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Notícia

Premiê do Canadá diz que ameaças externas tentam dividir país antes de votação sobre independência

Por Folhapress

Premiê do Canadá diz que ameaças externas tentam dividir país antes de votação sobre independência
Foto: Divulgação

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, afirmou na quinta-feira (15) que ameaças externas tentam dividir o seu país para conquistá-lo. No mesmo evento, disse que o mundo, hoje, está mais perigoso. Dias antes, ele divulgou um vídeo no qual reiterou que a união nacional é crucial enquanto os canadenses enfrentam pressões internacionais, incluindo uma guerra comercial com os Estados Unidos.
 

O premiê fez as declarações durante uma campanha pela permanência da província de Alberta no Canadá. Os alertas ocorreram às vésperas de uma consulta popular, marcada para esta segunda (19).
 

Na votação, os moradores vão manifestar se querem iniciar um processo para a realização de um referendo sobre a independência da região, no oeste do país, que é rica em petróleo e faz fronteira com o território dos EUA.
 

A decisão de realizar a consulta foi anunciada em maio por Danielle Smith, a primeira-ministra provincial, cargo que no Brasil equivale ao de governador. Na ocasião, ela disse que era hora de votar e conhecer a vontade dos moradores.
 

A iniciativa saiu do papel após meses de mobilização de um grupo pequeno, mas vocal, de separatistas, que argumentam que a riqueza energética de Alberta subsidia regiões mais pobres do Canadá e que a burocracia do governo federal, sediado em Ottawa, prejudica a economia da província.
 

Pesquisas indicam que cerca de 70% da população de Alberta quer continuar no Canadá, enquanto um quarto (25%) apoia a criação de um Estado independente. O premiê Carney, porém, pede a seus apoiadores que não abaixem a guarda.
 

Segundo ele, a consulta ocorre no "pior momento" para o país devido à falta de perspectiva para uma solução do conflito comercial com Washington, o principal parceiro de Ottawa.
 

"Isso não é um jogo de pôquer. Um voto contra o Canadá seria um blefe perigoso que levaria a anos de grande incerteza", afirmou o premiê. "Votem como se o Canadá dependesse disso, porque depende."
 

No governo de Donald Trump, os EUA impuseram tarifas de 50% sobre produtos canadenses com o argumento de que Ottawa explora Washington há anos. O presidente também já defendeu que o Canadá se torne o 51º estado americano e chegou a dizer que pode recorrer à força econômica para incorporá-lo.
 

Alberta, por sua vez, tem papel fundamental na economia canadense por suas vastas reservas de petróleo, um dos pilares da estratégia de Carney para reduzir a dependência comercial em relação aos EUA. O premiê anunciou em julho a aceleração da construção de um novo oleoduto para ampliar as exportações de petróleo do país à Ásia.
 

Os separatistas, em paralelo, criticam as regulamentações ambientais federais, que, segundo eles, sufocam a indústria petrolífera.
 

O Canadá já fez consultas sobre a separação de uma província, mas nunca em Alberta. Autoridades em Quebec, região de maioria francófona, organizaram dois referendos sobre a independência, em 1980 e 1995. Nas duas ocasiões, os eleitores decidiram permanecer no Canadá, embora a vitória do campo contrário à separação tenha ocorrido por uma margem estreita em 1995.
 

Nos últimos meses, o movimento separatista pelo país ganhou força. O Partido Quebequense, favorável à independência, venceu uma eleição provincial em 5 de outubro e prometeu um terceiro referendo. A legenda, porém, condicionou a iniciativa à saída de Trump da Casa Branca e à conquista de maioria parlamentar. Como foi eleito sem maioria, o partido dependerá de outras legendas para aprovar leis.
 

O Canadá é formado por dez províncias e três territórios. O governo federal é responsável por assuntos de interesse nacional, o que inclui defesa, comércio e política externa. As administrações provinciais e territoriais, por sua vez, exercem poderes relevantes sobre áreas como saúde e educação.
 

Além da separação da província, a votação desta segunda abordará outros assuntos relacionados à imigração, educação, saúde e exigências de identificação dos eleitores, este último tema que, nos EUA, também é foco do governo Trump.
 

A votação em Alberta está prevista para terminar às 23h de segunda, no horário de Brasília. Os resultados serão publicados no site da comissão eleitoral provincial à medida que forem apurados, e a expectativa é que os números não oficiais sejam conhecidos em até 48 horas após o fechamento das urnas.
 

Mesmo que a maioria dos eleitores apoie o início do processo de separação, Alberta não deixará o Canadá de forma imediata. Smith, a primeira-ministra provincial, disse que, nesse cenário, respeitará o resultado e dará início aos procedimentos para um referendo juridicamente vinculante.
 

O processo, entretanto, já é alvo de questionamentos jurídicos. Após a consulta de Quebec em 1995, o Parlamento canadense aprovou, em 2000, a Lei da Clareza, que estabelece que negociações sobre a separação de uma província só podem começar diante de uma maioria clara favorável à medida, sem determinar um percentual específico.
 

A legislação também afirma que nenhuma província ou território tem o direito de deixar o país de forma unilateral. Uma eventual separação exigiria uma emenda constitucional negociada pelos governos federal, provinciais e territoriais, o que ainda não ocorreu no caso de Alberta.
 

Enquanto isso, a possível influência dos EUA sobre o movimento separatista é acompanhada pelo governo canadense. No início do ano, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, chamou Alberta de um "parceiro natural" de Washington. Mitch Sylvestre, líder da organização separatista Alberta Prosperity Project, por sua vez, nega que os interesses do vizinho tenham influência sobre o movimento.