Agro mira ministérios do Meio Ambiente e de Minas e Energia em eventual governo Flávio Bolsonaro
Por Alexa Salomão | Folhapress
Apesar de a campanha presidencial seguir nas ruas, numa acirrada disputa por votos na reta final do segundo turno, representantes de diferentes segmentos políticos e econômicos se mobilizam para emplacar indicados em um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), tanto no Executivo quanto no Legislativo.
Um dos mais ativos é o agronegócio. O setor tem inúmeros nomes, não apenas para o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária). Há movimentos no agro para tentar emplacar indicados também no Ministério do Meio Ambiente e no MME (Ministério de Minas e Energia), sob o argumento de que ambas as pastas interagem com o agronegócio.
As lideranças políticas do setor tentam montar um xadrez político de olho no Executivo e no Legislativo.
Para o Mapa, a disputa é acirrada. O favorito é o deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), presidente da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), mais conhecida como bancada ruralista, que apoiou Flávio.
Também já foram citados o economista e produtor rural Geraldo Melo Filho, hoje secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, no governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS), que é cogitado dentro das articulações com o MDB.
Na lista ainda estão Reinaldo Azambuja, ex-governador de Mato Grosso do Sul, e Mauro Mendes (União Brasil-MT), ex-prefeito de Cuiabá, ex-governador de Mato Grosso e senador eleito.
Mendes também é cotado para o MME. Engenheiro eletricista por formação, tem trânsito e interlocução com empresas de biocombustíveis.
A dupla indicação também envolve articulações políticas. Sua ida para alguma pasta abriria caminho para empossar no Senado seu primeiro suplente, Cidinho Santos (PP-MT), que é próximo da família Bolsonaro e participou das articulações de apoio a Flávio em Mato Grosso.
Em outra frente, representantes do agronegócio argumentam que é importante ter no Ministério do Meio Ambiente alguém com quem possam dialogar. Um nome novo que surgiu foi o do deputado Zé Vitor (PL-MG), engenheiro agrônomo que participou de discussões legislativas envolvendo licenciamento ambiental, exploração de recursos naturais e transição energética.
Aqui, a sugestão faz parte de outro arranjo mais amplo. Zé Vitor está indicado para substituir Lupion na FPA. Se fosse para um ministério, esse posto poderia receber Azambuja.
Para o Meio Ambiente, existe também movimentação para a volta de Joaquim Leite, ex-ministro da pasta no governo Jair Bolsonaro. Ricardo Salles, que também foi ministro na área, é outro nome.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS) é vista como porta-voz nata do agronegócio e boa opção como ministra no Mapa. Porém, há quem defenda que seja escalada na composição de forças no Senado para 2027.
O PL elegeu 19 senadores e deverá iniciar a próxima legislatura com uma bancada de 28 integrantes, a maior de um partido na Casa no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988.
Existe a expectativa de que a sigla busque a presidência do Senado, medindo forças com o atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que articula a reeleição com o apoio de Lula (PT), caso o petista vença a disputa presidencial.
Vitorioso nas urnas para seu primeiro mandato como senador, Arthur Lira (PP-AL) já indicou ter a intenção de disputar a presidência da Casa. Entre apoiadores de Flávio no agro, há quem defenda uma composição para a transição nessa presidência. Em um dos arranjos, Tereza Cristina poderia ficar na cadeira por um mandato e passaria o bastão para Lira na sequência.
O coordenador político de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), outro que poderia ficar na presidência, já é visto como forte candidato a ministro da Casa Civil em um eventual governo do PL.
Pessoas que acompanham a campanha afirmam que Flávio está focado em ganhar o pleito antes de definir nomes na Esplanada dos Ministérios, mas internamente já existem algumas sinalizações mais concretas.
Para o Ministério de Minas e Energia, ganhou muita força nos bastidores o nome de Adriano Pires, coordenador da área de energia no programa de governo de Flávio. Pires é conhecido pela família e já foi indicado para a presidência da Petrobras, em 2022, pelo então presidente Jair Bolsonaro, mas acabou não assumindo depois de uma sequência de questionamentos.
Pires é fundador do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), consultoria especializada em petróleo, gás e eletricidade que atende várias empresas. Na sequência do anúncio de seu nome para a estatal, o Ministério Público, junto ao TCU (Tribunal de Contas da União), pediu que a indicação fosse condicionada à apuração de possíveis conflitos de interesses.
O Comitê de Pessoas da Petrobras também identificou riscos nessa linha. Uma semana depois da indicação, o próprio Pires desistiu do cargo, afirmando que não conseguiria se desligar de sua consultoria no prazo necessário.
No mercado, Pires mantém uma relação de amizade com o empresário Carlos Suarez, com forte atuação no segmento de gás — proximidade que ele nunca negou, mas sempre afirmou não interferir em seu trabalho profissional.
Outro cotado para a área de energia é André Pepitone. O executivo ocupou a diretoria financeira de Itaipu tanto no governo Jair Bolsonaro, que o nomeou em 2022, quanto no de Lula, que o reconduziu ao cargo em 2023, após uma breve exoneração. Seu nome está na bolsa de apostas para diferentes cargos, incluindo o comando da usina binacional, dado o conhecimento que adquiriu.
Existe também um entendimento de que o novo Ministério da Prosperidade tende a ficar com Daniella Marques. Essa nova pasta está sendo desenhada para ser um superministério, dedicado a dar um novo rumo à política pública de fomento do empreendedorismo e requalificação profissional.
Segundo o desenho em discussão, deverá haver a fusão do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte com o MDS (Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome), responsável pela gestão do Bolsa Família. A Caixa Econômica Federal será escalada para dar apoio.
Quem acompanha o projeto defende que concentrar numa única estrutura os mecanismos de assistência social com ferramentas de fomento a pequenos negócios é uma tentativa de criar uma rampa de acesso: o beneficiário que depende de algum auxílio vai encontrar apoio do Estado para ingressar no mercado formal, seja encontrando um emprego ou assumindo um pequeno negócio.
A equipe responsável pelo plano econômico propôs ao ministério antecipar uma resposta ao impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho, que, acreditam os aliados de Flávio na economia, será significativo nos próximos anos.
A fusão de áreas proposta para o Ministério da Prosperidade está alinhada com outra medida já anunciada por Flávio, que é reduzir o número de ministérios. Hoje são 38, mas ele ainda não cravou o número final, ventilando que seriam 25 ou 27.
Dentro dessa sinalização, existe a percepção de que o eventual governo de Flávio pode resgatar configurações lançadas no governo do pai.
Os ministérios dos Transportes e de Portos e Aeroportos tendem a ser reunificados em um Ministério da Infraestrutura, por exemplo. Existe também o entendimento de que Fazenda e Planejamento trabalham melhor quando integrados.
