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Marca Bahia Notícias

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Bancada do agro mantém força na Câmara dos Deputados e deve ampliar domínio no Senado

Por Marcelo Toledo | Folhapress

Bancada do agro mantém força na Câmara dos Deputados e deve ampliar domínio no Senado
Membros da FPA reeleitos pela Bahia | Fotos: Reprodução / Câmara dos Deputados

Um dos setores mais críticos ao governo Lula (PT), o agronegócio reelegeu a maioria dos parlamentares ligados ao campo que concorreram na eleição deste ano para o Congresso e viu nomes ligados ao presidente sucumbirem em estados e posições-chave do segmento.
 

Além de manter a força na Câmara, a bancada do agro ganhou tração no Senado e a previsão é que cerca de 60% dos 81 senadores que estarão no cargo no próximo ano façam parte da bancada ruralista.
 

Criada oficialmente em 2002, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) conta hoje com 349 parlamentares, sendo 302 deputados federais e 47 senadores, e ampliou o alcance no atual governo Lula. Em 2023, eram 287 membros.
 

A relação com o governo federal foi turbulenta nos últimos anos. O agro afirma não existir uma política agrícola previsível e segura para os produtores rurais e que o campo enfrenta juros elevados, crédito caro e restrito, diminuição dos recursos efetivos de financiamento e um seguro rural insuficiente.
 

Entre 2021 e o ano passado, despencou a área de lavouras protegidas por seguro rural no país, segundo dados da Confederação Nacional das Seguradoras (Cnseg), de 13,7 milhões de hectares de área plantada segurada para 3,2 milhões de hectares no ano passado, queda de 76,6% –95% das apólices feitas por pequenos e médios produtores rurais.
 

A essa conjuntura, somam-se dificuldades climáticas, alta de custos e redução de margens, o que agravou o endividamento. Em agosto, ruralistas cobravam a renegociação das dívidas, um mês após Medida Provisória (MP) sobre o tema. Dias depois, saiu a portaria governamental, mas isso gerou nova queixa, por envolver, conforme os parlamentares, operações que somavam R$ 25,8 bilhões, abaixo dos R$ 100 bilhões anunciados pelo governo e muito aquém dos R$ 197,2 bilhões da chamada "carteira problemática" do setor. Resolveria só 13% do problema.
 

Nem todos os deputados da bancada tentaram reeleição, como o vice-presidente da FPA Arnaldo Jardim (Cidadania), enquanto outros disputaram Senado ou governos estaduais. Mas 67% dos que tentaram reeleição obtiveram novos mandatos nas urnas no último dia 4.
 

Até aqui, a frente conta com 180 deputados federais eleitos que já integram o grupo. Esse é, aponta o deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), presidente da FPA, o ponto de partida para a nova legislatura, até a adesão de futuros parlamentares.
 

No Senado, 40 senadores já têm vínculo com a bancada, número que pode chegar a 50, segundo Lupion, superando os 47 atuais. "Nossa expectativa é ampliar a representatividade, especialmente no Senado, onde podemos chegar à casa dos 50 parlamentares considerando os eleitos com perfis alinhados ao setor. Na Câmara, existe um espaço importante para novas adesões. O objetivo é manter uma bancada forte, representativa e comprometida com as pautas da agropecuária brasileira", disse.
 

Das 81 cadeiras do Senado, 54 estavam em disputa neste ano e membros da bancada do agro levaram 24 delas, incluindo nomes como Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara e atual primeiro vice-presidente da ACNB (Associação dos Criadores de Nelore do Brasil) —a raça representa 80% do gado de corte do rebanho nacional.
 

Eleito por São Paulo, André do Prado (PL) deve encorpar a bancada no Senado, assim como Guilherme Derrite (PP), hoje deputado federal e que já faz parte do grupo. No total, 18 atuais deputados foram eleitos senadores.
 

Lupion disse que o Congresso terá papel crucial para políticas que garantam competitividade e condições para o produtor seguir investindo e produzindo, e que o principal problema com o governo Lula foi a falta de uma política agrícola capaz de oferecer previsibilidade e segurança.
 

"Tivemos juros elevados, crédito mais caro e restrito, redução dos recursos efetivamente disponíveis para financiamento e um seguro rural que ficou muito aquém das necessidades do setor."
 

Presidente da Faesp (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo), Tirso Meirelles afirmou que o próximo Congresso será mais coeso e poderá pensar em planejamento a longo prazo para o setor e o país, e que levou ao vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), críticas sobre a relação do governo com o setor.
 

"O presidente não poderia tratar o agro dessa forma. Se ele teve as suas preferências, é uma coisa. As preferências mudam. Agora, se radicalizar, chamar nós de fascistas, falar que nós temos que ajoelhar, sabe? São coisas insanas, né? Óbvio que temos problemas no setor. Tem pessoas que tomam algumas posições erradas? Tem. Mas aí você tem as ações judiciais [...] Precisaria um jogo de cintura mais no sentido diplomático, trabalhando com a sociedade, um projeto de país, é um ganha-ganha para a sociedade. Ninguém quer ser melhor que ninguém, radicalismo tanto da esquerda como da direita não vai para lugar nenhum."
 

Segundo Meirelles, o seguro rural se destaca entre os problemas enfrentados pelo setor e é fundamental para que possa dar tranquilidade e permitir a recuperação no caso de problemas no campo. "O endividamento que temos hoje é por falta de seguro."
 

REVÉS GOVERNISTA
 

Além de se manter como um grupo robusto nos próximos quatro anos, a bancada do agro viu nomes ligados ao setor e ao governo Lula fracassarem nas urnas.
 

Dois exemplos são os ministros Paulo Teixeira (PT-SP), que comandou o Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, e Carlos Fávaro (PSD-MT), ex-titular da Agricultura. O primeiro não foi reeleito deputado federal por São Paulo, enquanto o segundo foi somente o quarto colocado na tentativa de se reeleger ao Senado por Mato Grosso.
 

Teixeira e Fávaro comandaram os ministérios desde o primeiro dia do governo e só saíram no primeiro semestre deste ano para disputarem as eleições.
 

Sobre um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), Lupion disse que a expectativa é que exista maior disposição para ouvir o setor e construir políticas que atendam às necessidades.
 

"O primeiro desafio será enfrentar o endividamento rural, criando condições efetivas para a renegociação das dívidas e a recuperação da capacidade de investimento dos produtores. Também esperamos avanços na oferta de crédito, no fortalecimento do seguro rural, na segurança jurídica e na garantia do direito de propriedade."
 

TERRITÓRIO DA DIREITA
Políticos ligados ao agronegócio dominaram em todo o governo Lula as participações em eventos ligados ao agronegócio e ao campo, como feiras agrícolas e festas de peão, e as transformaram em território da direita.
 

Ausente da Agrishow, principal feira de negócios do país, em seu terceiro mandato, Lula foi alvo de políticos da direita e nem o anúncio de uma linha de crédito extra de R$ 10 bilhões para a compra de máquinas agrícolas com juros abaixo de 10% foi suficiente para reduzir o distanciamento entre o petista e o agronegócio.
 

Em eventos como a Tecnoshow, maior feira do Centro-Oeste, em Rio Verde (GO), as cerimônias de abertura não contaram com representantes do primeiro escalão do governo federal.
 

Até festas de peão, como Barretos, só tinham políticos rivais de Lula. Em agosto, Flávio Bolsonaro discursou para um estádio de rodeios lotado, assim como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
 

Nos últimos anos, a festa contou com outros presidenciáveis, como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante). Convidado, Lula não compareceu.