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Notícia

Na China, paleontólogos descobrem fóssil de ave que pode ter desaprendido a voar

Por Reinaldo José Lopes | Folhapress

Na China, paleontólogos descobrem fóssil de ave que pode ter desaprendido a voar
Foto: Divulgação

Um fóssil encontrado na China indica que a origem das aves, ainda durante o período Jurássico (há cerca de 150 milhões de anos), talvez não tenha dependido tão diretamente do domínio do voo quanto se imaginava. Isso porque o esqueleto descoberto por paleontólogos do país asiático mostra uma ave primitiva que provavelmente tinha hábitos terrestres e não costumava decolar.
 

A descoberta "destaca a gama extraordinária de diversificações ecológicas e morfológicas que aconteceram perto da origem das aves", resumiu, em entrevista à Folha, o coordenador da pesquisa, Min Wang, que trabalha no Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia da Academia Chinesa de Ciências.
 

Wang e seus colegas descreveram a nova espécie de ave primitiva, batizada por eles de Yuezhuornis yangyuanensis, em artigo publicado na última quarta-feira (14) na revista científica britânica Nature.
 

Com idade estimada entre 149 milhões e 143 milhões de anos e medindo cerca de 50 cm da ponta do focinho (e ainda com dentes no maxilar e mandíbula) à extremidade da cauda, o bicho vem do sudeste chinês.
 

A espécie integra a chamada fauna de Zhenghe, que inclui diversas outras espécies do Jurássico, entre as quais há bichos do tamanho de corvos e outros só um pouco maiores do que pardais.
 

A morfologia desses bichos indica que eles eram capazes de voo, com diferentes graus de desenvoltura no ar, e que faziam parte do grupo designado como Avialae (algo como "asas de ave", em latim). É a parte da árvore genealógica dos vertebrados que inclui tanto as aves modernas quanto seus parentes extintos que estão mais próximas delas do que dos demais dinossauros.
 

A análise conduzida pela equipe de Wang no esqueleto incompleto e parcialmente articulado do Y. yangyuanensis coloca inequivocamente o bicho entre os Avialae. Mas o que chama a atenção são as características dos membros superiores e inferiores.
 

No bicho, que era bípede, as patas da frente são curtas demais para funcionarem como asas, enquanto as traseiras são compridas e delgadas, com a presença de uma grande garra em forma de foice no segundo dedo do pé. É uma unha que lembra a que aparecia nas patas do célebre Velociraptor das séries "Jurassic Park" e "Jurassic World", provavelmente apropriada para subjugar presas.
 

No geral, conforme revela a comparação conduzida pelos cientistas, é uma estrutura corporal que se aproxima da de certas aves modernas do grupo dos faisões (que não são conhecidos pela habilidade no ar, sendo animais basicamente terrestres) e é bem diferente das aves do Jurássico dotadas de voo verdadeiro.
 

"Esse conjunto de características indica que o Yuezhuornis tinha um estilo de vida altamente predatório, terrestre e sem voo", resume o paleontólogo argentino Fernando Novas, da Fundação de História Natural Félix de Azara, que comentou o novo estudo a pedido da Nature.
 

Se há poucas dúvidas sobre isso, a questão é saber qual o significado exato das características do fóssil recém-descrito para a sequência da evolução das aves. "A descoberta de uma ave não voadora e corredora no Jurássico tardio desafia a ideia de que a seleção em favor de características aerodinâmicas [favoráveis ao voo] foi a força determinada na evolução inicial dos Avialae", diz Wang.
 

"Um cenário possível é que os ancestrais do Yuezhuornis eram capazes de voar, porém perderam essa capacidade. Mas a ideia precisa ser testada por meio da descoberta de mais fósseis", pondera o pesquisador chinês. "É igualmente possível que o voo tenha evoluído mais de uma vez ao longo da história das aves."
 

Esse segundo cenário faria bastante sentido quando se considera que, entre os parentes dos Avialae que estão no ramo da árvore genealógica correspondente aos dinossauros, certos tipos de voo também parecem ter evoluído de forma paralela.
 

Os exemplos disso incluem o que, do nosso ponto de vista, parecem "experimentos" esquisitos, como penas de voo em todos os membros e mesmo membranas de pele, semelhantes às dos morcegos e pterossauros (répteis voadores). Isso poderia indicar que a intimidade com os ares tendia a aparecer com relativa facilidade dentro do grupo mais amplo a partir do qual as aves emergiram.
 

"Ora, parece óbvio concluir que, embora alguns grupos de dinossauros semelhantes às aves tenham evoluído capacidades de voo independentemente delas, certos membros verdadeiros dos Avialae, tal como o Yuezhuornis, poderiam ter seguido o caminho oposto, abandonando os hábitos voadores de seus parentes", escreve Novas.
 

Para o pesquisador argentino, o trabalho recém-publicado por seus colegas da China traz ainda implicações sobre os parentes mais próximos das aves entre os dinossauros — o ramo a partir do qual elas divergiram de forma mais direta, segundo ele.
 

É que o novo fóssil tem uma série de semelhanças intrigantes com pequenos dinossauros do grupo dos troodontídeos, enquanto uma ideia muito popular entre os paleontólogos hoje é que as aves teriam um parentesco mais estreito com os dromeossaurídeos (a família do Velociraptor). A análise da equipe chinesa poderia virar esse jogo em favor do primeiro grupo como "irmão" das aves.