responsável por "Cidade de Deus", diz que, quando as gravações de uma temporada terminam, a próxima já começa a ser escrita. Se ela vai sair ou não do papel, porém, depende dos números de espectadores dos capítulos que vão ao ar primeiro. "Se uma série não é renovada, é porque ela não teve o número de views suficientes para se bancar seu custo. É um sufoco pra gente."
 

O desafio é trazer para o streaming espectadores acostumados às novelas da TV aberta. "Tem um trabalho de formação de público grande ainda. Há nichos que ainda não conseguimos ocupar, como os de gênero", afirma Fu. Ela cita, por exemplo, o sucesso crescente de séries de terror, como as americanas "Carrie, a Estranha" e "It: Bem-Vindos a Derry".
 

CIDADE DE DEUS: A LUTA NÃO PARA
 

- Onde Disponível na HBO Max
 

- Classificação 16 anos
 

- Elenco Com Alexandra Rodrigues, Roberta Rodrigues, Andréia Horta e Matheus Nachtergaele
 

- Produção Brasil, 2026
 

- Direção Aly Muritiba